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"A Explosão do Populismo"

O mercado editorial português não fica indiferente aos fenómenos internacionais e a vitória eleitoral de Donald Trump gerou o aparecimento de numerosos livros em torno do “Pacto Donald” (Nuno Rogeiro) ou, de forma mais abrangente, da corrente política do populismo. Um dos títulos inseridos neste contexto, “A Explosão do Populismo”, do jornalista americano John B. Judis, foi traduzido por Ana Saldanha e publicado pela Presença. Numa altura em que a palavra “populismo” se banalizou até o seu significado se tornar difícil de delimitar, Judis começa por esclarecer que não existem “características exclusivas” dos partidos populistas, mas estes partilham “um antagonismo básico entre o povo e uma elite no âmago da sua política” (p. 16). A partir desse traço discursivo, é possível encontrar populistas de esquerda e direita. Neste último caso, são frequentes, além dos ataques ao establishment, a denúncia de um “grupo marginal” (imigrantes, comunistas, muçulmanos, etc.) como inimigo protegido pela elite corrupta.

 

Ao escrever durante a campanha presidencial no seu país, John B. Judis procura demonstrar que Donald Trump e Bernie Sanders são descendentes ideológicos de movimentos populistas surgidos nos EUA, em períodos de crise, durante os séculos XIX e XX e exploram o radicalismo da classe média americana. Passando à Europa, o jornalista expõe as perturbações na UE e as respostas populistas à crise. Sem mencionar Portugal (o que, neste caso, é um sinal positivo), Judis descreve a ascensão de movimentos como o Syriza, o Podemos ou a Frente Nacional. Apesar do autor simplificar demasiado a história da extrema-esquerda e da extrema-direita europeias, produz uma boa síntese do actual quadro político e destaca que os populistas aproveitam problemas ignorados ou não resolvidos pelos partidos do “neoliberalismo”, constituindo sintomas de uma doença real.

 

Informado acerca do Brexit, Judis aponta os riscos para a sobrevivência da União Europeia, mas parece subestimar o impacto do fenómeno Trump. De facto, no final do Verão passado, parecia impossível que um homem tão malcriado pudesse ser eleito presidente dos Estados Unidos. De qualquer maneira, promessas como construir um muro na fronteira mexicana ou perseguir os muçulmanos “não se destinavam a serem levadas a sério” (p. 74), visando apenas chamar a atenção e mobilizar o “povo” americano através da recusa de negociações com as elites. Quer dizer, era óbvio, não era?