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"A Caipirinha de Aron"

A democratização da opinião trazida no início do século XXI pela expansão dos blogues abriu caminho ao aparecimento de comentadores com origens exteriores aos círculos jornalísticos, mas que, a curto prazo, seriam absorvidos pelos media tradicionais. Um dos exemplos mais conhecidos é o de Henrique Raposo, cuja formação académica inclui uma licenciatura em História pela FCSH-UNL (à qual Raposo chamou recentemente “universidade de Verão do Bloco de Esquerda”) e um mestrado em Ciência Política feito no ICS. Como o próprio contou, Henrique nasceu numa família de alentejanos migrados para Sacavém, Odivelas e outros subúrbios de Lisboa, tendo integrado a primeira geração dos Raposo a frequentar o ensino superior. Em paralelo a uma actividade de investigador académico, tornou-se cronista em 2005, no blogue colectivo O Acidental. Henrique Raposo e outros bloggers de direita chegaram pouco depois à imprensa escrita ao integrarem a equipa da revista mensal Atlântico. Após esta encerrar, em 2008, Raposo foi contratado, com apenas 28 anos, para ser colaborador do Expresso e mantém-se até hoje no semanário de Pinto Balsemão, onde produz uma crónica na edição em papel, tal como textos diários publicados na versão online do periódico. Além desta actividade, Raposo escreve uma coluna semanal sobre religião (“Nem ateu nem fariseu”) no site da Rádio Renascença. Casado e pai de duas filhas, o cronista assinou ainda obras como o livro baseado na sua tese de mestrado, “Um Mundo sem Europeus”, o ensaio “História Politicamente Incorrecta do Portugal Contemporâneo” e o polémico “Alentejo Prometido”. Embora possua um universo próprio, Raposo é nitidamente influenciado nos seus livros e artigos por Rui Ramos, António Barreto, Maria Filomena Mónica e Vasco Pulido Valente (todos ligados ao ICS).

 

A estreia bibliográfica de Henrique Raposo verificou-se com “A Caipirinha de Aron – Crónicas de um Liberal Triste” (Lisboa, Bertrand, 2009), uma compilação de textos originalmente publicados na Internet e na imprensa. No prefácio, o autor explica o título com a inspiração recebida de Nelson Rodrigues e Raymond Aron, aos quais foi buscar, respectivamente, o estilo provocador na forma e o rigor analítico no conteúdo, e resume as três secções que dividem o livro, relativas à debilidade institucional da democracia lusa, ao “Estado Social-Porreiro” e, a nível internacional, ao declínio de uma Europa em negação perante a ascensão asiática. Feitas as apresentações, Raposo debruça-se sobre a actualidade em textos breves compostos por frases curtas, directas e frequentemente mordazes, já que, como outsider recém-chegado à tribuna, Henrique despreza “Lisboa”, a “cultura aristocrática” da elite da capital (p. 24) e os tiques dos jornalistas e comentadores instalados.

 

É difícil não gostar de um cronista que utiliza frases tão ousadas e definitivas como “Por vezes, apetece-me dizer que Portugal deveria acabar” (p. 17), “A III República portuguesa está morta” (p. 82), “Querem o quê? Que deixe de tomar banho em nome da fraternidade que une homens e ursos?” (p. 156) ou “Portugal não é um país. É um amontoado disforme de corporações e sindicatos” (p. 86). As menos de 180 páginas de “A Caipirinha de Aron” estão repletas de considerações acerca da natureza de Portugal e dos portugueses, que, em resumo, são demasiado “porreiros”. Os concidadãos de Raposo querem muito Estado Social e pouco Estado de Direito, desvalorizam o mérito, o trabalho e a iniciativa, mostram-se incapazes de pensar a política a nível institucional e não pessoal, dividem-se não em indivíduos mas em grupos que defendem ferozmente os seus privilégios, recusam encarar a realidade e desejam viver acima das “possibilidades históricas” (p. 96) do país. Esta perspectiva sobre cerca de 10 milhões de pessoas tornar-se-ia mais tarde uma verdadeira ortodoxia, mas entre 2006 e 2008 tinha ainda escasso acolhimento, até porque, segundo Raposo, não existia então uma verdadeira direita no social-democrata PSD ou na “esquerda beata” do CDS. O sistema político posterior ao 25 de Novembro “matou a política em Portugal” e sofria de um “consenso obrigatório à esquerda” (pp. 99-101) estéril e monocórdico. Henrique Raposo e os seus camaradas chegavam à vida adulta dispostos a partir tudo e construir algo de radicalmente novo.

 

O cronista de 2008 apresenta algumas diferenças em relação ao Henrique quase 10 anos mais velho: em “A Caipirinha de Aron”, Deus é ainda “deus” e falta a experiência da paternidade. Contudo, podemos já encontrar temas clássicos da cronística raposina, como as semelhanças entre a extrema-esquerda e a extrema-direita, o silêncio do feminismo sobre a opressão sofrida pelas mulheres muçulmanas, o radicalismo do “ambientalismo dogmático” (p. 13), o ódio anti-católico escondido na defesa do aborto e da eutanásia ou uma Europa demasiado mole e entregue ao “culto amaricado da paz” (p. 129).

 

 

A arrogância implícita nos artigos do jovem Henrique chamou a atenção de Pedro Marques Lopes, mais velho mas também membro do grupo de O Acidental e da Atlântico, do qual se tornaria dissidente. Enumerando numa crónica os temas de vários textos de Raposo, sem o nomear, Marques Lopes desdenhou de “rapazes novos, cheios de si mesmos”, com certezas sobre tudo e cujos escritos pretendiam ser “verdades absolutas que não podem ser contraditas” (Lopes, Pedro Marques, “Suaves Portugueses”, Queluz de Baixo, Marcador, 2014, pp. 101-102). No entanto, apoiado por Henrique Monteiro (então director do Expresso), Rui Ramos e Pedro Mexia, autores de citações elogiosas presentes na capa e contracapa de “A Caipirinha de Aron”, Raposo prosseguiria uma longa e prolífica carreira de comentador.

 

Simplificando um pouco, podemos dividir os pouco mais de 10 anos de produção cronística de Henrique Raposo em quatro fases distintas. O período inicial, compilado em “A Caipirinha de Aron” e resumido na frase “O regime morreu”, marca a edificação da imagem de Raposo e a definição do seu estilo de colunista iconoclasta. Entre 2009 e 2011, a fase “Take him down”, o articulista empenhou-se pessoalmente em remover José Sócrates do Governo, através de prosas indignadas depois reunidas no livro “Portugal do Avesso”. Depois de Portugal salvar-se através da demissão do Maligno e da assinatura do memorando da troika, com a consequente guinada do país à direita, o colunista do Expresso regressou ao sossego do lar e trabalhou a sua vertente de cronista do quotidiano. “Os Raposos”, microcosmos do país, foram o tema central (alternado com manifestações de amor ao Benfica) desenvolvido ao longo dos quatro anos de passismo. Mais recentemente, o Brexit, Trump e Le Pen fizeram Henrique dedicar-se sobretudo aos temas internacionais e inaugurar o ciclo “Deus, Pátria e Família”, conceitos cuja revalorização considera essencial para travar a vaga populista. Chamar-lhe “trumpista” será injusto, mas Henrique Raposo considera a extrema-direita equivocada apenas na dose do medicamento, já que o diagnóstico e a terapêutica propostos pela Frente Nacional em França estão, no essencial, correctos. O “revolucionário” de 2008 parece estar cada vez mais reaccionário.