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Desumidificador

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Banda sonora

O pai fundador dos bloggers portugueses, Pedro Mexia, acaba de publicar Malparado, a quinta compilação de posts da sua autoria. Nos diários escritos entre o final de 2012 e o início de 2015, Mexia volta a contar tudo sem contar nada, recorrendo a citações da música, do cinema ou da literatura para ilustrar os altos e baixos do quotidiano. Como melómano, o assessor cultural da Presidência da República destaca não só o valor artístico da música mas também a sua relação pessoal com esta. Mexia refere álbuns e músicos que o fascinam por “motivos estético-biográficos” (p. 126), na medida em que acompanharam o poeta ao longo de fases conturbadas e ajudaram-no a compreender melhor a vida enquanto os “ouvia compulsiva, maníaca e patologicamente” (p. 84).

 

Sem possuir os conhecimentos musicais de Pedro Mexia (não é para me gabar, mas musicalmente sou um calhau), também consigo recordar canções associadas a períodos específicos do meu passado ou que considerei adequadas àquilo que sentia num dado momento. Assim, apresento uma lista de 10 cantigas marcantes, não tanto pela qualidade mas por servirem como fotografias minhas. A presença do tema de Quim Barreiros explica-se facilmente: quando tinha 9 anos, achava que a canção era mesmo sobre gelados. Era um miúdo muito totó. Quanto às restantes músicas, usem a vossa imaginação:

 

 

Coldplay, “Green Eyes”

Fausto, “Navegar Navegar”

Jorge Palma, “Deixa-me Rir”

José Cid, “O Melhor Tempo da Minha Vida”

José Mário Branco, “Travessia do Deserto”

Pink Floyd, “Pigs on the Wing (Part One)”

Queen, “I Want to Break Free”

Quim Barreiros, “Chupa Teresa”

Rui Veloso, “A Gente Vai na Digressão”

Sérgio Godinho, “Mútuo Consentimento”

 

 

"São Jorge"

Em “São Jorge”, Nuno Lopes e Marco Martins reencontram-se 12 anos depois de “Alice”, um dos melhores filmes concebidos em Portugal. A curiosidade do espectador é também atraída pela abordagem realista dos “anos da troika”, uma perspectiva rara num cinema português que, excepto durante a Revolução, raramente politizou os seus conteúdos. A esse nível, Marco Martins evita cair no registo panfletário ou apelar à lágrima fácil. Visualmente, “São Jorge” possui momentos de grande beleza, onde Martins utiliza a escuridão (poucas cenas decorrem de dia) com a mesma eficácia opressiva de “Alice”. A combinação de som e imagem apresentada destaca uma das facetas da pobreza urbana: pessoas e barulho a mais em espaço a menos.

 

A longa-metragem assenta na interpretação de Nuno Lopes, a representar com todo o corpo em mais um trabalho notável que ainda agora começou a ser premiado. No entanto, o destaque atribuído a Jorge/Nuno e o facto de vermos tudo a partir dos seus olhos (ou das suas costas) acabam por se tornar excessivos. Pouco sabemos quanto às motivações das personagens que rodeiam o protagonista e a câmara centrada neste prejudica por vezes a fluidez da narrativa.

 

Embora “São Jorge” nem sempre dê golpes certeiros (a obra acabou por ter menos boxe que o previsto por Lopes e Martins no início do projecto), constitui um retrato sensível e expressivo de uma época. Na verdade, os habitantes deste filme não são especialmente bons ou maus. Todos fazem o que são obrigados a fazer num país submerso em dívida.

 

 

 

"Vidago Palace"

“Vidago Palace”, o primeiro projecto da vaga de séries históricas lançada pela RTP1, aproveita o cenário luxuoso do hotel da estância termal transmontana para contar uma trama passada no Verão de 1936 (o ano da morte de Ricardo Reis). A série criada, produzida e realizada por Henrique Oliveira combina actores galegos e portugueses e abriu com um episódio interessante, embora o formato “romance entre um rapaz bom e pobre e uma rapariga da nobreza arruinada cuja família quer que ela case com um tipo rico que é uma besta” seja o cliché mais gasto de sempre. Parece-me estranho que uma rádio portuguesa (a Emissora Nacional?) acompanhasse em directo a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Berlim, mas não é impossível. As personagens cometem um erro quando se referem ao Presidente da República como "Marechal Carmona", já que o militar ascendeu ao marechalato apenas em 1947.

 

 

"História do Povo na Revolução Portuguesa"

“História do Povo na Revolução Portuguesa, 1974-75” (Bertrand, 2014), de Raquel Varela, é uma obra essencial na historiografia sobre o período revolucionário, quanto mais não seja por apresentar uma cronologia exaustiva dos conflitos sociais e manifestações ocorridos nesses dois anos. Trata-se de um livro que propõe novas hipóteses e procura estimular o debate, ao provocar o leitor. Raquel Varela analisa a Revolução a partir de uma dada perspectiva ideológica, é certo, mas Rui Ramos (com quem a autora polemiza) faz o mesmo nos seus textos, tal como os outros historiadores que investigaram o PREC. Nem se pode acusar a historiadora de não definir claramente as regras do jogo.

 

Na sua crítica à “História do Povo”, António Araújo fez vários comentários pertinentes, tal como outros demonstrativos de alguma incompreensão do conteúdo da obra. Por sua vez, Fernando Rosas contestou a caracterização do Outono de 1975 como momento de crise revolucionária feita por Varela, salientando que, a partir de Setembro desse ano, a mobilização dos sectores político-militares mais à esquerda foi “um processo claramente defensivo” e não de assalto ao poder (Rosas, Fernando, “Ser e não ser: A Revolução portuguesa de 74/75 no seu 40.º aniversário”, in Loff, Manuel, Piedade, Filipe, Soutelo, Luciana Castro, coord., “Ditaduras e Revolução. Democracia e políticas da memória”, Coimbra, Almedina, 2015, pp. 201-202). O vasto trabalho de Varela não chegou, porém, a motivar um debate com a dimensão que seria expectável e desejável.

 

Não pretendo escrever uma recensão pormenorizada do livro, nem tenho conhecimentos para tal. No entanto, o conceito de “povo” utilizado por Raquel Varela causa algumas dúvidas. Durante a Revolução, todas as tendências políticas queriam ser “povo”, entidade da qual se reclamavam quer os operários da construção civil que cercaram a Assembleia Constituinte quer as manifestações do PS sob o slogan “Se isto não é o povo, onde está o povo?” Varela e os autores doutras people’s histories interessam-se, contudo, pelo “povo revolucionário, rebelde, resistente, dos que desafiam a ordem estabelecida” (p. 17) através de movimentos colectivos como greves, motins, ocupações, manifestações ou processos revolucionários. Ao longo de “História do Povo na Revolução Portuguesa”, encontramos descrições desenvolvidas do papel desempenhado por partidos, comissões (de moradores, de trabalhadores, de soldados) ou movimentos empenhados na transformação radical da sociedade lusa. No entanto, quase todo esse “povo” é constituído por operários e população urbana. O capítulo sobre a Reforma Agrária ocupa apenas 10 páginas, talvez devido à existência prévia de uma vasta bibliografia acerca do tema (ou à reduzida influência da extrema-esquerda nos campos do Ribatejo e Alentejo, dominados pelo PCP). Para além de acontecimentos como as eleições para a Constituinte e a actividade desta serem praticamente ignorados, muito pouco é dito sobre grupos como as classes médias, os pequenos e médios proprietários agrícolas e os trabalhadores do sector terciário ou quanto a organizações como a Igreja Católica, a imprensa não estatizada ou os partidos à direita do PCP. A população que não fez greve nem ocupou os meios de produção e que integrou manifestações contra-revolucionárias parece ser invisível ou composta por gente demasiado ignorante e manipulada para perceber o que estava em causa.

 

Este retrato parcial, no sentido em que mostra apenas parte da realidade, do Portugal de 1974/75 acaba por dificultar a explicação do que aconteceu e dos obstáculos que inviabilizaram a instauração do “socialismo”. E se a maioria do povo simplesmente não quisesse ser “povo”? A um nível mais pessoal, será que os meus avós, pequenos proprietários rurais despolitizados, eram menos “populares” que os operários da Lisnave? Ou que o meu pai, retornado de Moçambique em 1975 (no caso dele, foi mesmo um retorno, já que voltou à aldeia donde tinha saído ainda criança), foi um dos “cúmplices da barbárie” (p. 107) nas colónias que faziam vénias aos inspectores da PIDE? Digo isto não para ofender Raquel Varela, mas para lembrar que há muitos casos individuais que destoam dos sistemas preconcebidos e não faz sentido definir um lado “certo” e um lado “errado” da Revolução ou de qualquer outra fase histórica.

 

 

Curtas

1. Uma das razões para 2016 ter corrido tão bem a António Costa é o facto de quer capitalistas quer comunistas não se terem comportado de acordo com aquilo que a direita esperava.

 

2. No show de Marques Mendes, as críticas à liderança do PSD são o único tema realmente importante e no qual o comentador é de facto especializado. Tudo (mas mesmo tudo) o resto só está lá para encher. Se a SIC fizesse Marques Mendes despejar os seus “conselhos” a Passos Coelho nos primeiros cinco minutos no ar e preenchesse o tempo restante com música da Banda do Casaco, o programa ganharia muito em conteúdo.

 

3. Jornais e televisões de todo o mundo reproduziram o nome, a cara e a biografia de um homem completamente desconhecido antes de 22 de Março. De acordo com o princípio “bem ou mal, o importante é que falem de mim”, o terrorista de Londres foi um caso de sucesso.

 

4. Uma das reformas do sistema político propostas para melhorar a democracia portuguesa é a substituição dos círculos plurinominais por círculos uninominais. O enorme número de pessoas que defende essa mudança não me deixa dúvidas: trata-se de uma péssima ideia.

 

5. A historiadora Raquel Varela deve ser a única portuguesa a negar que o país sofre de um problema demográfico que coloca em risco a sustentabilidade da Segurança Social. Não sei se ela tem razão, mas finalmente aparece alguém que não entra em pânico com a descida da taxa de natalidade. Curiosamente, nenhum dos comentadores assustados com o envelhecimento da população europeia propõe como solução deixar entrar em grande número os migrantes do outro lado do Mediterrâneo, onde o problema é precisamente haver jovens a mais.

 

6. Para os comentadores de direita, todos os portugueses (sim, até mesmo Sérgio Godinho) têm culpa da situação a que o país chegou, mas certos políticos e certos empresários nunca têm culpa de nada.

 

7. Algumas das pessoas mais criativas da televisão portuguesa estão nos programas das tardes de fim-de-semana da RTP e da TVI. A variedade de expressões e argumentos que os apresentadores utilizam para chegar ao “ligue XXX” (e têm de o fazer pelo menos 10 vezes por hora) é simplesmente impressionante.

 

8. Ultimamente, vários colunistas têm defendido a reintrodução do serviço militar obrigatório. Claro que os comentadores não se esquecem de referir que fizeram a tropa e foi um período de grande valorização pessoal em que aprenderam a amar o país onde nasceram. Ah, espera, esquecem-se sempre dessa parte.

O pai tirano

Sem ironia, gosto de ler os artigos de José Manuel Fernandes (JMF). Além de escrever bem, numa linguagem simples, e ser bastante directo, o publisher do Observador não se importa de ficar em minoria e contrariar as opiniões mais habituais (pelos vistos, é uma sina que o acompanha desde os tempos da Voz do Povo). Essa atitude pode ser a mesma do automobilista em contramão que acha que todos os outros vão na direcção errada, mas adiante. Ao longo do debate acerca da invasão do Iraque, JMF revelava nas suas crónicas no Público, compiladas em “Ninguém É Neutro” (Quetzal, 2003), uma argumentação superior ao discurso troglodita de muitos apoiantes da iniciativa de Bush e Blair. No fundo, Fernandes foi metaforicamente para a guerra por ser um homem de fé (usava muito a palavra “acredito”). Não em Deus, mas na vontade dos EUA de usarem os seus super-poderes para o bem. Também interessante é a obra autobiográfica “Era Uma Vez… a Revolução” (Alêtheia, 2012), na qual JMF narra os seus anos de jovem militante maoista e, ao contrário de Zita Seabra, revela estar em paz com o seu passado, até porque nega ter feito algo de violento ou irremediável na década de 70. Embora sem sentido de humor, Fernandes é um jornalista experiente que procura ser lúcido na sua análise.

 

Ou procurava, já que, ultimamente, a pena de JMF demonstra um azedume crescente, não tão visível nas suas intervenções televisivas. Não é propriamente uma surpresa ver JMF atacar a Geringonça. Logo em Outubro de 2015, o cronista deixou claro como a opção tomada por António Costa após as eleições era imperdoável. No entanto, a falta de notícias positivas para a direita tem realçado uma vertente pouco agradável da persona de JMF enquanto comentador, o discurso moralista. Ao intervir na polémica acerca dos “copos e mulheres” do presidente do Eurogrupo, Fernandes até poderia acertar na crítica à tendência de culpar sempre os outros pelos nossos problemas, mas perde-se quando enumera aquilo que “nós” fizemos antes do resgate (bolas, o que é que eu tinha na cabeça quando comprei o BMW e o Mercedes?). Como diz José Mário Branco, a culpa é de todos em geral e não é de ninguém em particular. Curiosamente, o “nós” nunca inclui JMF, geralmente parco em autocríticas ao que fez depois de 1980. O post-scriptum a fechar o artigo de Fernandes resume a ideia central: União Europeia, Portugal, pais, filhos, tudo se equivale. Se os mais velhos humilham os jovens, é porque estes merecem um puxão de orelhas. Afinal, Portugal seria uma maravilha se não tivesse portugueses lá dentro.

 

 

A superioridade moral da direita tem assumido vestes diferentes consoantes os cronistas. Por exemplo, enquanto João César das Neves encarna o padre a censurar na homilia os pecados dos fiéis, JMF é o pai obrigado a manter na linha um filho preguiçoso. A mensagem de Fernandes pode ser resumida assim: “Filho, tu estás sempre a queixar-te. Sabes o que eu passei quando tinha a tua idade? E queixava-me? Eu nem piava, era sempre a trabalhar no duro, e foi assim que aprendi o que custa a vida. Tu achas que és perfeito, mas depois quando há bronca cá está o papá para te safar, não é? Passas o dia no telemóvel e no computador, meu mandrião. Tás sempre a pedir guito para gajas e cervejolas. Pois acabou-se! As coisas mudaram cá em casa! Vais ficar fechado no teu quarto e estudar dia e noite sem parar. Chega de lamúrias! Assume as tuas responsabilidades! Ouve, é para teu bem. Só trabalhando muito e tendo boas notas é que arranjas um bom emprego. Mas não vás para funcionário público, são só chulos e comunas.”

 

Numa altura em que Pedro Passos Coelho está (por enquanto) na mó de baixo, muitos consideram o presidente do PSD demasiado fechado ao exterior do seu círculo próximo. Na verdade, acho que Passos apenas lê e ouve as opiniões de José Manuel Fernandes e dos outros “ultras” do Observador, cada vez mais embrenhados numa realidade paralela construída com teorias da conspiração, embora se julguem os homens e mulheres mais realistas do país. E, para eles, o líder “laranja” não tem de mudar. São os outros 10 milhões de portugueses que estão errados, não Passos Coelho.

Políticas de Odivelas

Apesar da sua relevância no espaço da Grande Lisboa, o concelho de Odivelas é raramente mencionado nos media aquando da antevisão das eleições autárquicas. Recorde-se que Odivelas deixou de integrar o concelho de Loures a partir de 19 de Novembro de 1998, sendo a composição da comissão instaladora do novo município estabelecida a partir dos resultados eleitorais verificados no conjunto das sete freguesias (actualmente, devido às fusões, são apenas quatro) nas autárquicas de 1997, ainda antes da secessão. Assim, a presidência da comissão foi entregue a um representante do PS, Manuel Varges, que seria eleito em 2001 para a função de primeiro presidente da Câmara Municipal de Odivelas (CMO). Sem apoio do partido para se recandidatar em 2005, Varges foi substituído pela advogada Susana Amador, vencedora por três vezes consecutivas das autárquicas odivelenses. Em Outubro de 2015, Amador tornou-se deputada e cedeu a liderança da edilidade ao vice-presidente Hugo Martins. Além do predomínio socialista, verifica-se habitualmente o estatuto da CDU como segunda força mais votada e detentora da presidência de uma ou mais juntas de freguesia, seguindo-se na preferência dos odivelenses o PSD e, a grande distância, o CDS e o BE. Uma excepção ocorreu nas eleições de 2009, quando o jornalista e vedeta televisiva Hernâni Carvalho liderou uma coligação de direita que ficou a poucos votos da vitória no sufrágio para a Câmara e conquistou a junta da sede de concelho.

 

A seis meses da próxima escolha dos membros dos órgãos do poder local de Odivelas, apenas a CDU apresentou publicamente o seu candidato à presidência da CMO, Fernando Painho. As restantes forças partidárias parecem manter-se expectantes, não havendo ainda confirmação de uma candidatura de Hugo Martins ao cargo que já ocupa. No entanto, foi noticiada a recusa do convite para encabeçar a lista do PSD feito a Teresa Leal Coelho, então já preparada para atacar o município lisboeta (não me perguntem qual seria a ligação de Leal Coelho a Odivelas). Esta situação indica que os “laranjas” ainda procuram um candidato e não se coloca a hipótese de Hernâni Carvalho repetir a iniciativa de 2009, num cenário em que poderia sagrar-se vencedor. Permanecem, assim, as incógnitas acerca do menu a apresentar aos eleitores da terra da marmelada em Setembro/Outubro.

 

Não estou bem informado quanto àquilo que a Câmara fez ou não fez desde 2013, até porque a imprensa local, o semanário gratuito Odivelas Notícias, é fraquinha, limitando-se Henrique Ribeiro, o autor da quase totalidade do periódico, a reproduzir acriticamente o material enviado por clubes, partidos e autarquias (o facto do jornal ser grátis não permitiria grandes expectativas, mas o extinto Nova Odivelas, também dirigido por Ribeiro, era mais completo). Contudo, ao contrário do que acontece na capital, o tempo das grandes obras parece ter chegado ao fim em Odivelas. Hugo Martins gaba-se sobretudo da redução do défice camarário e das estatísticas que apontam Odivelas como o concelho português com maior taxa de natalidade, enquanto as ruas da cidade não apresentam modificações recentes. Sobre o actual presidente da CMO, apenas conheço as fotografias nas quais Hugo revela uma tremenda dificuldade em sorrir. Fiz Susana Amador ser presidente durante 10 anos, mas, passado todo este tempo de gestão municipal socialista, talvez fosse bom Odivelas conhecer um projecto alternativo ao do PS. O do PSD ou o do CDS? Nem pensar. O do BE? Pouco se sabe daquilo que os bloquistas pretendem. A CDU seria a opção mais viável, mas o preconceito dos comunistas quanto a novas construções e às relações da Câmara com os privados motiva reservas. Esperemos que a situação política municipal seja esclarecida no Verão. Quanto à Junta de Freguesia, julgo não haver problemas em reeleger o jovem autarca socialista Nuno Gaudêncio, até porque este pode justificar a escassez de obras com a calamitosa situação orçamental deixada pelo anterior presidente.

 

 

O Diabo nunca se foi embora

Entre os vários jornais de direita lançados em Portugal depois do 25 de Novembro, O Diabo (com título e cabeçalho idênticos aos do extinto periódico oposicionista que, no final da década de 30, publicou artigos de Álvaro Cunhal e outros intelectuais ligados ao PCP), surgido no início de 1976, destacou-se como um dos mais marcantes e duradouros. No entanto, o seu início não foi fácil, dado que um editorial da directora, Vera Lagoa, contra o então Presidente da República Costa Gomes levou O Diabo a ser suspenso pelo Conselho da Revolução logo ao segundo número. Durante a suspensão, Lagoa criou O Sol, mas, já em Fevereiro de 1977, regressaria ao semanário do mafarrico, publicado ininterruptamente desde então.

 

O sucesso de O Diabo resultou em grande parte do carisma e dos textos sem papas na língua de Vera Lagoa, tal como dos cartoons de Augusto Cid, também criador do grafismo do jornal. O semanário, num tom menos radical e salazarista que o de A Rua ou O Dia, atraía um público formado sobretudo pelas bases de PSD e CDS e pelos jovens dos novos grupos de extrema-direita, participantes na organização das manifestações do 1.º de Dezembro promovidas por Lagoa e que revelaram a “rua” conservadora. Além dos artigos de comentário político e das secções de crítica de cinema (onde se estreou Eurico de Barros), livros e gastronomia, O Diabo possuía um noticiário vasto, no qual se incluíam trabalhos de jornalismo de investigação relacionados com os casos Angoche e Camarate, entre outros. O discurso anticomunista constituía um traço essencial da publicação, dedicada a satirizar os artistas “progressistas” e a imprensa de esquerda. Como Herman José afirmou num sketch de “O Tal Canal”, O Diabo e O Diário (controlado pelo PCP) comiam-se um ao outro. Diga-se, já agora, que Vera Lagoa e o semanário por si dirigido merecem um estudo mais profundo.

 

A descida da temperatura política portuguesa, o aparecimento de O Independente (para o qual Cid se transferiu) e a morte em 1996 de Vera Lagoa, sucedida na direcção pelo seu marido José Esteves Pinto, diminuíram a relevância de O Diabo, apenas citado pelos outros jornais a propósito das crónicas de Alberto João Jardim. Quando estas cessaram, o periódico tornou-se quase invisível. O trigésimo aniversário da publicação foi abordado pelo Público neste artigo que descreve O Diabo como um jornal agora semelhante aos demais e ideologicamente plural, já fora do seu tempo e distante da linha delineada pela fundadora. Contudo, nos anos seguintes, o semanário tornar-se-ia a voz da extrema-direita na imprensa portuguesa, voltando a zurzir os governos e partidos de esquerda e acolhendo nas suas páginas os nostálgicos do Estado Novo, como o antigo inspector da PIDE Óscar Cardoso. Já em 2016, António Ribeiro Ferreira assinalou respeitosamente os 40 anos de O Diabo ao destacar um percurso coerente e sem concessões ao inimigo esquerdista.

 

Após as lideranças de Esteves Pinto e Duarte Branquinho, o quarto director de O Diabo, o militante do CDS Miguel Mattos Chaves, procedeu recentemente a algumas alterações no jornal, ao polir a linguagem alucinada das manchetes e renovar o painel de colunistas, no qual entrou Henrique Neto e saiu o historiador do PNR Humberto Nuno de Oliveira. Todavia, o formato do “semanário político” mantém-se idêntico. Todo o jornal é opinião, até porque os poucos artigos de “Actualidade” presentes nas 24 páginas são claramente tendenciosos. A ausência de publicidade e as vendas irrisórias em banca tornam estranha a sobrevivência de O Diabo, que reclama uma tiragem média mensal de 25 mil exemplares. A explicação poderá estar nas assinaturas, incentivadas pelo periódico através da publicação de um cupão para subscrições anuais ou semestrais. Ao contrário do que muitos pensam, O Diabo continua por cá. Não se sabe é se a vida longa do projecto de Vera Lagoa constitui um bom ou um mau sinal.

 

 

A nona arte

Eu costumava apresentar-me como um fã de banda desenhada (conceito trazido de França por Vasco Granja para substituir a designação tradicional “histórias aos quadradinhos”), até perceber que chamar-me isso constituía um insulto aos verdadeiros nerds. Afinal, nem sequer estou familiarizado com duas das grandes correntes do género, os super-heróis americanos e a manga japonesa. No entanto, a BD foi muito importante na minha iniciação à leitura e, ao longo dos anos, continuei a achá-la bastante interessante e tematicamente rica. Apresento-vos as minhas 10 principais referências no consumo de BD, por ordem de entrada em cena.

 

Disney: Quando eu era miúdo, já existiam à venda publicações da Disney editadas em Portugal (Hiper Disney, Disney Aventura, As Melhores Histórias, etc.), mas ainda estavam disponíveis nas bancas periódicos importados do Brasil, como as revistas do Zé Carioca, essa personagem admiravelmente imperfeita. Dentro do universo de Patópolis, preferia as aventuras dos patos de Carl Barks à “família” do insosso Mickey. Actualmente, encontram-se no mercado revistas com histórias feitas em Itália, mas já não é a mesma coisa, nem no texto nem no desenho.

 

Turma da Mônica: Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali, juntamente com muitos outros personagens criados por Maurício de Sousa, protagonizam histórias simples e divertidas, sem excessos de moralismo ou pedagogia, que marcaram as infâncias de milhões de leitores de língua portuguesa. A passagem dos heróis para a adolescência, na Turma da Mônica Jovem, foi igualmente bem conseguida.

 

Astérix: Criada em 1959 pelo génio René Goscinny e pelo desenhador Albert Uderzo, a mais engraçada série da BD franco-belga teve a virtude de me fazer querer saber mais sobre os Romanos e, em particular, acerca de Júlio César. Após a morte de Goscinny, os álbuns com argumento de Uderzo oscilaram entre o razoável e o desastroso. Recentemente, Ferri e Conrad apanharam o espírito da coisa e podem conduzir os destinos de Astérix e Obélix durante muitos anos.

 

 

Tintim: Na actualidade, muitos consideram Tintim um herói demasiado certinho, sem zonas de sombra, e questionam aspectos da obra de Hergé como a escassa e pouco lisonjeira presença das mulheres ou os gags repetitivos de gente a tropeçar ou a bater com a cabeça em algum lado. Todavia, se alguma peça da engrenagem fosse mudada, Tintim simplesmente não funcionaria. E continua a funcionar, passados todos estes anos. De resto, poucas séries de BD acompanharam tão de perto a evolução do século XX. Os meus álbuns preferidos são “O Ceptro de Ottokar” e “Explorando a Lua”.

 

Lucky Luke: Entre os numerosos livros da personagem de Morris produzidos ao longo de 70 anos, a que se juntam os álbuns de spin-offs como Rantanplan e Kid Lucky, há de tudo, mas o nível atingido por argumentistas como Goscinny (e não só) chega para compensar os falhanços. Os irmãos Dalton são hilariantes, embora Rantanplan nem por isso (não perceber nada do que se passa à nossa volta não tem piada nenhuma). Num workshop sobre escrita de banda desenhada, o argumentista Fernando Dordio chamou a atenção para um aspecto curioso: Lucky Luke nunca é o motor da acção, limitando-se a reagir a iniciativas tomadas por outras personagens, como as evasões dos Dalton ou conflitos e injustiças descobertos pelo cowboy solitário nas suas andanças pelos EUA.

 

Quino: O desenhador argentino imortalizou-se através das tiras de Mafalda e dos seus amigos, o retrato de um período histórico conturbado e uma recusa do conformismo perante as tragédias do mundo. No entanto, os livros de cartoons assinados por Quino antes e depois da década consagrada à menina contestatária são tão ou mais valiosos. O autor aborda temas variados, como amor, poder, morte, comida, música, religião ou o Tarzan, além de traçar desenhos de conteúdo político que nunca se tornam datados.

 

 

Calvin & Hobbes: Uma série com poucas personagens, centrada na imaginação de um rapaz e numa das grandes duplas da BD. Mais uma vez se mostra que o humor vive dos defeitos dos seres humanos: se Calvin fosse bonzinho, teria alguma piada? Criador de um autêntico clássico, mais complexo do que parece, Bill Watterson tomou a opção certa ao pousar o lápis antes de começar a repetir-se.

 

Peanuts: O Snoopy é irritante. Uma vantagem dos desenhos animados sobre as tiras de Schulz reside no facto do cão raramente “falar” no ecrã. Aparte isso, Peanuts é uma BD com crianças nada infantil, repleta de amores não correspondidos e reflexões sobre solidão e incompreensão. Quem não se identifica com Charlie Brown e as suas inseguranças, acompanhadas da sensação de que, por mais que se tente, nunca se vai conseguir ganhar o jogo?

 

Autores portugueses: A representação visual do passado luso tem encontrado lugar na “História de Portugal em BD” de José Garcês e A. do Carmo Reis e na vasta bibliografia de José Ruy, responsável por biografias, adaptações de clássicos (“Os Lusíadas”, “Peregrinação”, Gil Vicente) e pela ficção de “As Aventuras de Porto Bomvento”. Exímio na reconstituição dos ambientes do passado, Ruy revela menor habilidade na criação de “estórias” e diálogos verosímeis. Outro autor a destacar-se na BD histórica é Pedro Massano, criador de “A Batalha” e da trilogia “A Conquista de Lisboa”, ainda incompleta. Entretanto, a editora Kingpin Books tem dado a conhecer estilos diferentes, seguidos por argumentistas e desenhadores como Nuno Duarte, David Soares, Mário Freitas, Filipe Teixeira, André Oliveira, Osvaldo Medina ou Fernando Dordio. Outros criadores nacionais de relevo são Rui Lacas, Joana Afonso, Nuno Saraiva, José Carlos Fernandes (o nome por trás da série “A Pior Banda do Mundo”) e, no humor puro e duro, as duplas Geral/Derradé e Luís Louro/Tozé Simões.

 

 

Romances gráficos: Mais recentemente, descobri a possibilidade de ir além do formato tradicional do álbum e cruzar palavra e imagem de uma nova maneira, através das chamadas graphic novels. Alguns dos exemplos mais brilhantes são “Maus”, de Art Spiegelman (uma obra marcante sobre o Holocausto e a relação entre um pai e um filho), “Persépolis”, de Marjane Satrapi (a história de uma rapariga insubmissa no Irão da Revolução Islâmica e da guerra com o Iraque), “Democracia”, de Alecos Papadatos, Abraham Kawa e Annie Di Donna (como utilizar o passado para falar do presente), e “O Árabe do Futuro”, de Riad Sattouf (os três volumes já editados focam a convivência próxima do atroz e do ridículo). As quatro obras apresentam narrativas autobiográficas, partem de um caso individual para descrever fenómenos colectivos e contribuem para uma melhor compreensão de realidades espacial ou temporalmente distantes.

 

 

Adeus, PSD

E se o PSD acabasse? Não exactamente sumindo-se no nada, mas sendo substituído por um ou mais partidos que ocupariam o mesmo espaço político. Esta hipótese, aparentemente, não faz qualquer sentido. O Partido Social-Democrata é um dos grandes esteios do sistema, tem uma história de muitos anos no Governo, dispõe de um conjunto vasto de militantes, controla numerosas autarquias e a Região Autónoma da Madeira. Além disso, o mapa político português possui uma estabilidade surpreendente que dificulta a afirmação e crescimento de novas forças partidárias. Como poderia Pedro Passos Coelho ser o último presidente do PSD?

 

No entanto, como há quem preveja cenários ainda mais absurdos e a própria Geringonça já pareceu impossível, admitamos que, nas próximas eleições autárquicas, o PSD perde quase metade das “suas” câmaras. Os “laranjas” poderão concluir então que, em vez de se limitarem a mudar de CEO, o melhor é criar uma nova empresa com os mesmos accionistas. Os velhos e minoritários sociais-democratas, como Pacheco Pereira e Manuela Ferreira Leite, seriam mandados para os bancos de jardim, enquanto os responsáveis pelo aparelho, desde que mantivessem os seus lugares, aceitariam até que o partido se chamasse PUM. Iria assim emergir, não o Partido Social Liberal outrora imaginado por Pedro Santana Lopes (a palavra “social” tem uma conotação esquerdista), mas simplesmente o Partido Liberal. Ninguém se lembraria do partido com o mesmo nome surgido em 1974 e desaparecido após o 28 de Setembro.

 

A fundação do Partido Liberal concretizaria o sonho dos colunistas do i, do Sol e do Observador, que não defenderam outra coisa nos últimos anos. De resto, Rui Ramos e David Dinis apresentariam imediatamente o programa do novo partido. Se fosse oferecida a Paulo Portas a chefia do PL ou o apoio a uma futura candidatura presidencial, o CDS acabaria no dia seguinte. A direita portuguesa unir-se-ia num bloco capaz de enfrentar a esquerda e iniciar o combate cultural e ideológico reclamado durante tantos anos. Nem seria necessário vender os bustos de Sá Carneiro no OLX. Afinal, como tanta gente afirma, o fundador do PPD sempre foi liberal, mas não podia sair do armário por causa dos militares do MFA.

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