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A revolta de Braga

A editora Intervenção, especializada em livros políticos de autores de direita como Vera Lagoa e Augusto Cid, lançou em 1979 “13 Boas Razões para Votar – Contra a Abstenção”, obra na qual doze figuras públicas e um “cidadão comum” anónimo fizeram, a convite do editor Waldemar Paradela de Abreu, apelos à participação nas eleições legislativas intercalares marcadas para 2 de Dezembro desse ano. O sufrágio, convocado por Ramalho Eanes depois da queda de dois governos liderados por Mário Soares e de vários executivos de iniciativa presidencial (Nobre da Costa, Mota Pinto, Maria de Lourdes Pintassilgo), apresentava como novidade a coligação Aliança Democrática (AD), composta por PSD, CDS e PPM e cuja vitória por maioria absoluta permitiria a Francisco Sá Carneiro chegar ao poder. Antes da votação, contudo, existia na direita o receio de que uma taxa de abstenção elevada fizesse PS e PCP (o partido de Álvaro Cunhal estava coligado com o MDP/CDE na Aliança Povo Unido) obterem, em conjunto, mais deputados que a AD e formarem uma maioria de esquerda que representaria, na óptica de Paradela de Abreu, “a legalização do projecto de sovietização”. Por esse motivo, a obra colectiva apresenta, na verdade, 13 boas razões para votar na AD e afastar o perigo comunista.

 

Os membros do conjunto de treze depoentes variam entre os saudosistas assumidos do salazarismo, como o realizador António Lopes Ribeiro e o jornalista Manuel Maria Múrias, e figuras mais moderadas como José Maria Pedroto, treinador do FC Porto e militante social-democrata. Pelas páginas de “13 Boas Razões para Votar” passam, entre outros, Augusto Cid, numa BD com Soares e Cunhal como alvos, o advogado José Miguel Júdice, o locutor Pedro Moutinho, o toureiro José João Zoio, os actores Laura Alves e Henrique Santana e os músicos José Cid, Rui Guedes (compositor do primeiro hino do CDS e futuro autor de fotobiografias de Benfica, FC Porto e Sporting) e João Braga.

 

 

A nota biográfica sobre João Braga refere, além da sua carreira no fado, o seguinte currículo político: “Em 1974 é obrigado a exilar-se em Espanha depois de o Copcon lhe ter assaltado a casa e emitido um mandato de captura que só foi cancelado em Maio de 76. Em 1975 entrou clandestinamente em Portugal onde participou na luta anti-totalitária”. Ou seja, João Braga esteve ligado ao ELP ou ao MDLP, movimentos de extrema-direita com base nos exilados no país vizinho e que, durante o PREC, organizaram assaltos a sedes do PCP e uma onda de ataques terroristas contra alvos associados aos comunistas, em resposta ao que entendiam como uma tentativa destes de instaurar um regime pró-soviético. Paradela de Abreu foi um dos dirigentes da rede bombista activa durante o “Verão Quente”.

 

No seu texto, João Braga condena o “famigerado prec (sic)”, rejeita o marxismo e “a vida de miséria e pobreza que os camaradas socialistas nos querem oferecer” e defende a ruptura com “os espectáculos degradantes destes últimos 5 anos”. Contudo, o fadista, inspirado pelo novo Papa João Paulo II, afirma não pretender um “país submerso em clima de ódios e vinganças” e demarca-se quer do ELP e do MDLP quer das “reacções profundamente apaixonadas e sofridas que por vezes tive” durante “esse período sinistro que usaram apelidar de Gonçalvismo”. O voto na AD seria, para Braga, a via pacífica no sentido da liberdade e do progresso.

 

Ao longo das décadas seguintes, João Braga manteve constantes as suas ideias (como diz o cantor, “todos sabem de antemão tudo quanto penso”), elogiando Salazar e criticando a evolução da política portuguesa. A recente polémica com origem em posts escritos por Braga no Facebook revelou a mundividência do artista, para quem não faz sentido pedir desculpas por utilizar a palavra “pretos” ou por mostrar orgulho na sua heterossexualidade. De facto, a recusa do “politicamente correcto” personificada nos EUA por Trump vem de muito longe.