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"À Beira do Abismo"

Editado pela Dom Quixote, o livro “À Beira do Abismo. A Europa, 1914-1949” (no original, “To Hell and Back: Europe 1914-1949”), de Ian Kershaw, constitui a primeira parte de uma história do Velho Continente no período entre a I Guerra Mundial e a actualidade (o segundo volume, ainda por publicar, poderia terminar com o Brexit), focando o que o autor designa como “a era de autodestruição da Europa” (p. 21). Kershaw apresenta uma obra baseada num conjunto impressionante de informação e que procura abordar a evolução de todos os países europeus nos 35 anos em causa. Naturalmente, os estados mais influentes nos acontecimentos internacionais, em especial o Reino Unido, a França, a Itália, a Alemanha e a Rússia/União Soviética, recebem maior atenção do biógrafo de Hitler, mas é visível o esforço de Kershaw para combinar fenómenos gerais e particulares, sem ignorar nenhuma região europeia. Dado o carácter de síntese de “À Beira do Abismo”, a novidade do trabalho reside “no modo como a história está escrita e na natureza da argumentação” (p. 16), com Kershaw a brilhar nos dois campos (destaque-se igualmente a tradução portuguesa de Miguel Mata) ao construir uma narrativa clara, dinâmica e fascinante, organizada de forma cronológica, à excepção de um capítulo dedicado a temas como a religião e a cultura de massas.

 

Não faz sentido tentar resumir aqui as mais de 600 páginas da obra do historiador inglês, mas a análise de 1914-1949 proposta por Kershaw destaca alguns aspectos essenciais, como a existência, não só na Alemanha mas um pouco por todo o continente, de elites profundamente reaccionárias e irresponsáveis, ligadas a iniciativas com elevados custos humanos, ou a vasta difusão do ódio, fosse ele de classe, nacionalista, anticomunista ou contra os Judeus, alvos de perseguições na Europa de Leste muito antes da chegada dos nazis. Quanto ao caso especial da Grã-Bretanha, Kershaw sublinha o consenso praticamente generalizado em torno da monarquia e do sistema parlamentar que evitou rupturas políticas nos anos difíceis das guerras mundiais e da Grande Depressão.

 

No que respeita a Portugal, Ian Kershaw apoia-se em dois livros de António Costa Pinto para escrever um número reduzido de parágrafos, justificável pela escassa influência (excepto talvez durante a Guerra Civil de Espanha) do país para lá das suas fronteiras no período em causa. O autor britânico mostra desinteresse por Salazar, “O mais insípido dos ditadores” (p. 322) e chefe de um regime estático e reaccionário, sem o vigor ideológico das “ditaduras dinâmicas” alemã, italiana e soviética. Fátima é igualmente mencionada, como um dos centros da “reanimação do culto da Virgem Maria” (p. 514) verificada na Europa católica.

 

“À Beira do Abismo” revela-se, de forma implícita, um livro fortemente europeísta, sendo curioso que tenha aparecido na sua versão original pouco antes do referendo que ditaria a saída do Reino Unido da UE. Ao expor o rol de guerras, ditaduras e atrocidades verificadas na primeira metade do século XX, o historiador salienta o contraste entre o caos dessa época e o surgimento “de uma estabilidade e de uma prosperidade anteriormente inimagináveis” (p. 21) na metade ocidental da Europa, já depois da Guerra Fria fixar as divisões mantidas em vigor durante quatro décadas. O movimento de construção europeia funcionou, assim, como uma ruptura, difícil de prever em 1949, com o passado de ódio e desconfiança mútuos cujo regresso é temido actualmente. Além de ser uma obra de consulta obrigatória para quem estude a Europa novecentista, o trabalho de Kershaw relembra a catástrofe que os fundadores da CEE quiseram tornar irrepetível.