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Desumidificador

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A nona arte

Eu costumava apresentar-me como um fã de banda desenhada (conceito trazido de França por Vasco Granja para substituir a designação tradicional “histórias aos quadradinhos”), até perceber que chamar-me isso constituía um insulto aos verdadeiros nerds. Afinal, nem sequer estou familiarizado com duas das grandes correntes do género, os super-heróis americanos e a manga japonesa. No entanto, a BD foi muito importante na minha iniciação à leitura e, ao longo dos anos, continuei a achá-la bastante interessante e tematicamente rica. Apresento-vos as minhas 10 principais referências no consumo de BD, por ordem de entrada em cena.

 

Disney: Quando eu era miúdo, já existiam à venda publicações da Disney editadas em Portugal (Hiper Disney, Disney Aventura, As Melhores Histórias, etc.), mas ainda estavam disponíveis nas bancas periódicos importados do Brasil, como as revistas do Zé Carioca, essa personagem admiravelmente imperfeita. Dentro do universo de Patópolis, preferia as aventuras dos patos de Carl Barks à “família” do insosso Mickey. Actualmente, encontram-se no mercado revistas com histórias feitas em Itália, mas já não é a mesma coisa, nem no texto nem no desenho.

 

Turma da Mônica: Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali, juntamente com muitos outros personagens criados por Maurício de Sousa, protagonizam histórias simples e divertidas, sem excessos de moralismo ou pedagogia, que marcaram as infâncias de milhões de leitores de língua portuguesa. A passagem dos heróis para a adolescência, na Turma da Mônica Jovem, foi igualmente bem conseguida.

 

Astérix: Criada em 1959 pelo génio René Goscinny e pelo desenhador Albert Uderzo, a mais engraçada série da BD franco-belga teve a virtude de me fazer querer saber mais sobre os Romanos e, em particular, acerca de Júlio César. Após a morte de Goscinny, os álbuns com argumento de Uderzo oscilaram entre o razoável e o desastroso. Recentemente, Ferri e Conrad apanharam o espírito da coisa e podem conduzir os destinos de Astérix e Obélix durante muitos anos.

 

 

Tintim: Na actualidade, muitos consideram Tintim um herói demasiado certinho, sem zonas de sombra, e questionam aspectos da obra de Hergé como a escassa e pouco lisonjeira presença das mulheres ou os gags repetitivos de gente a tropeçar ou a bater com a cabeça em algum lado. Todavia, se alguma peça da engrenagem fosse mudada, Tintim simplesmente não funcionaria. E continua a funcionar, passados todos estes anos. De resto, poucas séries de BD acompanharam tão de perto a evolução do século XX. Os meus álbuns preferidos são “O Ceptro de Ottokar” e “Explorando a Lua”.

 

Lucky Luke: Entre os numerosos livros da personagem de Morris produzidos ao longo de 70 anos, a que se juntam os álbuns de spin-offs como Rantanplan e Kid Lucky, há de tudo, mas o nível atingido por argumentistas como Goscinny (e não só) chega para compensar os falhanços. Os irmãos Dalton são hilariantes, embora Rantanplan nem por isso (não perceber nada do que se passa à nossa volta não tem piada nenhuma). Num workshop sobre escrita de banda desenhada, o argumentista Fernando Dordio chamou a atenção para um aspecto curioso: Lucky Luke nunca é o motor da acção, limitando-se a reagir a iniciativas tomadas por outras personagens, como as evasões dos Dalton ou conflitos e injustiças descobertos pelo cowboy solitário nas suas andanças pelos EUA.

 

Quino: O desenhador argentino imortalizou-se através das tiras de Mafalda e dos seus amigos, o retrato de um período histórico conturbado e uma recusa do conformismo perante as tragédias do mundo. No entanto, os livros de cartoons assinados por Quino antes e depois da década consagrada à menina contestatária são tão ou mais valiosos. O autor aborda temas variados, como amor, poder, morte, comida, música, religião ou o Tarzan, além de traçar desenhos de conteúdo político que nunca se tornam datados.

 

 

Calvin & Hobbes: Uma série com poucas personagens, centrada na imaginação de um rapaz e numa das grandes duplas da BD. Mais uma vez se mostra que o humor vive dos defeitos dos seres humanos: se Calvin fosse bonzinho, teria alguma piada? Criador de um autêntico clássico, mais complexo do que parece, Bill Watterson tomou a opção certa ao pousar o lápis antes de começar a repetir-se.

 

Peanuts: O Snoopy é irritante. Uma vantagem dos desenhos animados sobre as tiras de Schulz reside no facto do cão raramente “falar” no ecrã. Aparte isso, Peanuts é uma BD com crianças nada infantil, repleta de amores não correspondidos e reflexões sobre solidão e incompreensão. Quem não se identifica com Charlie Brown e as suas inseguranças, acompanhadas da sensação de que, por mais que se tente, nunca se vai conseguir ganhar o jogo?

 

Autores portugueses: A representação visual do passado luso tem encontrado lugar na “História de Portugal em BD” de José Garcês e A. do Carmo Reis e na vasta bibliografia de José Ruy, responsável por biografias, adaptações de clássicos (“Os Lusíadas”, “Peregrinação”, Gil Vicente) e pela ficção de “As Aventuras de Porto Bomvento”. Exímio na reconstituição dos ambientes do passado, Ruy revela menor habilidade na criação de “estórias” e diálogos verosímeis. Outro autor a destacar-se na BD histórica é Pedro Massano, criador de “A Batalha” e da trilogia “A Conquista de Lisboa”, ainda incompleta. Entretanto, a editora Kingpin Books tem dado a conhecer estilos diferentes, seguidos por argumentistas e desenhadores como Nuno Duarte, David Soares, Mário Freitas, Filipe Teixeira, André Oliveira, Osvaldo Medina ou Fernando Dordio. Outros criadores nacionais de relevo são Rui Lacas, Joana Afonso, Nuno Saraiva, José Carlos Fernandes (o nome por trás da série “A Pior Banda do Mundo”) e, no humor puro e duro, as duplas Geral/Derradé e Luís Louro/Tozé Simões.

 

 

Romances gráficos: Mais recentemente, descobri a possibilidade de ir além do formato tradicional do álbum e cruzar palavra e imagem de uma nova maneira, através das chamadas graphic novels. Alguns dos exemplos mais brilhantes são “Maus”, de Art Spiegelman (uma obra marcante sobre o Holocausto e a relação entre um pai e um filho), “Persépolis”, de Marjane Satrapi (a história de uma rapariga insubmissa no Irão da Revolução Islâmica e da guerra com o Iraque), “Democracia”, de Alecos Papadatos, Abraham Kawa e Annie Di Donna (como utilizar o passado para falar do presente), e “O Árabe do Futuro”, de Riad Sattouf (os três volumes já editados focam a convivência próxima do atroz e do ridículo). As quatro obras apresentam narrativas autobiográficas, partem de um caso individual para descrever fenómenos colectivos e contribuem para uma melhor compreensão de realidades espacial ou temporalmente distantes.

 

 

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