Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Desumidificador

Desumidificador

Juntos pelo Vasco

O concerto solidário “Juntos por Todos” foi um êxito, ao angariar mais de um milhão de euros destinados à União das Misericórdias Portuguesas, com vista a ajudar os afectados pelo incêndio ocorrido em Pedrógão Grande e nos concelhos vizinhos. O evento foi transmitido em directo por RTP, SIC e TVI, mas estas apenas exibiram em simultâneo a música propriamente dita, já que os intervalos entre actuações foram preenchidos de forma diferente nas três estações e dedicados sobretudo à autopromoção de cada canal. De facto, os apresentadores instalaram um ambiente semelhante ao das galas televisivas, com toda a gente muito orgulhosa de si própria. No meio de mensagens cheias de emoção do tipo “hoje é um dia histórico”, “como é bom fazer o bem”, “somos o povo mais solidário do mundo”, “mobilizamo-nos em nome das grandes causas”, “devíamos estar assim unidos todos os dias”, “abracem-se uns aos outros”, “nas alturas difíceis é que se vê o que é ser português”, etc., etc., lembrei-me de um homem que merecia, também ele, uma ovação do Meo Arena:

 

“Vasco Pulido Valente, adoramos-te!”

“Vasco, Vasco, Vasco!”

 

Além de historiador, Vasco Pulido Valente (pseudónimo de Vasco Valente Correia Guedes) é talvez o comentador político de maior longevidade em Portugal. Há mais de 40 anos que, com escassas interrupções, Pulido Valente disserta na imprensa, e por vezes na rádio e na televisão, acerca da política nacional e internacional. Desde os primeiros balanços do 25 de Abril (ou, como ele escreve, o ““25 de Abril””) feitos no Diário de Notícias em 1976 ao retrato do Portugal acabado de entrar na CEE (a ““Europa””) traçado em O Independente a partir de 1988 e aos textos semanais actualmente publicados no Observador, Vasco redigiu uma longa produção cronística marcada pela qualidade literária e por um estilo muito próprio. A última compilação de artigos de Pulido Valente, De Mal a Pior (2016), evidencia precisamente como, mais que o país, é Vasco que se mantém sempre igual apesar do passar do tempo.

 

Acima de tudo, Vasco Pulido Valente é o mais céptico dos homens. Nas suas palavras, nunca acreditou em Deus nem na Revolução, ou seja, no comunismo. Da mesma forma, o seu espírito individualista sente muita dificuldade em adaptar-se a partidos ou outros grupos. Se Pulido Valente andou pelo PS e pelo PSD nos inícios da democracia, tendo sido secretário de Estado da Cultura em 1980 e participado na candidatura de Mário Soares às presidenciais de 1986 (Soares e Sá Carneiro são os únicos políticos da III República pelos quais Vasco tem algum respeito), manteve sempre uma distância suficiente para sair pelo seu pé quando quisesse e desde então, salvo uma breve e inglória experiência como deputado do PSD no pós-cavaquismo, manteve-se de fora, a criticar com fervor e dedicação idênticos todos os governos e presidentes da República que se vão sucedendo e, no entender do cronista, mantendo o atraso secular português.

 

Quanto ao trabalho académico, Vasco Pulido Valente foi investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, ou seja, um dos funcionários públicos que tanto abomina. No meio de uma vasta produção científica centrada no período contemporâneo, o autor doutorado por Oxford assinou dois livros marcantes da historiografia portuguesa, “O Poder e o Povo” (1976) e “Glória” (2001), ambos inovadores e influentes ao nível, respectivamente, dos estudos sobre a I República e da biografia histórica. Longe do tom quase épico utilizado por outros historiadores lusos, as obras de Pulido Valente revelam geralmente o lado mais risível dos políticos, militares e literatos analisados, transmitindo, com a ajuda de um humor de inspiração queirosiana, a imagem de um país pequenino e mesquinho. Uma “história em que as pessoas não se iludem”, na expressão da contracapa da 3.ª edição de “Glória”. O mesmo desencanto percorre os textos autobiográficos saídos da pena de Vasco, sarcástico para com o seu próprio passado.

 

No meio do cepticismo, do pessimismo e da experiência de sete décadas de vida, Pulido Valente nunca se entusiasma com nada e lembra sempre que tudo vai acabar mal. Mesmo nos períodos de maior euforia nacional, como a prosperidade dos anos 90 ou os primeiros êxitos da aliança Costa/Marcelo, Vasco arrefece as expectativas e denuncia a ineficácia do Estado e a manutenção das debilidades portuguesas. Na sua maneira particular de gostar de Portugal, Vasco dedicou a vida a dizer mal do seu país. Por pouco simpático que seja, este tipo de personalidade torna-se essencial quando o discurso político e mediático entra em crescendos de patriotismo parolo e elogios contínuos às supostas qualidades do povo luso e dos homens que o lideram. Um banho de realidade evita que nos julguemos demasiado bons e esqueçamos as nossas imperfeições. De repente, no meio da emoção e auto-satisfação da cobertura televisiva de “Juntos por Todos”, a racionalidade fria e a expressão de desdém de Pulido Valente pareceram mais úteis (ou menos enjoativas) que os “afectos” marcelistas.

 

Não deve ser fácil ser Vasco Pulido Valente (até pelas elevadas despesas em tabaco que tal implica), mas pessoas assim são sempre necessárias. Afinal, um cenário em que todos estão sempre unidos e rodeados por propaganda auto-elogiosa adequa-se mais à ditadura que à democracia.

 

P.S. Quanto à piada de Salvador Sobral, foi ao ouvi-la que comecei a gostar mesmo dele.

 

 

 

Um lapso sem importância

Se o presidente do PSD não tivesse sete vidas, ontem tinha sido o dia do suicídio político de Pedro Passos Coelho (PPC). Se uma gaffe assim ocorresse numa sitcom, todos achariam o argumento demasiado disparatado. Se não fosse o talento nato de PPC para fazer figura de parvo, a Geringonça poderia ter problemas. Vejamos alguns dos tiros no pé dados por Passos com as suas declarações sobre supostos suicídios ocorridos entre pessoas afectadas pelos incêndios de Pedrógão Grande.

 

a) Nos primeiros dias após a tragédia, o discurso da direcção do PSD foi contido, respeitando o luto nacional, e os pedidos posteriores de esclarecimento das circunstâncias do incêndio surgiram como iniciativas lógicas e sem exageros verbais. É certo que, nas suas colunas do Observador, os principais doutrinadores do passismo aproveitaram o desastre para atacar António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa (este último foi visado com um ódio particularmente intenso, saído das tripas), mas as cúpulas sociais-democratas pareciam revelar moderação. Até ao momento em que PPC associou os casos de suicídio de que tinha conhecimento ao escasso apoio psicológico fornecido pelo Estado aos sobreviventes do fogo. Desde logo, ficou a impressão de que há algo de muito rasteiro num líder partidário que se serve politicamente da morte de pessoas (ou de uma “pessoa”, já que Passos, depois de utilizar o plural, admitiu apenas ter certezas quanto a um caso concreto), ao acusar o Governo de as ter deixado morrer por negligência, estabelecendo uma relação de causalidade no mínimo precipitada em situações de suicídio. Tratar-se-ia, acima de tudo, de uma falta de respeito pelas vítimas.

 

b) Pouco depois, noutro ponto do país, António Costa recusava comentar as declarações de PPC, embora alertasse para a necessidade de prudência e os riscos da precipitação, já demonstrados no caso da queda fictícia do Canadair. Entretanto, o presidente da Câmara de Pedrógão Grande e a Autoridade de Saúde da Região Centro negavam qualquer caso recente de suicídio na área devastada pelo incêndio. Costa apareceu em cena como um político responsável e ponderado, enquanto Passos tornava-se um transmissor de boatos e fake news, uma espécie de Trumpzinho nacional.

 

c) A meio da tarde, o desmentido final de João Marques, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão (e candidato do PSD à liderança da autarquia local), além de deitar para o lixo a declaração feita tão convictamente por PPC de manhã, agravou a perplexidade. Alguém com responsabilidades no apoio à população divulga boatos e informações por confirmar, desculpando-se depois como se tivesse cometido um lapso sem importância? E é uma figura assim que o PSD quer ver na presidência da autarquia pedroguense? Nesta altura, os munícipes de um concelho que perdeu tantos habitantes pensam em tudo menos nas próximas autárquicas, mas a escolha de quem irá liderar Pedrógão Grande no momento mais difícil da sua história e pressionar o poder central para cumprir as promessas de ajuda possui particular relevância.

 

d) O caso dos falsos suicídios, do qual PPC pediu desculpas de forma atabalhoada, lembrando as dúvidas surgidas logo de manhã (que não o impediram de falar demais), ofuscou o evento partidário onde Passos terminou a jornada, o lançamento da candidatura de Fernando Seara à Câmara de Odivelas. Não foi propriamente um bom arranque para a campanha de Seara, contaminada pela gaffe do líder “laranja”. Embora poucos acreditem que a Quinta da Memória mude de mãos em Outubro, o PSD poderia aproveitar as lacunas do actual autarca socialista, Hugo Martins, o homem menos carismático do mundo.

 

e) Os indícios de falhas do aparelho estatal na resposta à catástrofe de Pedrógão criaram uma situação arriscada para o Governo, cujas opções de política florestal sofreram críticas de BE e PCP. Depois de muito tempo em que tudo parecia correr bem no país, Costa enfrenta um desafio politicamente complicado, que ficou menos complicado depois de PPC mostrar porque é que o PSD tem por lema “Levar Portugal a Sério”. Muitos eleitores devem pensar que, se isto é a alternativa, será melhor continuar com a Geringonça, enquanto esta agradece a Passos o seu papel de aliado imprescindível da coligação de esquerda.

 

 

Já se verificaram outros episódios nos quais o líder da oposição ficou associado a uma imagem de inépcia, atrapalhação e choque com a realidade (a profecia do Diabo que não veio, o lançamento do livro de José António Saraiva, etc.), mas a sensibilidade da questão levantada pode impedir que tudo desapareça como palavras escritas na areia. Isto acontece quando o PSD vive uma fase agitada, com Nuno Morais Sarmento já a posicionar-se para um ataque iminente à liderança, justificando a sua iniciativa com os maus resultados do partido nas sondagens. Nos últimos meses, vários artigos de opinião na imprensa exprimiram a recusa por parte dos “ultras” de mudanças no sentido de um recentramento do PSD. Afinal, tal como o Barnabé, Passos é diferente dos outros. Os políticos e comentadores liberais associam a eventual deposição do barítono a uma chegada do ceptro laranja às mãos da horrenda hoste cavaquista ou de qualquer outra facção interna ansiosa por inverter o rumo “reformador” seguido pelo partido de Sá Carneiro nos últimos sete anos. A falta de perspectivas de sucesso eleitoral a curto prazo contribui, no entanto, para a multiplicação no interior do PSD de assobios, lenços brancos e exigências de chicotada psicológica. O resultado das autárquicas, dependente de muitos factores, pode não ser tão decisivo quanto alguns acreditam, mas dias como o de ontem ajudam a escurecer o futuro político de Pedro Passos Coelho.

Notas curtas sobre Pedrógão

1. Jaime Marta Soares adora ouvir o som da sua própria voz.

 

2. Sou perverso, eu sei, mas não deixo de imaginar que, se Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho ainda estivessem no poder, Rui Ramos faria um vídeo para o Observador com o título “Nem sempre Deus é amigo”.

 

3. Não escrevi nada antes sobre o incêndio de Pedrógão Grande porque uma tragédia desta dimensão torna difícil fazer comentários para além das manifestações de luto. No entanto, um dos efeitos destes eventos cíclicos em Portugal é a proliferação de milhões de especialistas instantâneos na floresta e no combate a incêndios. Admitir que não se sabe nada sobre o assunto é mais vergonhoso que andar nu na rua.

 

4. As críticas à exploração pela comunicação social da dor ligada à tragédia, longe de serem novas, assemelham-se aos comentários feitos após a queda da ponte de Castelo de Paiva, em Março de 2001. Na altura, o alvo principal das acusações de sensacionalismo era a cobertura da TVI, conduzida por Júlio Magalhães. Quanto à história do avião Canadair que afinal não caiu, tem muito de estranho. Afinal, os media portugueses raramente difundem informações incorrectas ou convertem rumores em notícias. Basta recordar o rigor jornalístico verificado em 2005, quando mais de cem negros fizeram um arrastão na praia de Carcavelos, levando o terror ao coração do português branco.

 

5. Os media nacionais só falam do interior a propósito dos incêndios estivais ou através de programas de televisão bocós com música pimba e números de valor acrescentado. Por vezes, os jornalistas partem do princípio de que todos os portugueses moram em Lisboa ou nos arredores da capital. Esta situação acaba por ser compreensível, já que a população rural constitui um mercado escasso e cujos desejos dificilmente são ouvidos junto do poder político e mediático. A desertificação do interior representa uma consequência perversa do desenvolvimento de um país onde os tempos de atraso e pobreza em que mais de metade da população vivia em aldeias marcadas pela dureza do trabalho agrícola não deixaram saudades. A democracia portuguesa ainda não conseguiu reduzir as assimetrias regionais e tornar atractiva a vida fora dos grandes centros urbanos.

 

6. Na política, os critérios de distinção entre esquerda e direita passam habitualmente pela oposição entre optimismo e pessimismo antropológicos ou por ideias sobre o tamanho e as funções do Estado. Todavia, nos últimos dias a diferenciação mudou: quem é de esquerda acha que o caso do jornalista “Sebastião Pereira” constitui um escândalo a necessitar de esclarecimento urgente, enquanto quem é de direita considera tudo uma tolice sem sentido. De facto, comparada com tudo o que aconteceu no Centro do país, a história do colaborador imaginário do El Mundo é quase irrelevante, mas parece tratar-se de um acto de manipulação política da imprensa cuja investigação poderia ser bastante útil, até como exemplo deste tipo de “truques”. De qualquer forma, a verdade provavelmente nunca será descoberta, a não ser que algum dos envolvidos venha a público contar, entre lágrimas de culpa e remorso, aquilo que aconteceu. Isso é que seria uma notícia fora do comum.

 

7. As áreas florestais em redor das aldeias da minha família foram arrasadas pelo fogo, mas as casas e terrenos agrícolas escaparam. Do mal, o menos, embora pareça tão cruel dizer isto após a perda de vidas.

Um "Diabo" dos bons velhos tempos

O semanário de direita O Diabo, herdeiro da personalidade marcante da sua fundadora Vera Lagoa (para quando uma biografia da autora de “Revolucionários que Eu Conheci”?), passou durante cerca de um ano, sob a direcção do militante do CDS Miguel Mattos Chaves, por alterações não tanto no conteúdo político, mas sobretudo ao nível do tom e da linguagem. As manchetes exaltadas e bombásticas sofreram uma atenuação, a primeira página tornou-se mais sóbria e o vocabulário quase parecia o de um jornal normal. Contudo, Mattos Chaves foi recentemente substituído na direcção pela desconhecida Cecília Alexandre. Embora a nova directora não assine qualquer editorial, o número de 20 de Junho de O Diabo assinala o fim do tempo da moderação.

 

Os meios disponíveis e a capacidade de reacção de O Diabo revelam-se no facto de, três dias após a deflagração do incêndio de Pedrógão Grande, este apenas ser referido em três parágrafos na página 10 e na citação de um texto de Rui Ramos no Observador. Para lá disso, mencionam-se os “camaradões do PC e os camaraduchos do Bloco” (p. 24) e a “antiga Província Ultramarina” de Moçambique (p. 9), enquanto um artigo sobre impostos inclui o título “António Costa: Senhor feudal?” (p. 12). No obituário, ficamos a saber que Helmut Kohl “não era considerado especialmente brilhante” e Alípio de Freitas não passava de um “antigo sacerdote transmontano “despadrado”” e “militante de agrupamentos extremistas” (p. 10).

 

O aspecto mais interessante da última edição do periódico quadragenário reside numa entrevista a Assunção Cristas, destacada na capa com a frase (sem aspas no original) “Lisboa precisa de uma Presidente, porque o que tem é um corta-fitas”. Esclareça-se que O Diabo raramente publica entrevistas, e ainda mais raramente entrevistas a líderes partidários. Acompanhadas por fotografias da afixação no Campo Pequeno do primeiro cartaz da candidata, as 20 perguntas colocadas à líder centrista dividem-se nas secções “A Política” e “A Vida”. Ao dirigir-se a Cristas, a jornalista Eva Cabral utiliza expressões como “As ruas de Lisboa estão um caos”, “a política anti-carros (mais parece um ódio anti-carros) de Fernando Medina” ou “Esta “renaturalização” ridícula da cidade”. A parte da “Vida” inclui perguntas dificilmente imagináveis caso o género da entrevistada fosse outro (“Tem alguém que a ajuda a escolher roupa ou lhe dá dicas em matéria de cabeleireiro?”, “O facto de o seu marido ser do PSD consolida uma permanente coligação em casa?”), aproveitando Assunção para falar dos seus filhos, da interrompida carreira académica, das férias familiares no Algarve ou das graças a Deus que Cristas dá diariamente “por ser muito feliz”. Esta entrevista representa um início de credibilização de O Diabo, que dificilmente entrevistará outros líderes partidários (excepto talvez José Pinto Coelho, do PNR), ou traduz apenas a necessidade de Assunção Cristas de aproveitar todas as oportunidades para aparecer, mesmo em publicações de alcance reduzido?

 

 

 

Ave, Trump

Os reinados dos imperadores romanos da dinastia dos Júlio-Cláudios, fundada por Augusto e prosseguida pelos seus sucessores Tibério, Calígula, Cláudio e Nero, fascinaram muitas gerações através das obras de dois historiadores do século II d.C., Tácito e Suetónio, e dos autores cristãos neles baseados. Em redor dos cinco primeiros imperadores, teceu-se uma rede familiar fértil em sexo, poder, crime, ambição, loucura, corrupção, perversidade e muitas outras características perfeitas para inspirar a pintura, a literatura e, mais recentemente, o cinema e a televisão. A coincidência temporal entre o período dos Júlio-Cláudios e o início do Cristianismo contribuiu para o interesse secular pelos eventos ocorridos em Roma no século I d.C. Dois dos príncipes descendentes de Júlio César, Calígula (imperador de 37 a 41 d.C.) e Nero (no poder entre 54 e 68 d.C.), celebrizaram-se como os “imperadores loucos”, tiranos extravagantes e megalómanos presentes no imaginário colectivo ocidental. Peter Ustinov, intérprete de Nero no filme Quo Vadis (1951), definiu o modelo entre o cómico e o repulsivo deste tipo de personagem, associada à imagem de Roma e da sua civilização que muitos possuem actualmente. A historiografia tem revisto as fontes e questionado vários episódios pertencentes ao domínio da lenda, como o suposto envolvimento de Nero no incêndio de Roma, mas o fascínio pelos Césares mantém-se aceso.

 

Desde o final do século XX, tornou-se frequente o estabelecimento de um paralelo entre o Império Romano e os Estados Unidos da América, que, depois de destruírem a sua Cartago, a União Soviética, teriam ao seu dispor um poder militar e económico à escala global semelhante ao outrora alcançado por Roma na bacia mediterrânica. De resto, várias das instituições da democracia americana, como o Congresso ou os estados dirigidos por governadores submetidos a um poder federal, denotam a inspiração do modelo político romano. Ultimamente, porém, a memória dos Romanos tem emergido nos EUA devido ao perfil do novo Presidente, semelhante aos tiranos descritos por Tácito e Suetónio. Donald Trump vê-se, de facto, como o imperador da América, odiando que alguém limite o seu poder e governando num estilo arrogante e caprichoso. O egocentrismo, os projectos de grandes obras públicas, o estímulo ao culto da personalidade e o gosto por orgias em luxuosos palácios com decoração de gosto duvidoso são características comuns a Trump, Calígula e Nero. Apesar da hostilidade das elites de Roma/Washington para com um César que despreza os preceitos tradicionais, o soberano goza de apoios sinceros entre a plebe desejosa de pão e circo. Trump adoraria certamente poder assistir num Coliseu a lutas de gladiadores e dispor da decisão final sobre a vida ou morte dos combatentes (uma versão apenas um pouco mais radical do “You’re fired!”), tal como atirar aos leões os opositores políticos e imprimir dólares com o seu rosto. Donald já se lançou na perseguição a uma minoria religiosa e, sem a inspiração de Nero para a poesia, não deixa de se orgulhar dos best-sellers sobre técnicas de negócio que assinou. Rodeado na sua corte por um conjunto de favoritos, bajuladores e personagens bizarras, Trump é ainda influenciado pelos seus familiares, dotados de uma influência extra-oficial superior à das instituições formais.

 

Esperemos que a situação não se agrave ao ponto de, como os seus antecessores do século I d.C., Donald Trump ser deposto através do assassinato ou de uma revolta do exército. Se perder o apoio do Senado, Trump pode ser obrigado a afastar-se e dar origem a um período instável, com imperadores efémeros como Mike Pence, até uma nova dinastia se afirmar. É certo que, na Roma clássica, os príncipes tirânicos e as guerras civis não puseram em causa o modelo político do Império, o qual perduraria ainda durante vários séculos. No entanto, há quem anteveja já o declínio do império americano, sem capacidade de conter as potências em desenvolvimento para lá das suas fronteiras.

 

 

 

 

Em busca dos Coelho Serra

Como investigar a história da minha família? Para lá de algumas cartas, fotografias e textos autobiográficos a que tive acesso, é possível consultar na Biblioteca Nacional a imprensa regional editada em Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande, os concelhos do norte do distrito de Leiria cuja jurisdição inclui, respectivamente, as aldeias natais da minha mãe (Aldeia da Cruz) e do meu pai (Covais). Para lá de boletins paroquiais como Voz da Graça, de que já aqui falei, foram lançados durante o século XX em Figueiró e Pedrógão, sobretudo na primeira, semanários ou quinzenários como O Figueiroense, A Regeneração, Comarca de Figueiró, O Norte do Distrito e União Figueiroense. O noticiário dessas publicações, dedicado sobretudo ao pequeno mundo da elite política e económica local, registava um vasto conjunto de factos como baptizados, casamentos, mortes ou licenciaturas, criando uma malha de nomes de “amigos” e assinantes de cada jornal na qual os Coelho Serra (quase todos os membros da minha família possuem pelo menos um destes apelidos) eram por vezes referidos. Por vezes, surgem achados inesperados, como esta notícia publicada no número de 1 de Maio de 1926 de A Regeneração:

 

“Na passada terça-feira foi chamado – altas horas da noite – para os Covais, o nosso Director Dr. Manuel Simões Barreiros, especialista em partos (…), tendo ocasião de salvar milagrosamente Carolina Coelho Serra, mulher de Isidro Batista, a qual há dias se encontrava de parto. Baldados todos os esforços, resolveu recorrer a este ilustre clínico, que mais uma vez soube intervir de modo a radicar os seus créditos, tirando das garras da morte, mais uma pobre mulher que agora se encontra felizmente bem.”

 

Isidro Batista e Carolina Nunes Coelho Serra eram os meus bisavós, na altura já com cinco filhos (e ficaram-se por aí, dado que o feto morreu). Quanto ao médico e jornalista Manuel Simões Barreiros, apoiaria a ditadura instaurada pouco depois, durante a qual seria presidente da Câmara de Figueiró dos Vinhos e procurador à Câmara Corporativa. Artigos breves deste tipo são essenciais para preencher os muitos espaços em branco na narrativa das vidas dos meus familiares mais remotos. Durante a pesquisa de imprensa, não têm faltado surpresas e nomes para acrescentar à árvore genealógica. No que respeita às fontes arquivísticas, como as conservadas no Arquivo Distrital de Leiria, ainda não sei exactamente que tipo de informação útil podem conter.

 

Apesar de não pertencer a uma família tão representativa do país inteiro como a de Henrique Raposo, posso associar os casos particulares dos Coelho Serra a fenómenos mais gerais. Desde logo, a integração na tendência nacional de evolução positiva ao nível da riqueza, entre a miséria rural do início do século XX e o relativo conforto da classe média actual, e ao nível da instrução, entre avós quase analfabetas e netas doutoradas em Economia. A discriminação de género no acesso à educação foi, de resto, uma norma até às gerações mais recentes. A migração dos campos em torno de Figueiró dos Vinhos para as cidades também foi um fenómeno comum, sobretudo a partir de 1950, altura em que alguns dos meus ascendentes participaram no reforço tardio do povoamento branco de Moçambique, território que a maioria deixaria em 1975. Sobretudo do lado do meu pai, verificou-se frequentemente aquilo a que hoje se chama espírito empreendedor (explorar terrenos, criar lojas, fazer negócios, construir casas, trabalhar imenso para isso tudo), enquanto do lado materno tornou-se mais comum integrar o pessoal do Estado ou desempenhar funções na área dos serviços. Não parece existir na família uma tradição de envolvimento político, apesar do meu avô materno ter combatido do lado da ditadura em Fevereiro de 1927, quando a unidade em que cumpria o serviço militar foi enviada para reprimir a revolta do Porto.

 

Ao contrário do que se possa pensar, o passado da minha família raramente me interessou até há pouco tempo. Por um lado, porque o universo rural dos Coelho Serra mais antigos parecia difícil de compreender para quem sempre viveu em Odivelas. Além disso, a minha indiferença resultava de puro snobismo e estupidez: como nenhum dos meus familiares tinha sido famoso ou alcançado grandes feitos políticos, militares, artísticos ou desportivos, achei que não devia haver nada de muito relevante nas histórias dessas pessoas distantes no tempo. A crescente atenção da historiografia contemporânea aos cidadãos comuns (basta pensar nas recolhas de “Memórias” da I Guerra Mundial, da resistência ou da Revolução promovidas pelo IHC) e a vontade de fazer chegar até ao meu sobrinho ainda bebé a memória daqueles que ele não pôde conhecer acabaram por me guiar aos registos impressos do percurso dos Coelho Serra, sempre com a consciência de que até posso recolher os nomes e alguns dados biográficos dos meus antepassados, mas nunca saberei através do papel quem eles realmente eram.

The end is (not) near

Os resultados das eleições legislativas no Reino Unido não corresponderam às previsões feitas por muitos (incluindo a primeira-ministra Theresa May) há poucos meses, ou mesmo semanas. Quando o Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn apresentou o seu programa eleitoral, cujas medidas apontavam como objectivo declarado o regresso à época pré-Thatcher, o iminente suicídio do Labour e a remoção instantânea do seu líder extravagantemente marxista pareceram óbvios. No entanto, contados os votos, dir-se-ia que quem ganhou perdeu e quem perdeu ganhou. Além do seu contexto específico, o escrutínio britânico possuiu a relevância de testar o caminho de declínio do centro-esquerda europeu, abalado na actual década por sucessivos desaires. A “pasokização”, um novo conceito político criado a partir da derrocada do partido socialista grego, afectou as forças sociais-democratas em países como França (onde a primeira volta das legislativas confirmou a erosão eleitoral do PSF), Espanha e Holanda, num quadro de recuo da esquerda moderada em que o Governo português parece um autêntico oásis.

 

Nos círculos do debate político lusitano, a interpretação deste fenómeno tem assumido formas opostas. Para os comentadores de esquerda, a crise da social-democracia resulta da viragem desta ao centro, que aproximou os socialistas (envolvidos, por convicção ou imposição europeia, em medidas de austeridade e redução do Estado Social) da direita ao ponto dos eleitorados preferirem o original à cópia. Os colunistas mais conservadores, pelo contrário, apontam causas diversas para o declínio do adversário. Em primeiro lugar, o facto da crise ter extinto o dinheiro necessário para pagar o socialismo. Nas condições da globalização, já não existiriam meios para os sociais-democratas contentarem as suas bases tradicionais de apoio através de subsídios ou regalias laborais. Por outro lado, a esquerda teria adoptado um discurso dúbio e auto-culpabilizador perante o terrorismo, sem responder ao medo do Islão sentido pelas populações europeias e tolerando a radicalização das comunidades muçulmanas. A recusa socialista em admitir os danos económicos causados por políticas assentes na dívida e nas obras públicas estaria a contribuir para a descredibilização dos projectos keynesianos. Só alguns socialistas “realistas”, como Manuel Valls e Francisco Assis, admitiriam a inevitabilidade de reformas liberais no sentido de emagrecer o Estado e viabilizar o crescimento económico.

 

As derrotas em catadupa dos partidos de centro-esquerda levaram algumas vozes a proclamarem a irrelevância destes na cena política europeia, dominada agora pela luta entre o centro-direita europeísta e cosmopolita, personificado em Angela Merkel, e a extrema-direita xenófoba e proteccionista. O esmagamento do Labour seria o ponto final num esquerdismo cada vez mais fanático e irrealista, dominado por radicais sem ligações à maioria do eleitorado. No entanto, o resultado obtido por Corbyn e o entusiasmo despertado pelo político idoso entre os jovens britânicos dão a entender que sublinhar a parte da “esquerda” em detrimento da palavra “centro” pode ser a via para a salvação do socialismo democrático europeu. Aguardam-se os próximos capítulos.

 

 

 

Jim Del Monaco

São pouco habituais na banda desenhada portuguesa os exemplos de personagens ou “heróis” que protagonizam vários álbuns. Além das aventuras do navegador “Porto Bomvento”, cuja participação na Expansão lusa é narrada por José Ruy em oito livros, podemos referir os três volumes do “Loverboy” de João Fazenda e Marcos Farrajota editados na década de 90 ou ainda duas séries publicadas pela Kingpin Books, “Super Pig” (do argumentista Mário Freitas) e “C.A.O.S.”, delineada por Fernando Dordio a partir da figura do inspector Franco. Neste cenário de escassez de personagens icónicos e falta de continuidade dos projectos editoriais, o caso de “Jim Del Monaco”, a série escrita por Tozé Simões e desenhada por Luís Louro, assume contornos excepcionais.

    

Desenvolvidas nas pranchas publicadas no Diário Popular em 1985 e em álbum a partir do ano seguinte, as histórias de Jim Del Monaco, um aventureiro com mais pose que méritos de herói, da sua companheira, a sensual e sempre insaciada Gina, e do perspicaz criado Tião partem de um conceito simples que Louro e Simões conduzem nos sentidos mais diversos. Numa África imaginária dos anos 50, Jim Del Monaco parodia os clichés dos filmes e BDs clássicos acerca de aventuras em regiões do globo com selva, animais exóticos, tribos selvagens e alguns brancos perversos como Aristides, opositor dos protagonistas em várias ocasiões. Longe de se limitarem a esse ambiente mítico, os autores já levaram Jim à China, ao deserto egípcio, ao espaço e à Pré-História. Os álbuns valem, em primeiro lugar, por serem divertidíssimos, com um humor tão atrevido quanto imaginativo, mas os argumentos de Tozé Simões demonstram também pesquisa histórica, vastas referências da cultura pop e uma construção bastante precisa e pormenorizada, reunidas num todo onde o disparate não impede uma coerência assinalável.

 

A um ritmo invulgar em Portugal e apoiado num ainda mais raro sucesso de público, Louro e Simões criaram entre 1985 e 1993 sete álbuns de Jim Del Monaco, primeiro a preto e branco e, a partir do quinto livro, “A Criatura da Lagoa Negra”, integralmente a cores, enquanto as primeiras histórias eram coloridas e relançadas pela Asa. No início dos anos 90, os autores desenvolveram em paralelo a série fantástica (no sentido de abordar o sobrenatural e não no de ser muito boa) “Roques & Folque”, repartida por três tomos. Quando pareciam estar no auge, Luís e Tozé puseram fim à sua colaboração. Louro continuou a solo na BD, tendo produzido, entre outros, os álbuns de “O Corvo”, mas viria a pousar os lápis já no século XXI. E assim tudo acabou para sempre, num fado de tristeza e nostalgia?

 

Não! A proximidade da efeméride dos 30 anos de Jim Del Monaco levou à reaproximação, em finais de 2014, do desenhador e do argumentista, os quais, apesar das dúvidas e de ambos já serem cinquentões, depressa verificaram ainda saber como atingir a saudável loucura no papel. “O Cemitério dos Elefantes”, lançado em Setembro de 2015, apresentou, além de extras comemorativos das três décadas da série, quatro novas histórias curtas, de espírito e qualidade semelhantes aos dos anos 80 e 90. Pouco depois, a dupla começou a trabalhar numa história de maior fôlego, recentemente editada com o título “Ladrões do Tempo”. O nono álbum de Jim revela um desenho e uma cor melhores que nunca, enquanto o argumento, novamente erguido a partir de bases cinéfilas (neste caso, sobretudo “Parque Jurássico” e “Regresso ao Futuro”), supera a simples caricatura e atinge níveis espantosos de imaginação, malandrice e ligação à actualidade, além da tradicional abundância de referências e piscadelas de olho (num trabalho concluído ainda em 2016, os benfiquistas Louro e Simões festejam o 35).

 

Como se mais de 20 anos de inactividade tivessem sido apenas uma pausa para ir à casa de banho, Luís Louro e Tozé Simões alimentam com o regresso de Jim Del Monaco um dos projectos mais sólidos e viciantes da BD feita por cá. A Asa deveria reeditar os livros da série anteriores a 1994, hoje apenas disponíveis em bibliotecas e alfarrabistas.

 

 

 

O ministro dos murais

João Miguel Tavares (JMT) é um dos comentadores políticos de direita alvo de maior número de críticas no Facebook, talvez por escrever no Público (que, apesar de tudo, se mantém como o diário mais lido pelas elites de esquerda), enquanto os correligionários se aglomeram sobretudo no i e no Observador, jornais destinados a leitores já convertidos ao liberal-conservadorismo. De resto, o estilo frontal e polémico de JMT visa precisamente gerar uma abundante partilha dos seus artigos nas redes sociais, sendo indiferente para o Público se quem divulga os textos concorda ou não com o autor, célebre também pela participação no programa semanal de debate “Governo Sombra”, transmitido na TSF e na TVI24. Jornalista e antigo crítico de BD e cinema, Tavares iniciou-se no comentário político por volta de 2004, numa página do Diário de Notícias partilhada com Pedro Lomba e Pedro Mexia, e ganhou protagonismo durante o consulado de José Sócrates, visado por JMT em crónicas na origem de um processo movido pelo então primeiro-ministro ao articulista. Em paralelo, Tavares lançou um blogue e vários livros inspirados pela sua experiência de pai de quatro crianças, recentemente entregues por algumas horas aos cuidados de António Costa (diga-se de passagem que só um político com muita inteligência e sentido de humor teria uma iniciativa dessas).

 

Os ataques esquerdistas a João Miguel parecem-me exagerados, até porque o colunista possui os méritos de ser perfeitamente claro naquilo que defende, numa linguagem irreverente, e não se eximir de criticar atitudes pouco éticas de políticos militantes do PSD ou do CDS. No entanto, as falhas de JMT manifestam-se, para lá do discurso justiceiro e simplista contra a corrupção (“Condenem-me alguém!”), a dois níveis. Por um lado, no facto de emitir, por vezes, opiniões sobre temas que revela estar longe de dominar, embora essa seja uma atitude comum à maioria dos comentadores lusitanos. Ao mesmo tempo, as crónicas e intervenções de Tavares manifestam uma notória falta de habilidade.

 

 

O jornalista sabe manejar a funda (presto homenagem a Artur Portela Filho, autor de algumas das melhores crónicas políticas publicadas na imprensa portuguesa do último meio século e hoje quase desconhecido), mas algumas das pedras que arremessa acabam por voltar-se na direcção de si próprio. Por exemplo, aquando da morte de Mário Soares, enquanto o cronista do Expresso Henrique Raposo, sem fingir que gostava do político socialista, conseguiu reflectir com elegância sobre a memória deste, Tavares enredou-se numa confusão de elogios ao Soares do século XX e críticas ao Soares do século XXI que fez os primeiros parecerem artificiais. Perante o Correio da Manhã, JMT adopta a posição dúbia de condenar os procedimentos jornalísticos do diário ao mesmo tempo que elogia o papel do CM na Operação Marquês e admite a legitimidade de artigos sobre a vida privada das celebridades. Noutro caso, o comentador atacou o “Estado Saca-Saca” por direccionar os fundos comunitários apenas para projectos públicos, entre os quais alguns tão escandalosos como a atribuição de bolsas a estudantes ou o apoio à contratação de doutorados. O que Tavares ganha em falta de “respeitinho”, recusado no título da sua coluna na imprensa, perde em solidez e coerência.

 

De acordo com o próprio, a evolução política de João Miguel Tavares no sentido do liberalismo deveu-se, mais do que à leitura de Hayek, a factos concretos como as hesitações de parte da esquerda na condenação do 11 de Setembro ou o legado desastroso da governação socrática. A nível geracional, JMT pertence a um conjunto informal de opinadores nascidos pouco antes ou pouco depois do 25 de Abril, alinhados à direita mas sem actividade partidária e empenhados em denunciar o sistema de compadrio entre políticos, banqueiros e empresários vigente no país. O entusiasmo regenerador de Tavares e outros comentadores esbarra, contudo, num tom de precipitação e superficialidade em que se parte dos princípios ideológicos para a análise da realidade e não o inverso.

As surpresas de 2017 (Parte I)

A actualidade, sobretudo na área da política, é muitas vezes aborrecidamente previsível. Dentro do pequeno universo português e mesmo a nível internacional, vemos muitas vezes um conjunto restrito de personalidades lançar iniciativas que, no momento em que são anunciadas, já todos sabemos como vão acabar. Assim, até Luís Marques Mendes passa por adivinho. No entanto, o tédio habitual da política portuguesa foi abalado em Outubro e Novembro de 2015 pela formação da Geringonça, um cenário cujo carácter inovador apanhou de surpresa Cavaco Silva e quase todos os comentadores (excepto Rui Tavares e Daniel Oliveira, os quais concretizaram então o seu sonho de infância), sem ferramentas mentais nem termos de comparação disponíveis para avaliar o que acontecia nesse Outono. Em 2016, as maiores surpresas, o Brexit e a eleição de Donald Trump, verificaram-se na política internacional, provocando um efeito de choque e incerteza.

 

Impõe-se, por isso, que fiquemos muito atentos aos acontecimentos inesperados surgidos em 2017, mesmo que ainda nem a primeira metade do ano esteja concluída. A maioria dos eventos registados até agora, como o tetracampeonato do Benfica ou o risco para Michel Temer de se ver afastado da presidência brasileira por envolvimento num escândalo de corrupção, eram facilmente previsíveis em 1 de Janeiro. Contudo, para lá de uma surpresa futebolística de impacto limitado (o Moreirense ergueu a Taça da Liga), três fenómenos contrariaram as expectativas iniciais dos media e do público.

 

Os irmãos Sobral: Durante os últimos 20 anos, os portugueses pensaram em tudo menos nos festivais da Canção e da Eurovisão. No entanto, a nova administração da RTP (em particular, Daniel Deusdado e Nuno Artur Silva) optou por remodelar o formato nacional existente desde 1964 e convidar vários compositores de sucesso para criarem temas a interpretar por cantores previamente escolhidos. Uma das autoras envolvidas, Luísa Sobral, escreveu a canção “Amar pelos Dois” e ofereceu-a ao irmão, Salvador Sobral, cujo primeiro álbum passara até então despercebido (“nobody gave a shit”, como diria Salvador numa conferência de imprensa já após o triunfo em Kiev). Vencedor do Festival RTP da Canção, o tema causou estranheza em muitos espectadores por diferir tanto do género de música associado a certames deste tipo. E, no entanto, estava aí o segredo. O contraste de “Amar pelos Dois” com o lixo tradicional na Eurovisão fez a canção dos Sobral atrair as atenções dos europeus que seguiam o evento. Quase por aclamação, jurados e público concederam a Portugal uma vitória inédita, nesse 13 de Maio em que aconteceu tudo ao mesmo tempo. Luísa e Salvador foram considerados exemplos das qualidades da juventude portuguesa e da nova vaga de triunfos do país em todos os sectores.

 

 

Economia a bombar: A coligação de esquerda revelou-se mais sólida que as previsões da direita, mas esta dispunha ainda, no final de 2016, de um argumento em torno do anémico crescimento da economia, mais baixo que no ano anterior. Os dados do primeiro trimestre de 2017 revelaram, porém, um crescimento homólogo sem paralelo na última década e a perspectiva de resultados bem melhores do que se esperava no conjunto do ano. Aparentemente, Marcelo Rebelo de Sousa já dispõe do valor final da expansão do PIB em 2017, na ordem dos 3,2%. Quanto a qual dos últimos governos possui maiores responsabilidades nesta inversão de tendência, trata-se de uma discussão futebolística, como Ricardo Araújo Pereira assinalou. O certo é que os efeitos políticos e sociais deste “Ninguém nos Pára” estão a ser profundos, apesar das dúvidas sobre a sustentabilidade a longo prazo da recuperação.

 

Administração Trump: No meio do pânico de 9 de Novembro de 2016, muita gente desvalorizou a possível ameaça mundial representada pelo novo líder americano. Afinal, o sistema de Washington domaria os impulsos de Trump, o candidato desbocado teria que dar lugar a um presidente contido, a realidade frustraria os planos mais disparatados e Donald acabaria por não ser muito diferente dos seus antecessores republicanos. Já depois do aterrador discurso de tomada de posse, viu-se na alocução de Trump ao Congresso um sinal da progressiva normalização do outsider. A desdramatização era tentadora, mas, no ritmo frenético dos primeiros quatro meses de mandato do nova-iorquino, uma terrível realidade impôs-se: o homem é exactamente aquilo que parece. Até mesmo aqueles que conheciam bem o estilo “trumpista” não antecipavam tamanha dose de ignorância, precipitação, autoritarismo e falta de habilidade política. O que vai acontecer a seguir é algo que nem o próprio Donald imagina. Desde o dia em que Trump anunciou a sua candidatura presidencial e um qualquer cidadão americano admitiu vir a votar nele, a “normalidade” desapareceu dos EUA e das relações internacionais.