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Desumidificador

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A minha carreira no jornalismo

Os jornais escolares são uma actividade extra-curricular utilizada frequentemente pelos professores das escolas básicas e secundárias para objectivos como estimular a prática da escrita e do desenho pelos alunos e favorecer o trabalho de equipa. O estabelecimento do 1.º ciclo que frequentei entre 1990 e 1994, a Escola Primária n.º 1 de Odivelas, actualmente conhecida por Escola Maria Lamas, não constituía excepção, existindo nesse período o jornal ABC (o título da publicação surgia no cabeçalho seguido de expressões como “… da Poluição” ou “… da nossa Comunidade”), com 12 páginas, de periodicidade trimestral e vendido pelo “preço mínimo” de 100 ou 150 escudos.

 

Além de abordar os conteúdos ligados a cada período do ano lectivo (Natal, Carnaval, Páscoa, Verão), o ABC incluía notícias de visitas de estudo e outros eventos escolares, para lá de desenhos e composições dedicados a temas leccionados nas aulas, como a alimentação, a defesa do ambiente ou a prevenção do tabagismo, ou provenientes da actualidade. Acontecimentos como as eleições presidenciais de 1991, a visita a Portugal feita nesse ano por João Paulo II, o massacre do cemitério de Santa Cruz (Díli) e a guerra civil em Angola passaram pelas páginas do jornal da Escola n.º 1, onde a observação do meio local também era incentivada. No número 10 do periódico, publicado pouco antes da Páscoa de 1994, surgiu o seguinte texto, acompanhado por pequenas (e péssimas) ilustrações igualmente da minha autoria:

 

“O que eu mais admiro na minha terra

 

A minha terra chama-se Odivelas. É uma cidade, havendo por isso muitas coisas nela.

Eu gosto de ver o Cruzeiro, o Senhor Roubado, que conta nos azulejos a história do assalto à igreja, o Instituto de Odivelas, que tem o túmulo de D. Dinis e a estátua da Rainha Santa Isabel, sua mulher, onde havia as freiras, a velha igreja e a Casa da Memória.

Também gosto do pavilhão Estrelas do Bairro Olaio, embora só duas vezes tenha lá entrado, nas festas da escola. As piscinas também só por uma vez vi de perto, quando ainda nem tinham cobertura. As outras vezes foram apenas de relance.

Há poucos parques infantis em Odivelas, mas já só vou lá com os colegas. No entanto, ainda gosto de ir lá brincar.

Eu gosto de ir à catequese e também gosto de andar na escola n.º 1.

Mas os lugares que eu mais admiro na minha terra são o Estádio Arnaldo Dias e todas as papelarias, livrarias, quiosques e todos os lugares onde se vendam livros!

 

Pedro

4.º ano”

 

Este poderoso artigo de opinião escrito por um miúdo de 9 anos (às vezes penso que a cidade mudou mais do que eu desde 1994) alude aos principais monumentos históricos da freguesia, então integrada no concelho de Loures, e a equipamentos desportivos como o actual Pavilhão Municipal, casa do Ginásio Clube de Odivelas (herdeiro do EBO), e o estádio do Odivelas FC, que depois do descalabro financeiro do clube foi utilizado para treinos por Benfica e Sporting e mais tarde cedido pela Câmara odivelense ao Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol. Para lá da aprovação das professoras que dirigiam o ABC, não me lembro se a composição gerou reacções equivalentes aos likes e comentários da actualidade.

 

Finda a primeira etapa educativa, passei os anos do pentacampeonato do FC Porto na Escola dos Pombais (actual Escola D. Dinis), parcialmente visível na fotografia abaixo. Os Pombais não dispunham de imprensa própria até ao aparecimento, no ano lectivo de 1996/97, de dois periódicos escritos por alunos. De um lado, o Jornal da Escola dos Pombais, coordenado pela professora de Português Maria Gil Vieira e do qual só saíram dois números de 12 páginas. Do outro, o Jornal Jovem, ligado ao Clube de História e Geografia, sob o comando das professoras Soledade Pardal (sim, a prof. Pardal) e Maria do Rosário Martins. Sete edições do Jornal Jovem, cada uma com pelo menos 30 páginas, surgiram até 1999. Colaborei com os dois projectos através da recolha em livros de curiosidades ou textos sobre os temas principais de cada edição (que eram fotocopiados e incluídos no jornal, geralmente sem indicação da origem), tal como produzindo material original como entrevistas a professores envolvidos nas actividades extra-curriculares da escola, artigos noticiosos baseados em informação retirada de jornais e revistas e ainda comentários à actualidade. Neste último caso, escrevi acerca do Dia D (a campanha nacional contra a toxicodependência promovida em 28 de Janeiro de 1997), da reciclagem e da situação em Timor-Leste, entre outros temas. Publiquei também uma crítica do livro Caderno de Agosto, de Alice Vieira, e um pequeno conto que marcou o início das minhas pálidas experiências na ficção.

 

 

A ausência de jornais na Escola Secundária de Odivelas, pelo menos entre 1999 e 2002, viria a pôr fim à minha breve carreira de jornalista, que serviu para concluir que não tinha jeito nem vontade de trabalhar na comunicação social. Enquanto Sporting e Boavista conquistavam os seus primeiros (e até agora últimos) campeonatos do século XXI, tentei ser escritor, mas sem grande sucesso nem continuidade. Finalmente, acabei por seguir História e contar eventos reais ocorridos num passado mais ou menos distante. No entanto, a motivação foi sempre, e continua a ser, a mesma que tinha em 1994: o prazer de ler e escrever.