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Desumidificador

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A desilusão com o "povo"

Vários autores de esquerda manifestam periodicamente aquilo a que podemos chamar “síndrome do revolucionário solitário”, ao verificarem, surpreendidos, que o “povo” não faz o que esperavam dele. Por razões desconhecidas, os portugueses insistem em votar nos partidos de direita e em ficar quietos em casa, sem saírem à rua para protestar contra a exploração sofrida nem lutarem por uma nova revolução. Perante a escassez de greves e manifestações, Raquel Varela pergunta-se: “Onde acaba o medo e começa o narcisismo?” (Varela, Raquel, Matos, António Coimbra de, “Do Medo à Esperança”, Lisboa, Bertrand, 2016, p. 151) Além de criticarem (num tom de snobismo) a ignorância e falta de consciência política das massas, os esquerdistas denunciam a influência negativa dos media e os factores de alienação que desviam o pensamento dos cidadãos dos temas realmente importantes. O futebol é considerado o grande culpado do marasmo, ao levar muitos portugueses a dedicarem horas sem fim “aos Cristianos do relvado” (Loff, Manuel, “A culpa é dos políticos?”, in Soeiro, José, Cardina, Miguel, Serra, Nuno, “Não Acredite em Tudo o que Pensa”, Lisboa, Tinta-da-China, 2013, p. 235).

 

Este tipo de queixas é mais comum entre a extrema-esquerda (no discurso oficial do PCP, o povo está sempre a lutar), enquanto a direita se refere ao “melhor povo do mundo” e agradece a disponibilidade dos portugueses para o sacrifício. Ou pelo menos era assim no passado, já que este artigo de Sebastião Bugalho parte de uma perplexidade: se a Geringonça está a conduzir o país ao desastre, porque é que ninguém se importa? Apesar dos factos negativos enumerados por Bugalho, “não interessa”, “o regime prossegue”, “é, como dizia o outro, peanuts”, “que se dane”. A concluir, o jornalista refere acontecimentos que têm desviado as atenções gerais (“o Soares morreu e apertámos todos as mãozinhas uns aos outros”), entre os quais se, incluem, naturalmente, as vitórias do Benfica, da selecção e de Cristiano Ronaldo. Mudam-se os tempos e as vontades, mas o futebol é sempre alienante.