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Desumidificador

Desumidificador

i, 16 de Fevereiro de 2018

 

1. “Governo Sombra

23H45

 

Carlos Vaz Marques modera, como sempre, os ânimos de tralará dos “ministros” João Migué Tavás, Pº Mexia e RAP. Um pequeno governo que procura cumprir a promessa que continuamente faz aos seus “eleitores”: a da análise mais lalala do momento.” (sic) (“Programação – Hoje”, p. 42)

 

Poder-se-ia pensar que algo de muito esquisito ocorreu durante a feitura das páginas do i reservadas aos destaques da programação televisiva, dado que os restantes textos da secção são geralmente normais, mas a sinopse de outro programa da TVI24, Autores, apresenta-se assim: “O programa é uma parceria TVI/Sociedade Portuguesa de Autores, e uma grande chatice, com apresentação de Mário Figueiredo e edição de Fernanda Freitas” (p. 43). Claro que a ideia de esboçar comentários humorísticos aos programas de TV portugueses até seria interessante (se leu a nota, Ricardo Araújo Pereira certamente disse que o i publicou a melhor descrição de Governo Sombra jamais feita), mas parece tratar-se de um caso esporádico de alguém que tentou ser engraçado, sabendo que não sofreria consequências de maior, devido ao número reduzido de leitores do jornal.

 

2. “Ontem, somente um dia depois de a bancada eleita no tempo de Passos se demitir, Fernando Negrão anunciou que é candidato (…)” (p. 2)

 

Sebastião Bugalho, jornalista especializado no PSD e no CDS, assina um artigo sobre o desconforto dos deputados “laranjas”, ignorados por Rui Rio durante a escolha do novo líder parlamentar do partido. No entanto, ao que o texto indica, Rio não terá quaisquer problemas, já que a demissão colectiva dos deputados do PSD eleitos em 2015 permitir-lhe-á colocar pessoas da sua confiança em S. Bento. Obviamente, quem se demitiu em 14 de Fevereiro foi apenas Hugo Soares, afastado do cargo de líder da bancada social-democrata. Pouco abaixo deste lapso, lemos que o deputado Adão Silva é “amigo pessoal de Rio e um dos únicos vices de Hugo Soares que apoiou (sic) o nortenho nas diretas”. Erros de português e frases sem sentido tornam-se cada vez mais comuns nas páginas do i.

 

3. “Triste país este em que levar uma criança a uma corrida de toiros ou a uma caçada é considerado ofensivo da sua formação, mas algumas dessas crianças possam ver os pais em casa todos dias à marretada um ao outro, e isso já não é problema.” (sic) (Rodrigo Alves Taxa, “O bobby já pode ir ao restaurante E nós, quando começamos a ladrar? (sic)”, p. 33)

 

O i tem aberto as suas páginas de opinião a jovens comentadores de direita com idades à volta dos 30 anos, como o publicitário João Gomes de Almeida ou os académicos da área do Direito João Lemos Esteves e Rodrigo Alves Taxa. O esforço de renovação do painel de comentário é louvável (e gratuito, já que os colunistas do i não recebem nem um euro do diário), mas as crónicas escritas pelos novos analistas têm deixado muito a desejar, quer na forma quer no conteúdo. Neste caso, Taxa critica a permissão da entrada de animais de estimação em restaurantes e inicia uma espiral de fúria (o artigo inclui 11 pontos de exclamação) que culmina na frase citada. Para além do incrível português utilizado, a afirmação não faz qualquer sentido. Os opositores das touradas são defensores da violência doméstica? Os casais que se agridem e não ensinam os filhos a caçar pecam por incoerência? Uma criança cujos pais andam “à marretada um ao outro” diariamente não terá problemas mais graves que não poder ver animais a serem mortos ou feridos? Não gosto de cães, mas reconheço que muitos deles são mais inteligentes que o Dr. Taxa.

 

 

4. “Encaro muito mal (a subida do salário mínimo) por duas razões. Por um lado, a diferenciação salarial tem um efeito de estímulo à qualificação profissional das pessoas. Se houver diferenciação salarial entre aqueles que têm ordenados mais baixos porque têm baixas qualificações e os que têm salários mais altos porque apresentam mais habilitações e qualificações acaba por criar um estímulo à qualificação. E isso é bom porque o país precisa de se qualificar para o futuro. (…) E depois há um outro aspeto (…) os trabalhadores começam a ter a sensação que aquilo que o governo fixa é que conta e não aquilo que as empresas podem pagar, o que acaba por criar um espírito de funcionário em toda a gente.” (Pedro Ferraz da Costa, empresário, p. 25)

 

O excerto da entrevista ao presidente do Fórum para a Competitividade que gerou polémica foi a frase de Ferraz da Costa destacada pelo i na capa (“As empresas não conseguem contratar porque as pessoas não querem trabalhar”), mas a opinião do empresário acerca do salário mínimo apresenta igualmente motivos para reflexão. Se bem entendi, caso um jovem trabalhador ganhe 580 euros mensais, começa a acomodar-se e a sentir os efeitos degradantes do estilo de vida burguês. No entanto, se auferir apenas 500 euros, vai acabar por pensar: “Eh pá, fiz mesmo asneira quando decidi seguir uma carreira na fast-food em vez de ser engenheiro informático como os meus pais queriam. Felizmente, o salário mínimo permitiu-me poupar dinheiro suficiente para pagar três anos de propinas e ainda sobra para o mestrado.” Quanto àquilo que o entrevistado designa por “espírito de funcionário”, parece tratar-se da mania do trabalhador de pedir ao patrão um salário melhor. As pessoas podiam trabalhar, mas não querem. As pessoas podiam estudar, mas não querem. Pedro Ferraz da Costa podia dizer alguma coisa sensata, mas não quer.

 

5. “Ainda que o caminho (da continência sexual dos católicos recasados) seja difícil, nunca deve deixar de ser proposto (…). Dito de outra forma, viver a continência é dizer “eu não estou devidamente capacitado/a por Deus para te amar como esposo/a, mas posso e quero ser para ti e para os filhos (se os houver) amparo e companhia, enquanto Deus o quiser.”.” (Maria José Vilaça, “Psicóloga católica”, p. 19)

 

Isto é só estúpido.

Chico amigo, o povo está contigo

Nascido numa família católica e baptizado na igreja seiscentista de Odivelas, andei na catequese durante nove anos até fazer o crisma, sob a orientação de uma jovem catequista que mais tarde abandonou a fé e aderiu ao PCP. Eu fiquei, embora saiba que poderia ser um cristão muito melhor. O desafio é bastante exigente (não me refiro à frequência com que se vai à missa), até porque se fosse fácil não teria qualquer significado. Trata-se de uma questão íntima de que não quero falar aqui, mas esta introdução serve como a já habitual declaração de interesses nos textos escritos a propósito da polémica causada pela nota pastoral do cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, e da abordagem deste ao tema dos crentes recasados e do eventual acesso destes aos sacramentos.

 

A sugestão de continência sexual feita por D. Manuel aos católicos em segundas núpcias que aguardam pela anulação canónica do primeiro matrimónio prova que pessoas virgens não devem falar sobre sexo. O celibato dos sacerdotes e a ignorância prática destes relativamente à cópula reforçam, de resto, a opção da maioria dos leigos por ignorar as normas clericais acerca da sexualidade. Apesar do incómodo da Igreja Católica com o corpo humano vir de longe, encontramos aqui mais um sinal da dificuldade do clero comandado por Roma em lidar com o deboche permanente no qual, segundo Henrique Raposo, vivemos desde o Maio de 68. Na verdade, o problema de fundo está numa mudança ocorrida nas mentalidades: as pessoas querem ser felizes agora, deixando de esperar pacientemente pela recompensa da vida eterna. Entre muitos outros factores, esta atitude, além de indignar o Prof. João César das Neves, contribui para o ambiente cultural laicizado no qual a religião constitui um elemento estranho. Na verdade, a Igreja habituou-se durante demasiado tempo a jogar sempre em casa, sob a protecção do árbitro Estado e perante adversários em inferioridade numérica (já muito se escreveu sobre as semelhanças entre o futebol e a religião). Agora que não tem tudo a seu favor, a “Igreja una, santa, católica e apostólica” precisa de ser mais activa e deixar a sua zona de conforto.

 

Algumas das críticas feitas ao difícil pontificado de Bento XVI, um intelectual sem a capacidade de aproveitar os media para chegar ao coração das massas, são injustas, mas o Papa Francisco trouxe de facto uma nova dinâmica ao catolicismo, no sentido de mais abertura, tolerância e proximidade de quem sofre. Bergoglio surgiu há cinco anos como um homem disposto a pegar no balde e na esfregona para iniciar a necessária limpeza da casa de Deus, cujas portas passariam a estar, de acordo com os Evangelhos, sempre abertas para todos os que procurem o Senhor. Longe de ser um revolucionário, o argentino é um reformista cauteloso, o que não impede o surgimento de reacções negativas entre os sectores mais conservadores. Alguns padres, como o colunista do Observador Gonçalo Portocarrero de Almada, assemelham-se a porteiros colocados de vigia à entrada das igrejas para inspeccionar quem passa e dizer “Tu não entras” àqueles que não encaixem nos rígidos padrões por eles definidos. A pretensão da corrente tradicionalista de voltar a celebrar a missa em latim é incompreensível, sobretudo por querer acentuar a distância entre leigos e clérigos. Ninguém aprendeu nada com a Reforma? O Concílio Vaticano II rompeu com uma Igreja ligada ao poder e à injustiça ao fazer os católicos compreenderem que só abrindo-se ao mundo poderiam evangelizá-lo. Voltar atrás seria fechar a Igreja sobre si própria em nome de uma suposta pureza que se confunde com arrogância.

 

 

O segredo da resistência da Igreja Católica ao longo de vinte séculos não foi uma intransigência absoluta, mas sim a adaptabilidade a novas circunstâncias e a sabedoria para mudar o acessório mantendo o essencial. A organização não democrática da Igreja não torna irrelevante o facto da maioria dos fiéis estar ao lado do Papa Francisco contra a “reacção”. Voltando ao início, máximas como “poucos mas bons” ou “se mudarmos, desaparecemos” fazem lembrar o PCP, abominado pelos católicos conservadores. Afinal, os extremos tocam-se.

João Lemos Esteves: um best-of

“ (…) não pretendemos, na presente prosa, deixar implícita a ideia de que José Sócrates e António Costa são iguais. Não: pretendemos, isso sim, salientar – sem dúvidas, nem hesitações – que António Costa é muitíssimo pior que José Sócrates. E muito mais perigoso para a democracia portuguesa. Não nos referimos a aspectos de ordem criminal: apesar dos indícios fortes de que os jogos de poder socialista ultrapassaram as fronteiras da legalidade, para nós, o princípio da presunção de inocência não poderá ser postergado em circunstância alguma. Referimo-nos, tão-somente, à forma de fazer política. É que no tribunal político, José Sócrates e o seu delfim, António Costa, são claramente culpados – e devem ser duramente condenados pelos eleitores. (…) O PCP já só quer saber dos seus tachos nas empresas de transportes e na máquina do Estado – o que se percebe: já que a União Soviética colapsou, Jerónimo de Sousa tenta fundar a União dos Sovietes tachistas! Faz sentido. (…)”

Sol, 28-08-17

 

“ (…) o discurso (de Trump) perante os representantes das Nações do mundo foi notável, quer na forma, quer no conteúdo. Na forma, o Presidente Trump representa uma “lufada” de ar fresco no contexto político internacional – finalmente, temos, de novo, um líder que fala claro, de forma congruente, sobre todos os pontos que a actualidade internacional impõe. (…) Que o “homem liberdade” (“freedom man”) Donald Trump nos salve a todos contendo o “homem foguetão” (rocket man) – evitando, destarte, uma catástrofe mundial possivelmente sem precedentes.”

Sol, 19-09-17

 

“O magnífico resultado de Assunção Cristas em Lisboa também é uma vitória do PSD. Nós próprios recomendámos o voto na candidatura do CDS/PP na capital de Portugal há três semanas: escrevemos então que o centro-direita deveria mobilizar-se no apoio a Assunção para tirar a maioria absoluta a Fernando Medina. Conseguimos! Missão cumprida! A mobilização dos militantes do PSD, em Lisboa, a favor de Assunção foi deveras relevante: primeiro, demos o crédito merecido à campanha muito inteligente de Assunção Cristas; segundo, ensinámos às elites do PSD que nós, militantes, prezamos a meritocracia – temos orgulho no PSD, mas queremos candidatos competentes e que mereçam a eleição (…). Os militantes e eleitores do PSD e do CDS estão de parabéns pelo resultado de Assunção em Lisboa!”

i, 03-10-17

 

 

“Ivanka Trump é, pois, tida como um exemplo idílico de mulher moderna, empreendedora, de sucesso, dedicada a causas sociais e públicas – sem, contudo, menosprezar a família e a religião. Em suma: a personificação perfeita da mulher americana ideal. Ou melhor, é a personificação do cidadão americano ideal.”

i, 14-11-17

 

“Donald Trump ajustou-se ao seu novo “fato” num período deveras breve, atendendo a que Trump nunca havia exercido funções políticas, provindo de um mundo como uma (sic) lógica totalmente diversa como é o empresarial. Mesmo os seus mais críticos devem reconhecer - com honestidade e boa fé - o mérito de Donald Trump em se tornar em tempo recorde “very presidential”. E, ao mesmo tempo, ter tido a inteligência e o bom senso de se rodear de colaboradores politicamente talentosos e com provas de competência dadas nas respetivas áreas, como são os casos do General John Kelly, o General James “Mad Dog” Mattis ou Steve Mnuchin e Stephen Miller.”

i, 26-12-17

 

“É verdade que o PSD se tornou o motivo e alvo principal de chacota nos principais meios de comunicação social portuguesa: isso é um sinal muito positivo. Significa que o partido incomoda os interesses instalados, os sacerdotes do politicamente correto que insistem na manutenção de um modelo de sociedade e de economia que já se provou errado.”

i, 16-01-18

 

“Visitando e almoçando na Trump Tower, constatámos que na loja da marca de Ivanka Trump trabalham quatro funcionárias – duas mulheres afro-americanas e duas hispânicas. Já no restaurante Trump Grill, a gerente é uma mulher que alterna com um trabalhador afro-americano, e na cozinha trabalham três hispânicos. (…) Ora, para quem é acusado de ser um empresário racista e xenófobo, não se pode contestar que, em termos de representatividade racial e de género, a Trump Organization é uma empresa de referência para qualquer coração repleto de humanidade e vocação progressista, como é o nosso…”

i, 06-02-18

 

 

 

O nosso tio Cid

Ser fã de José Cid assemelha-se a ser portista, na medida em que nos dá a sensação de pertencer a uma imensa minoria. Apesar de dar inúmeros concertos cheios de gente (o que não é sinónimo de qualidade, eu sei), Cid é frequentemente desvalorizado e colocado no mesmo campeonato do seu ex-amigo Tony Carreira ou considerado um mero cromo de uma caderneta antiga, recordado em devaneios nostálgicos. Muitos portugueses conhecem apenas hits como “Vinte Anos”, “Na Cabana Junto à Praia” ou as canções feitas por Cid a pisar o risco da foleirice (a propósito, “Como o Macaco Gosta de Banana” é um tema divertido, ideal para ocasiões como o Carnaval), ignorando que a obra do homem da Chamusca constitui uma vasta galáxia, sempre com planetas desconhecidos para explorar, fruto do talento de um artista que se move com o mesmo à-vontade em todos os géneros musicais imagináveis.

 

Como é sabido, José Cid começou a tocar “o jazz, a bossa nova, os blues e o rock and roll” na década de 50, mas só fez as primeiras gravações em 1967, na qualidade de teclista e vocalista do Quarteto 1111. A partir desse ano, a banda criou sucessivos discos de rock arrojados e diferentes de tudo o que se fazia em Portugal nessa época. Contudo, o Quarteto 1111 tinha de enfrentar a perseguição da Censura e o reduzido espaço comercial então disponível para o pop/rock português. Só através de um projecto paralelo, os Green Windows, Cid e outros membros do 1111 obteriam tremendos êxitos de vendas como “Vinte Anos” e “No Dia em que o Rei Fez Anos”. Depois do 25 de Abril, José Cid teve alguns problemas por não integrar a “esquerda musical” (na altura, Cid era sobretudo um admirador de Sá Carneiro) então predominante nas rádios e discotecas. Em 1976, já dedicado a uma carreira a solo, Cid aproveitou o cansaço do público com a politização para lançar temas ligeiros e alegres (“Ontem, Hoje e Amanhã”, “A Anita Não É Bonita”, etc.), enquanto prosseguia as experiências no rock progressivo iniciadas no Quarteto 1111, compondo e gravando o EP Vida (Sons do Quotidiano) e o LP 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte. Ambos os trabalhos passaram despercebidos em Portugal, mas o álbum de “rock espacial” tornar-se-ia uma referência internacional do género. No conjunto da década de 70, Cid tornou-se autor de uma discografia espantosa quer pela quantidade quer pela qualidade.

 

 

Em pleno boom do rock português, no início dos anos 80, José Cid foi à Eurovisão com “Um Grande, Grande Amor” e seguiu um rumo mais comercial, mas, a pouco e pouco, o dono do palacete de Mogofores foi ficando para trás no meio da onda de novidades surgidas na música nacional, até porque ninguém consegue permanecer sempre no topo. Sem parar de tocar, Cid conheceu uma fase de maior discrição até ao ano de 2006, quando os concertos no Maxime e a edição do álbum Baladas da Minha Vida deram origem a um surpreendente comeback, à medida que o músico fazia regressar os seguidores antigos e ganhava muitos fãs entre os jovens. Cid voltou a actuar em grandes salas como o Campo Pequeno ou o Coliseu do Porto e a percorrer o país para realizar concertos de mais de duas horas, durante as quais mostra uma voz sem falhas e um fôlego inesgotável. As actuações de Cid e da sua Big Band são sempre iguais e sempre diferentes, ao combinarem os clássicos do pianista com temas inéditos ou pouco conhecidos e estabelecerem uma relação especial entre o cantor e a assistência. Cid tem também feito espectáculos só com voz e piano/órgão ou centrados no jazz, para além dos concertos baseados na sua ainda inacabada obra de rock progressivo (o compositor vem adiando há anos uma espécie de despedida, o anunciado projecto Vozes do Além), já registados em DVD e marcados, entre outros momentos, pela parte impressionante em que o público entoa sozinho o tema-título de 10.000 Anos

 

O novo álbum do ribatejano, Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid, editado pela Acid Records em CD e vinil, contém várias referências ao passado, a começar pelos Beatles, banda da qual provém a inspiração para o título, a capa onde José Cid reúne personagens do seu universo pessoal e o tema “The Fab 4”, uma nova versão da “Ode to the Beatles” do Quarteto 1111. As evocações de Cid passam também pelas memórias do Botequim de Natália Correia, por Marilyn Monroe ou pelas aventuras de juventude recordadas num dueto com Tozé Brito, mas o disco não deixa de lado aspectos do presente como o e-mail, a Wikipedia, a Nova Gente ou os Capitão Fausto, a quem o cantor retribui a homenagem prestada em “Zecid”. Juntamente com vários dos músicos que o têm acompanhado nos últimos anos (Xico Martins, Gonçalo Tavares, Amadeu Magalhães) e velhos parceiros como Ramón Galarza, José Cid toca inéditos de sua autoria e pega em criações de outros poetas e compositores para formar um álbum onde encontramos um pouco de tudo, entre humor desconcertante e histórias de fazer chorar as pedras da calçada, sem que no meio de tanta heterogeneidade se perca a unidade associada ao estilo próprio de Cid, dotado de uma capacidade de reinvenção assinalável num jovem de 76 anos. Meio século depois do aparecimento de “A Lenda de El-Rei D. Sebastião”, José Cid mantém a torrente criativa de sempre e, longe de ficar preso ao passado, afirma-se novamente como uma figura incontornável da história da música portuguesa.

 

 

 

 

O novo sectário-geral

Só Deus e Cristiano Ronaldo são mais poderosos que o Correio da Manhã. A influência e invulnerabilidade do diário do grupo Cofina têm sido demonstradas por várias vezes, em particular no que respeita à coligação permanente entre o CM e o Ministério Público, cuja recente investigação sobre Mário Centeno nasceu de artigos publicados pelo jornal dirigido por Octávio Ribeiro. Apesar de cometerem sucessivos atropelos ao jornalismo, o Correio da Manhã e o seu braço televisivo, a CMTV, gozam de uma bizarra complacência no restante espaço público, como se tudo o que fizessem fosse perfeitamente normal e respeitável. Parece existir medo autêntico daquilo que Octávio Ribeiro e as suas tropas podem fazer caso sejam questionados. Esse medo é visível nas entrelinhas do comunicado do Conselho Geral Independente (CGI) da RTP que anunciou a não renovação do mandato de Nuno Artur Silva como administrador da estação pública. O CGI deixou claro que Silva não cometeu nenhuma ilegalidade e realizou um excelente trabalho desde 2015, mas não podia continuar em funções, pelo único motivo de ter um “conflito de interesses” no qual ninguém reparou durante três anos, antes do CM começar a visar a administração da RTP em manchetes sem fundamento consistente. A saída de Nuno Artur Silva constituiu uma vitória do CM e, em particular, do crítico de televisão do jornal, Eduardo Cintra Torres (ECT), cujos ataques a Silva são demasiado violentos, demasiado exclusivos (os gestores dos canais privados raramente são atingidos pelas críticas de Cintra Torres) e demasiado injustos para que os leitores não concluam pela existência de razões pessoais para Eduardo querer afastar Nuno. Mesmo assim, ECT ficou decepcionado, pois também desejava a cabeça do presidente da RTP, Gonçalo Reis.

 

Há que notar que Eduardo Cintra Torres (1957-) não é propriamente um novato sem conhecimentos de televisão. ECT publicou vários trabalhos académicos relativos à caixa mágica, como A Tragédia Televisiva (um estudo da cobertura noticiosa de eventos da dimensão do 11 de Setembro ou da queda da ponte de Castelo de Paiva), e Telenovela, Indústria & Cultura, Lda., onde acompanhou de perto a produção de uma novela da SIC. Antigo jornalista, professor da Universidade Católica e argumentista do telefilme da RTP Debaixo da Cama (2003), Cintra Torres exerceu a crítica de televisão no Público, durante um longo período em que se destacou por apreciações certeiras e irreverentes sobre a televisão portuguesa e se manteve atento a novos fenómenos, tendo sido um dos primeiros a reparar no valor dos Gato Fedorento. Paralelamente, ECT escreve desde 2003 uma coluna especializada em crítica de publicidade no Jornal de Negócios. A partir de 2011, Eduardo produz dois artigos semanais (“Panóptico” e “Imagens à Sexta”) para o Correio da Manhã, além de ser comentador da CMTV. Mentes mais ingénuas perguntariam se não existe um conflito de interesses em fazer crítica de televisão ao mesmo tempo que se colabora com um dos canais no mercado, mas ECT parece nunca ter colocado essa questão a si próprio.

 

 

Os espaços de que dispõe no CM permitem a Cintra Torres ir além das questões específicas da televisão e reflectir acerca da actualidade política. Embora sempre tenha assumido um posicionamento de direita, ECT não adoptava no Público uma orientação tão vincada como a actual. Assim, muitos dos parágrafos saídos da pena do crítico contêm expressões de nojo pelo Estado e por tudo o que a ele pertence, misturadas com ataques a António Costa, Marcelo Rebelo de Sousa e Catarina Martins, algumas das personalidades que, na opinião de ECT, gozam de excessiva protecção mediática. Desta forma, Eduardo Cintra Torres assemelha-se a um equivalente de direita de Mário Castrim, reconhecido pela sua competência crítica mas cuja dedicação ao PCP (que lhe valeu a alcunha de “sectário-geral”) o levava a fazer um escarcéu nas páginas do Diário de Lisboa se a RTP exibia por acaso uma parede com um grafitti do CDS. De igual modo, os contínuos reparos de ECT ao alegado esquerdismo da maioria dos media e à colaboração destes com a Geringonça fazem lembrar os militantes comunistas que encontravam apenas em O Diário a “verdade a que temos direito”.

 

O traço mais inquietante do registo actual de Cintra Torres é o seu arreigado “feitismo”, ou seja, as inúmeras ocasiões em que acusa alguém de estar feito com Costa, Marcelo, Sócrates, Salgado ou simplesmente com o “Sistema” vigente. Nos artigos de ECT, cujo acesso digital encontra-se há poucos dias restrito a assinantes do CM, qualquer discordância ideológica transforma-se em ataque pessoal e o indivíduo ou grupo visados estão sempre corrompidos pelo dinheiro ou pelo interesse. O crítico utiliza um tom rasteiro e mesquinho, repleto de insinuações e acusações não provadas, numa atitude de quem se sente moralmente superior a todos. Não há dúvidas de que, tal como outros colunistas do Correio da Manhã, Eduardo foi contaminado pelo ambiente poluído do edifício da Cofina (grupo com os mesmos accionistas da Celtejo) e tornou-se um sectário incapaz de analisar a realidade de forma isenta. As qualidades intelectuais de ECT estão lá, mas parecem ter sido deformadas pelo CM style e pela sua divisão do mundo entre criminosos, cúmplices dos criminosos e justiceiros situados acima do bem e do mal.

 

 

Esta situação não seria tão grave se Eduardo Cintra Torres não exercesse uma actividade em vias de desaparecimento na imprensa portuguesa, cuja crise tornou a crítica de televisão um género supérfluo. Não conheço mais nenhum crítico televisivo em actividade nos periódicos editados em papel, excepção feita a alguns dos textos de Eurico de Barros na revista Time Out. A agonia da análise crítica da televisão prejudica a própria TV, cada vez mais incapacitada de reflectir, presa a formatos ultrapassados e atolada num ambiente de caça às audiências no qual as piores acções são justificadas com os princípios mais nobres.

A tentação da bola

O “escândalo” em torno dos bilhetes para um SLB-FCP oferecidos a Mário Centeno motivou duas atitudes. Por um lado, a tomada de consciência da artificialidade da agenda mediática, orientada não pelo que realmente acontece mas pelas ideias de meia dúzia de pessoas interessadas em que se fale de determinado “facto” real ou imaginário (provavelmente, sempre foi assim, mas ainda havia consumidores ingénuos dos media). Por outro, a defesa de um maior distanciamento dos políticos portugueses em relação ao futebol. João Miguel Tavares considera que Centeno errou ao sentar-se na tribuna presidencial do Estádio da Luz, quando deveria verificar-se uma separação total (“um ring-fencing absoluto”) entre quem governa e os dirigentes desportivos, quase sempre envolvidos em processos judiciais. Em princípio, esse boicote até seria bom, mas há um problema, João Miguel: isso é impossível.

 

A questão da ligação entre política e futebol existe praticamente desde a introdução do football association em Portugal. De facto, a primeira figura da elite política lusa convidada para assistir a um desafio de futebol terá sido D. Carlos, patrono do encontro entre o FC Porto de António Nicolau de Almeida e o Club Lisbonense de Guilherme Pinto Basto, realizado no Porto em 2 de Março de 1894 e no qual os lisboetas ganharam a “Cup d’el Rey” ao derrotarem os anfitriões por 1-0, um resultado que torna fraudulento o actual lema do FCP (“A Vencer Desde 1893”). O facto do monarca observar o jogo ao lado do cônsul britânico no Porto, representante do país que quatro anos antes impusera a Portugal o Ultimato, motivou polémica na imprensa (certas coisas nunca mudam). A partir daí, políticos e autoridades estatais tornaram-se presença frequente nos principais jogos do futebol português.

 

Esta situação deveu-se não só ao sucesso da modalidade mas também à abundância de homens envolvidos simultaneamente na política e no dirigismo desportivo. Nos municípios mais pequenos, tornou-se comum que as figuras da elite concelhia pertencentes aos corpos gerentes do clube local ocupassem ao mesmo tempo cargos de topo nas autarquias, nos bombeiros ou nas misericórdias da vila. Em Lisboa e no Porto, a porosidade entre as direcções dos grandes clubes e o poder local e central (autarcas, deputados, ministros) manifestou-se ao longo de sucessivas décadas. As duas esferas cruzavam-se, mas nem sempre tinham interesses coincidentes. Como Rahul Kumar estudou em A Pureza Perdida do Desporto, as figuras destacadas do Estado Novo que assumiam a direcção dos “grandes” adoptavam, em nome do interesse dos clubes, estratégias opostas às ideias do regime, ao estimularem a profissionalização dos jogadores ou contratarem treinadores desafectos ao salazarismo como Cândido de Oliveira. O 25 de Abril originou um breve desentendimento entre os dirigentes das maiores colectividades, habituados a apoios estatais, e uma Direcção-Geral dos Desportos que tentava contornar ou reverter o profissionalismo, mas depressa se verificou uma conciliação entre os poderes político e futebolístico. No início do século XXI, falava-se mesmo de promiscuidade, enquanto Manuel Vilarinho declarava o apoio do Benfica ao PSD nas legislativas de 2002 e Rui Rio marcava a diferença ao entrar em conflito com Pinto da Costa. Mais tarde, a relação política-futebol desapareceu do debate público, até se descobrir agora o efeito nocivo da proximidade física aos presidentes de FC Porto, Benfica e Sporting.

 

 

Muitos políticos surgem ligados ao fenómeno futebolístico simplesmente porque, à imagem da maioria da população, são adeptos ferrenhos de um clube. O socialista Tiago Barbosa Ribeiro foi um dos deputados portistas a participar recentemente num jantar com Pinto da Costa e, a avaliar pelo texto e fotografia publicados por Barbosa Ribeiro no Facebook, seria muito difícil explicar-lhe onde está o problema do repasto. Os secretários de Estado envolvidos no “Galpgate” não terão percebido, devido a ingenuidade e à euforia nacional com o Euro 2016, qual era o mal de irem apoiar a selecção. Para além da espontaneidade, existe, obviamente, o interesse em beneficiar da projecção pública associada ao futebol, cujos efeitos na política foram demonstrados pelo comentador benfiquista André Ventura, e aproveitar os contactos que a comparência nas tribunas da Luz, do Dragão ou de Alvalade permite estabelecer. Tudo isto é encarado há muito tempo como natural e agora parece ser demasiado tarde para o impedir.

 

A mesma comunicação social que eleva o futebol a expressão da Pátria e concede tempo de antena diário ao discurso agressivo dos presidentes dos “grandes”, dotados de um protagonismo superior ao de quem dá pontapés na bola, não pode agora tratar os clubes como antros de vícios e exigir aos membros da elite política distância da gente repelente dos estádios. Curiosamente, os processos judiciais envolvendo Pinto da Costa, Bruno de Carvalho e Luís Filipe Vieira não levaram nenhum sócio dos respectivos clubes a exigir a demissão do seu presidente. Quando se tolera que o futebol obedeça a padrões morais próprios, dizer que os políticos não devem apertar as mãos dos líderes clubísticos roça a hipocrisia.

 

P.S. Um ano depois de criar este blogue, continuo a acreditar que desumidificar é preciso. Eu poderia contar uma longa história sobre o complexo processo de escolha do nome, conceito e template do Desumidificador, mas a verdade é que tudo surgiu em poucas horas, devido a um impulso do momento que se prolongará enquanto continuar a divertir-me e a conseguir pensar. Resta-me agradecer a todos os que leram e comentaram os meus posts, dando-me assim um precioso incentivo, e também a Jason Brennan. Afinal, qualquer pessoa que pesquise no Google acerca do autor de Contra a Democracia vem aqui parar.

TV Marcelo

Por estranho que isso hoje pareça, nove pessoas ousaram concorrer às eleições presidenciais de 24 de Janeiro de 2016 contra Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa. Entre figuras credíveis e outras apenas desejosas de gozar uns minutos de fama, todos se apresentaram como os candidatos capazes de bater Marcelo numa segunda volta. Para além da estratégia errada de atribuir antecipadamente o primeiro lugar a um dos candidatos e fazer toda a campanha em função dele, podemos dizer que a hipótese de realização de uma segunda volta numa eleição presidencial em Portugal é bastante improvável, já que nos nove sufrágios desse tipo ocorridos em 40 anos tal aconteceu por apenas uma vez (em 1986), nas eleições mais renhidas de sempre. O certo é que Rebelo de Sousa foi eleito com uma perna às costas, sem necessitar de produzir cartazes ou folhetos de propaganda. Afinal, o antigo líder do PSD já fazia campanha há anos no seu programa na TVI, onde combinava a análise política com elementos de reality-show, presentes na relação afectiva estabelecida por Marcelo com Júlio Magalhães, Judite de Sousa e outros pivôs do canal. Durante os primeiros dois anos de exercício do mandato presidencial, a televisão continuou a ser o espaço privilegiado de intervenção de Marcelo, sempre seguido por câmaras e microfones e disposto a responder a perguntas acerca dos mais variados temas.

 

Na verdade, mais do que fazer política na televisão, Marcelo Rebelo de Sousa tem feito televisão na política. Desde logo, ao perseguir o objectivo do movimento perpétuo, uma vez que, se nada estiver a acontecer no ecrã, o espectador pode mudar de canal. Da mesma forma, a televisão e Marcelo têm horror ao silêncio e orientam-se pela necessidade de falar continuamente, a não ser em casos excepcionais (como um longo abraço) nos quais o silêncio sirva para transmitir uma mensagem. Para abordar uma questão, não basta referi-la por palavras, é fundamental ir a um qualquer lugar, fazer algo e mostrar tudo, além de apelar à emoção e não à razão, recorrendo mais a sentimentos que a argumentos. De resto, a privacidade é um conceito do passado e quem não se exibe tem decerto algo a esconder. A resposta a um acontecimento deve ser imediata e em directo, sem perder tempo precioso a aguardar por mais detalhes. A emissão já não é feita em espaços fechados, mas na rua, junto do povo. A busca de audiências implica que o público tem sempre razão e torna obrigatório apresentar o que ele quer e, se possível, lisonjeá-lo. A mensagem transmitida precisa de ser o mais consensual possível, de modo a não ofender nenhum segmento da audiência. Afinal, os espectadores preferem a repetição à inovação e não se importam de ver a mesma coisa todos os dias. Acima de tudo, popularidade é sinónimo de qualidade, dado que milhões de pessoas não podem estar enganadas. No século XXI, assim se faz televisão, assim se preside à República.

 

 

Tal como outras estrelas da televisão, Marcelo Rebelo de Sousa possui os dons da naturalidade e da espontaneidade, fazendo crer que se comporta de maneira igual à frente das câmaras e longe delas, quando se mostra sempre disponível para tirar selfies com os fãs. Este aspecto é importante, já que o público consegue detectar quando alguém finge ser quem não é, como se viu no caso do “Programa do Aníbal”, estreado com audiências elevadas em horário nobre e que acabou quando já só passava às três da manhã. Marcelo tem adoptado uma imagem paternal na política portuguesa, assemelhando-se ao modelo do pai ideal difundido nas séries televisivas mais convencionais: alguém sempre presente, brincalhão e carinhoso, mas capaz de repreender os filhos quando é preciso (“vai já pedir desculpa aos senhores”, “estes números não são maus, mas podias fazer melhor”) e manter a ordem apesar das discussões entre as crianças, de modo a zelar pelo bem comum da família e assegurar um final feliz em cada episódio. Um formato tão popular como este não pode deixar de ser renovado por várias temporadas.

Roquete e eu

Quando estudei a história da selecção portuguesa de futebol, deparei com António Roquete, guarda-redes do Casa Pia Atlético Clube, internacional por 16 vezes e membro da mítica equipa das quinas que atingiu em 1928 os quartos-de-final do torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de Amesterdão, mas não lhe conferi um destaque superior ao de outros craques dos anos 20, como Jorge Vieira, Pepe, Vítor Silva ou Valdemar Mota. Posteriormente, na Torre do Tombo, ao consultar o arquivo da Comissão de Extinção da PIDE/DGS, descobri uma referência ao processo n.º 1111, instaurado pela comissão ao antigo subinspector António Fernandes Roquete, que se encontrava em 1977 na situação de liberdade provisória. A coincidência fez-me procurar o que já tinha sido escrito sobre Roquete, quer como futebolista quer como funcionário da polícia política, e compreender que ninguém tinha ainda cruzado as duas histórias. Voltei então à imprensa desportiva das décadas de 20 e 30 e, sem saber bem no que aquilo ia dar, comecei a examinar em detalhe as crónicas e notícias acerca do guarda-redes casapiano. Quanto mais informação reunia, mais fascinado ficava com aquela história incrível.

 

Apesar do seu apelido sonante, António Fernandes Roquete, nascido em Salvaterra de Magos no ano de 1906, conheceu dificuldades económicas na infância, quando os seus pais empobreceram e separaram-se, criando uma situação que resultou em 1916 na admissão de António como aluno interno da Casa Pia de Lisboa. Em Belém, Roquete gozou de condições de estudo raras em Portugal no início do século XX e descobriu a sua vocação para o desporto, aplicada sobretudo nas modalidades de futebol e natação (seria campeão de Lisboa em 200 metros bruços). Titular da equipa principal do Casa Pia desde 1924, o ribatejano depressa conquistou a crítica e o público ao revelar-se o melhor guarda-redes português do seu tempo. Roquete conheceu a fama e a glória, mas não a fortuna, uma vez que jogar futebol ainda não era uma profissão legalizada em Portugal. O casapiano passou por vários empregos antes de, em 1931, se tornar agente da Polícia Internacional Portuguesa, uma nova força policial criada pela Ditadura Militar para vigiar as fronteiras e os estrangeiros residentes no país, mas também envolvida no combate aos crimes políticos, faceta que se acentuou com a integração em 1933 da PIP (e de Roquete) na Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), conhecida a partir de 1945 pela sigla PIDE.

 

 

Depois de liderar os postos fronteiriços de Elvas e Valença e abandonar o futebol (com avanços e recuos, antes de optar de vez pela actividade policial), António Roquete ascendeu à categoria de inspector e tornou-se uma das principais figuras da polícia política do Estado Novo. Mais tarde, após cumprir em 1939 e 1943-1944 missões em Moçambique, António partiu definitivamente em 1947 para a colónia da África Oriental, onde chefiaria a Polícia Internacional, um pequeno grupo de agentes integrados no Corpo de Polícia de Moçambique e dotados de competências semelhantes às assumidas pela PIDE na Metrópole. O ex-futebolista permaneceu nessas funções até 1961, quando se reformou da função pública e começou a trabalhar como chefe de segurança do Banco Nacional Ultramarino e de uma empresa controlada por este, a Caju Industrial de Moçambique. De regresso a Lisboa após o 25 de Abril, Roquete foi constituído arguido, mas nunca seria preso e desfrutaria de uma velhice cuja pacatez apenas era quebrada por entrevistas e homenagens nas quais o casapiano recordava a sua carreira desportiva. Falecido em 1995, António Roquete é ainda hoje considerado o maior atleta da história do quase centenário Casa Pia.

 

Animado pelos precedentes estabelecidos por obras historiográficas de Ricardo Serrado (Cosme Damião – O Homem que Sonhou o Benfica) e Irene Flunser Pimentel (Biografia de um Inspector da PIDE. Fernando Gouveia e o Partido Comunista Português) e desejoso de corrigir várias informações falsas ou incompletas transmitidas nos esboços biográficos já existentes sobre Roquete, apresentei na FCSH-UNL um projecto de doutoramento com o título António Fernandes Roquete (1906-1995): Um “ídolo” do desporto nas polícias políticas do Estado Novo, cuja aprovação deu início a um período de exactamente três anos para fazer a tese. Apesar do meu plano da estrutura do texto e do tempo que gastaria a consultar as diferentes fontes, o processo de pesquisa e escrita foi bastante improvisado, até porque era frequente encontrar pistas que me conduziam a locais inesperados. Por exemplo, já a meio da investigação tive acesso a material de grande valor, como as cartas escritas por António Roquete às chefias da PIDE entre 1954 e 1960 (nas quais o ribatejano fazia críticas ácidas às autoridades coloniais de Moçambique) ou uma compilação de circulares e outros documentos da PVDE reunidos pelo então inspector nos anos 30. Biografar Roquete assemelhou-se a fazer um puzzle em que o número de peças ia aumentando a pouco e pouco, sem que fosse possível, devido às lacunas na documentação, encontrar todos os pedaços necessários para obter uma imagem completa.

 

Quem foi, afinal, António Fernandes Roquete? Concluída a biografia, só posso responder: não sei. As dúvidas e mistérios relativos ao seu percurso são inúmeros e imaginar aquilo que falta compete ao romance histórico e não à historiografia. O que descobri foi sobretudo como Roquete, preocupado com a sua imagem pública, queria ser visto pelos outros. Inteligente e habilidoso, sabia ser, dependendo do contexto, quer correcto, humilde e simpático quer brutal, prepotente e rancoroso, conforme fosse preciso despertar admiração, respeito, ódio ou medo em quem o ouvia. Admito que alguns eventuais leitores da biografia considerem demasiado neutra e complacente a forma como descrevi um agente da repressão ditatorial, mas preferi, em vez de proclamar abertamente a “moral” da história, deixar o leitor chegar lá sozinho através dos factos e citações que seleccionei. Mais problemático, e talvez mais difícil de julgar, é saber se, escondido nas entrelinhas do relato da vida do biografado, também está lá o biógrafo. Seja como for, depois de entregar a tese de doutoramento no ano passado, aguardo que a faculdade me informe do dia do juízo final, digo, das provas públicas, em que vou tentar defender os remates dos arguentes.

 

Tentações da direita

A vitória de Rui Rio nas eleições internas do PSD marca a viragem definitiva da página da austeridade, na medida em que representa o fracasso da corrente mais à direita do partido, pouco ou nada entusiasmada com Santana Lopes, mas que apoiou o ex-presidente do Sporting como último recurso para travar Rio e o “grupo maravilha” à volta do portuense. Os liberais-conservadores vêem chegar a hora de submergir e esperar por uma conjuntura mais favorável para voltar à superfície. Entretanto, prossegue o combate cultural promovido por numerosos comentadores da área liberal na imprensa, rádio e televisão, em blogues como BlasfémiasO Insurgente e, obviamente, nas redes sociais, além de actividades menos influentes ligadas à publicação de livros ou ao trabalho académico na Universidade Católica. O tom geral do discurso deste colectivo é, no entanto, crescentemente pós-revolucionário, quando, após o afastamento de Pedro Passos Coelho, lamentado pelos liberais como se fosse impossível surgir outro líder assim nas próximas décadas, pouco resta além de defender as “conquistas da Revolução” ainda não revertidas (os CTT privados, a legislação laboral) e tentar perceber porque é que o programa anti-estatizante só é aceite em Portugal num cenário de colapso económico. Neste contexto, têm surgido indícios de várias tentações às quais o universo do liberal-comentarismo parece disponível a ceder caso a situação política não se altere nos próximos tempos.

 

Tentação gonçalvista: O desdém de Alberto Gonçalves pelo país onde nasceu tem alastrado a outros colunistas do Observador e da restante galáxia da direita, através de lamentações acerca do povo português, viciado no colinho do Estado e incapaz de se fazer à vida e gozar as delícias do empreendedorismo. No fundo, para quê pregar no deserto, quando parece impossível converter um rebanho habituado a comer a erva socialista? A tendência para a generalização, curiosa em seguidores de uma filosofia individualista, associa-se às queixas pela excessiva inclinação à esquerda da comunicação social e pela atitude servil desta para com o poder, denunciadas em espaços de opinião espalhados por todos os media.

 

Tentação populista: Os argumentos racionais mostram-se supérfluos quando é tão politicamente rentável explorar a ideia de que há gente a viver à nossa custa. Por exemplo, não resulta defender que a RTP deve ser privatizada, mas dizer que a estação pública é gerida por tipos que ajudam os amigos dando-lhes trabalho numas séries de meia-tigela que ninguém vê financiadas com o nosso dinheiro já atrai mais atenção. Propor a atribuição pelo Estado de cheques-ensino para fomentar a liberdade de escolha dos pais não tem o mesmo impacto que descrever os professores como incompetentes dotados de privilégios injustificados. E de que serve gastar tempo a definir uma “alternativa”, quando podemos aproveitar o vento favorável para criar escândalos e espalhar a ideia de que todos os políticos são parasitas corruptos? Indignação é a solução.

 

Tentação trumpista: No início do ano passado, o liberal-comentarismo encarava o novo presidente americano com expectativa benévola. Apesar das suas tendências proteccionistas, Donald Trump era tão politicamente incorrecto e irritava tanto a esquerda que só podia ser boa pessoa. Da mesma forma, as entrevistas dadas por André Ventura na qualidade de candidato à Câmara de Loures tinham o mérito de recusar a atitude esquerdista de fingir hipocritamente que ainda existem racismo, machismo e homofobia, com o objectivo de criar divisões artificiais facilitadoras do controlo totalitário sobre a população (a sério, houve mesmo quem acreditasse nisto). Entretanto, a curiosidade pela Administração Trump deu lugar a um silêncio quase total perante as sucessivas asneiras, quebrado apenas pelos cronistas mais alucinados, enquanto o ocaso de Ventura acalmou a tentação de O Diabo. No entanto, ficou a pista de que algo de assustador se passa na direita portuguesa.

 

Tentação extraparlamentar: Muitos artigos de opinião recentes lamentam não só o que existe mas sobretudo o que não existe, em particular uma força partidária disposta a promover a “libertação da sociedade civil” e assumir sem rodeios a defesa de uma política patriótica e de direita. Para responder a este vazio, têm sido anunciados alguns projectos (Iniciativa Liberal, Partido Libertário) de constituição de novos partidos adeptos do favorecimento da iniciativa privada. De facto, a IL encontra-se já legalizada, preparando agora a sua "agenda" política. A eventual aproximação do PSD ao PS poderia dar um empurrão a estas organizações, mas basta pensar nos casos de PDC, MIRN e PND para ter muitas dúvidas quanto à possibilidade de alternativas conservadoras aos partidos de centro-direita presentes em S. Bento desde 1975.

 

 

 

Um portista em Odivelas

A escolha: A primeira recordação ligada ao futebol que tenho é a de brincar com um objecto azul (devia ser um artigo publicitário do Totobola, já que tinha os símbolos 1X2) onde o emblema do Futebol Clube do Porto surgia ao centro. Na altura, nem sabia bem o que aquilo era, mas vi na televisão a final da Taça de Portugal de 1990/91, na qual o FCP triunfou por 3-1 sobre o Beira-Mar, após prolongamento, e um dia disse: “eu sou do Porto”. Sem influência familiar no sentido de nenhum clube e indiferente à distância geográfica que separava Odivelas do Estádio das Antas, tomei a opção como natural. Na temporada de 1992/93, o meu quotidiano sofreu uma mudança brusca. Comecei a ler os jornais desportivos e a revista Dragões, fiz os meus pais comprarem a Fotobiografia do FC Porto escrita por Rui Guedes, passei a chorar baba e ranho quando perdíamos (agora eu fazia parte de um “nós”). Nos “dragões” treinados por Carlos Alberto Silva brilhava, entre outros, um ídolo fascinante: Vítor Baía, o guarda-redes quase imbatível cujos três anos de ausência criariam um vazio na baliza portista só preenchido com o regresso do agora número 99 para novas vitórias.

 

O penta: Em 1994, quando mudei de escola e entrei no 2.º ciclo, passei a ter menos tempo livre para seguir o futebol, mas mantive-me atento aos feitos do FC Porto. Nos arredores de Lisboa, a um autocarro de distância da Luz e de Alvalade, um adepto portista não seria já tão raro como nos anos 70, mas a escassez de apoiantes do emblema da Invicta notava-se quando o clube assegurava um novo título de campeão e um silêncio ensurdecedor enchia as ruas de Odivelas. Esta situação era frequente numa década de 90 dominada pelos homens de azul e branco, cujas consistência e regularidade admiráveis permaneciam independentemente do treinador e contrastavam com o caos organizativo de Benfica e Sporting. Quando ingressei no ensino secundário, o FCP era o primeiro pentacampeão do futebol português. Durante o quinquénio ímpar, eu só lamentava que o clube de Viena e Tóquio (finais ocorridas quando eu era novo demais para compreender) nunca chegasse longe nas competições europeias.

 

As finais: O ciclo ininterrupto de vitórias domésticas do Porto chegou ao fim quando os meus colegas sportinguistas foram campeões pela primeira (e quase única) vez nas suas vidas, mas os “dragões” mostravam um nível razoável que, com a vinda de Octávio Machado no início de 2001/02, se converteu em desnorte total. Até que José Mourinho entrou em cena e o sonho passou a confundir-se com a realidade. A final da Taça UEFA em Sevilha arrasou-me os nervos e acabei por mudar de canal no prolongamento, verificando a medo o resultado de vez em quando. Numa dessas espreitadelas, vi os futebolistas vindos da foz do Douro deitados a celebrar o golo de Derlei e imediatamente gritei-lhes para se levantarem, porque o desafio ainda não tinha terminado. Um ano depois, Gelsenkirchen foi bem mais tranquila, sem sobressaltos de maior e com o quarto de hora final vivido já em festa. Se eu não tivesse tanto medo de chamar a atenção, teria levado o cachecol do FCP para a faculdade no dia seguinte (hoje arrependo-me de não o ter feito). Quanto ao jogo da Taça Intercontinental, não me lembro de grande coisa, excepto do cansaço e do alívio final permitido pelo penálti de Pedro Emanuel. Já em 2011, ninguém acreditava que uma das melhores equipas da história do clube portuense pudesse ser travada pelo Braga em Dublin, onde o golo de Falcao constituiu um dos poucos momentos dignos de realce de uma partida nada espectacular, mas foi suficiente para elevar André Villas-Boas aos píncaros de onde desceria mais tarde. Assim, vi o FC Porto ganhar quatro troféus internacionais em menos de uma década, enquanto o pessoal de Lisboa continua à espera há mais de 50 anos.

 

 

A história: Após a licenciatura e o mestrado, tive de tratar o FC Porto de forma neutra, como objecto de estudo, durante a elaboração de livros sobre a história do futebol em Portugal. Tentei ser imparcial e objectivo, além de aproveitar para conhecer melhor duas fases particularmente interessantes do passado portista. Em primeiro lugar, as origens do clube, ainda mal conhecidas, marcadas pela polémica 1893/1906 e descritas por uma versão oficial que levanta muitas dúvidas. Por sua vez, os anos entre 1976 e 1980, nos quais Pedroto e Pinto da Costa empreenderam uma ruptura e puseram fim ao jejum de títulos, são cruciais para entender tudo o que aconteceu depois no futebol nacional. Entretanto, por ironia do destino, vi o meu nome na ficha técnica do Museu Cosme Damião, de forma imerecida, já que tudo o que fiz durante o “estágio voluntário” no Benfica foi fotografar jornais e revistas antigos. Como profissional, posso trabalhar para qualquer clube, mas admito ter sido bizarro entrar no Estádio da Luz enquanto desejava o insucesso desportivo do SLB.

 

O Papa: Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa já era presidente do FC Porto quando nasci e continua ainda hoje na cadeira do poder. Para os adeptos portistas, é difícil distinguir Jorge Nuno da instituição que lidera. O número único no mundo de taças que acumulou e, sobretudo, a consciência de que antes dele o FCP não passava de um clube regional sem acesso à glória envolvem-no numa espécie de gratidão eterna. Os títulos falam por si (revelando o êxito de uma vida dedicada a conquistar, manter e alargar o poder), mas não dizem tudo, por mais que tentemos não ver o lado escuro do homem da Livraria Lello e do Calor da Noite. O poder absoluto corrompe absolutamente e o culto da personalidade origina a crença na infalibilidade e a convicção de ser insubstituível. Os erros cometidos pela administração da SAD portista nos últimos anos foram demasiados para tentar justificar tudo o que aconteceu com mails.

 

O molusco: Sim, Henrique, reconheço que o Benfica alcançou o tetracampeonato porque foi melhor que o FCP e o SCP durante quatro anos. No entanto, desde que um ser misterioso enviou para a caixa de correio electrónico de Francisco J. Marques o conteúdo de mails trocados entre Pedro Guerra e outras figuras do Benfica e membros dos órgãos dirigentes do futebol português, os “azuis e brancos” envolveram-se num discurso violento contra o “polvo” através do qual o SLB tudo controlaria. É natural que o FC Porto proteste quando se vê prejudicado pela arbitragem e que a justiça investigue as alegadas irregularidades, mas o tom de defesa do bem e da moral adoptado por Marques e Pinto da Costa soaria menos forçado se não nos lembrássemos do que acontecia na primeira década deste século. Os políticos (excepto Rui Rio) beijavam a mão do presidente do FCP, como hoje beijam a orelha do líder benfiquista. O Apito Dourado não foi uma alucinação colectiva e só não teve efeitos mais graves para o Porto porque Carolina Salgado era Carolina Salgado. Perante as escutas e as notícias, dividíamos as reacções entre o embaraço e a negação enérgica, exactamente como fazem os adeptos “encarnados” hoje em dia. Há 10 anos, o clima de tensão e suspeição tornava o futebol luso irrespirável, no que era apenas uma ligeira amostra do ambiente actual. No fundo, tudo se limita a uma disputa pelo poder na qual quem estava em cima passou para baixo e vice-versa. Nada de novo debaixo do Sol. Mais do que a uma cruzada idealista, o FCP, ou quem fala por ele, procede a uma confissão de derrota.

 

O Sérgio: Numa fase em que, depois de enormes investimentos sem resultados, o FCP não tem dinheiro para gastar em contratações, o recurso à prata da casa surpreendeu ao revelar-se uma opção acertada. O mérito pertence todo a Sérgio Conceição, o psicólogo que melhorou o estado de um paciente cujo quadro clínico era marcado há quatro anos por sintomas como ansiedade, depressão, insegurança e perda de auto-estima. O pendor ofensivo do jogo “azul e branco” cria riscos na retaguarda, mas torna-se uma delícia após a exasperante dificuldade em marcar de temporadas anteriores. Não há razão para euforias, pois ainda não ganhámos nada, mas, já a meio da época, o FC Porto lidera a liga portuguesa, permanece em todas as competições e recuperou a confiança de que andava tão carente. É no campo que tudo se decide, mas, se esta história acabar bem, voltarei a celebrar. Mesmo sem sair de Odivelas, será como se estivesse nos Aliados com a minha gente.