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Desumidificador

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À procura do meio-termo

1. Quando li Utopia, de Thomas More, pensei que uma sociedade assim só funcionaria se todos os cidadãos actuassem sempre de forma racional e orientada pelos interesses do colectivo. E isso não seria possível, já que todos somos naturalmente imperfeitos (ou pecadores, numa perspectiva religiosa), capazes do melhor e do pior e movidos por interesses parciais e contraditórios, difíceis de submeter ao “bem comum” definido pelos dirigentes da sociedade. O facto de uma comunidade absolutamente pacífica e harmoniosa não parecer realista (nem desejável) não invalida, contudo, os esforços no sentido de aperfeiçoar aquilo que temos hoje e corrigir as injustiças sociais. Entretanto, se o conceito de uma sociedade igualitária costuma ser associado à esquerda, também a direita persegue as suas utopias. Talvez já não a utopia reaccionária do Estado Novo, marcada pelo desejo de regressar ao tempo anterior à Revolução Francesa, mas sim um modelo correspondente a uma espécie de Estados Unidos idealizados, onde apenas os polícias e militares sejam funcionários públicos, cada um só se preocupe consigo mesmo e ninguém faça greves, manifestações ou qualquer tipo de protesto.

 

2. A propriedade privada é algo de bom, ao contribuir para a liberdade, dinamismo e capacidade de planeamento dos proprietários, estimulados por uma fonte de rendimento que os beneficia directamente. Claro que não é a mesma coisa ser dono de um quiosque ou de um banco, mas os eventuais limites a partir dos quais a propriedade teria de ser pública, à semelhança dos fixados durante o PREC, seriam sempre arbitrários e contestáveis. Da mesma forma, o capitalismo, apesar de todos os seus defeitos, constitui um sistema aberto, plural e capaz de aumentar a produção de riqueza, enquanto as alternativas à economia de mercado fracassaram dramaticamente. No entanto, a intervenção do Estado não pode ser dispensada. Um capitalismo sem limites nem mecanismos redistributivos acaba por conduzir à situação simbolizada pela fotografia da capa do livro A Cada Um o Seu Lugar, de Irene Flunser Pimentel, captada em Dezembro de 1945, aquando da distribuição de um bodo aos pobres pela Obra das Mães para a Educação Nacional.

 

 

3. O indivíduo tem de manter sempre uma margem de autonomia em relação às pressões do “nós” a que pertence, seja ele uma nação, uma família, uma religião ou qualquer outro dos colectivos mencionados na canção “Nasce Selvagem”, dos Delfins. Não acredito que a identidade e as características psicológicas de uma pessoa sejam determinadas apenas pelo meio em que cresceu, tal como na possibilidade de dissolver alguém num “povo” ou “classe” formado por membros indiferenciados. Por outro lado, o carácter único de cada ser humano não o isenta de responsabilidades para com a comunidade onde vive. Veja-se o caso dos impostos. Como sabemos, oprimir empresas e particulares com uma carga fiscal excessiva é injusto e economicamente contraproducente, mas não se deve cair no extremo de recusar pagar qualquer imposto, dado que o financiamento quer das obras públicas quer de serviços de natureza gratuita fornecidos pelo Estado (saúde, defesa, educação, segurança social, etc.) depende das contribuições fiscais, incluindo as daqueles que possuem maiores rendimentos e também podem beneficiar da actividade estatal. A liberdade individual não anula a ligação ao colectivo, ou, como canta Sérgio Godinho em “Vai Lá!”, “És de todos tão diferente/até na impressão do dedo/ (…) mas mesmo sendo de outra gente/és só parte de um só todo”.

 

4. Os princípios enunciados nos pontos anteriores implicam um permanente equilíbrio entre optimismo e pessimismo antropológico, interesse individual e interesse colectivo, autonomia pessoal e obrigações sociais, capital e trabalho, igualdade e desigualdade, liberdade e responsabilidade, competição e cooperação, restrições ao poder estatal e utilização de meios coercivos, resignação e inconformismo, etc. Trata-se de uma complexa busca do meio-termo que caracteriza, afinal, a combinação de “social” e “democracia” presente no ideário da social-democracia. O caminho desta, a partir do pós-guerra, tem sido difícil e marcado por oscilações, erros de estratégia ou crises de identidade como a actual. Apesar das dúvidas, o modelo social-democrata (não confundir com o do PSD) continua a ser uma proposta política de organização coesa da economia e da sociedade, procurando evitar conflitos e rupturas violentas e não acreditando em projectos desejosos de criar um Homem Novo e subordinar tudo à construção de uma futura sociedade utópica. E é precisamente por isso que, como moderado e social-democrata, apoio a Geringonça.

 

P.S. O debate Natureza/Meio, relativamente à influência de cada um na formação do ser humano, possui numerosas implicações políticas. Neste livro (não se deixem enganar pelo título), Ricardo Serrado resume as conclusões da investigação científica sobre o tema e explica de forma clara como a realidade é mais complexa do que parece.