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Desumidificador

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A voz na vanguarda do futuro

Ainda a propósito dos raros livros de memórias escritos por políticos portugueses, recorda-se o exemplo de “Percepções e Realidade – 2004” (Alêtheia, 2006), a obra na qual Pedro Santana Lopes narra detalhadamente o seu semestre como primeiro-ministro e ajusta contas com Jorge Sampaio e outras figuras por quem considera ter sido tramado. Depois de perder as eleições legislativas, há exactamente 12 anos, Santana andou por aí, deputou, escreveu o livro, empreendeu tentativas falhadas de regressar à liderança do PSD e à presidência da Câmara de Lisboa e, após quase duas décadas de contínuo mediatismo, acabou por remeter-se à discrição da provedoria da Santa Casa da Misericórdia. Também tem feito comentário político, mas são tantos os políticos/comentadores que as intervenções do antigo presidente do Sporting passam despercebidas.

 

 

Com o passar do tempo e a menor visibilidade, Santana Lopes beneficiou daquilo a que os politólogos chamam “efeito Eanes”: as polémicas em que se viu envolvido nos seus tempos de ribalta foram esquecidas e a sua imagem tornou-se mais séria e respeitável. Afinal, todas as “trapalhadas” do breve consulado santanista (a sesta desmentida, a expulsão do “barco do aborto”, a contratação de dúzias de secretárias e seguranças, os ministros da craveira intelectual de um Rui Gomes da Silva, etc.) parecem hoje risíveis e irrelevantes, comparadas com o que aconteceu em Portugal depois de Santana sair de S. Bento. De facto, em 2004 a clivagem esquerda-direita era menos acentuada, com muitos sociais-democratas a salientarem-se no desgaste do então líder e jornalistas como José Manuel Fernandes a escreverem crónicas contra o executivo PSD-CDS. Muita gente achava PSL ridículo, estouvado e desadequado ao cargo de primeiro-ministro, mas poucos o detestavam com os níveis de ódio reservados aos seus sucessores. Sem casos suspeitos a envolvê-lo, Santana Lopes possuía, inclusive, alguma gravitas quando discursava. Até mesmo a tentativa de fazer Marcelo Rebelo de Sousa calar-se parece hoje compreensível.

 

Ultimamente, Pedro Santana Lopes tem sido notícia não pelo que faz, mas pelo que não faz, ao rejeitar lançar candidaturas às presidenciais e às autárquicas (o que revela prudência e bom senso). Os santanistas ainda existentes na redacção do i e do Sol especulam sobre uma futura ascensão de PSL ao cume “laranja” no pós-Passos e, se quase ninguém leva essa hipótese a sério, também não se ouve o rasgar de vestes pelo eventual regresso de Santana, um produto “retro” interessante para os coleccionadores de antiguidades. Parafraseando “Os Maias”, podemos dizer que não há nada, com efeito, que caracterize melhor a pavorosa decadência de Portugal, nos últimos dez anos, do que este simples facto: tão profundamente tem baixado o carácter e o talento, que de repente o nosso velho Pedro, o homem do lenço na cabeça, o “menino guerreiro”, aparece com as proporções de um génio e de um justo.