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Desumidificador

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Aqui não há silêncio

Ex-agnóstico e oriundo de uma família alentejana descrita pelo próprio como indiferente à religião, Henrique Raposo abraçou o Cristianismo há poucos anos e, nas suas colunas nos sites do Expresso e da Rádio Renascença, tem manifestado o zelo de um convertido. O cronista aborda em numerosos textos a perseguição aos cristãos que considera existir por parte dos defensores do “politicamente correcto”, cuja alegada preocupação com os direitos de “gays”, negros ou mulheres ocultaria um profundo desprezo pela religião e, em particular, pela Igreja Católica, alvo de chacota e insultos. Da mesma forma, Raposo salienta o papel do catolicismo como forma de resistência à tirania, inclusive na actualidade, quando católicos americanos se manifestam contra Donald Trump. Antes de comentar o comentador, esclareço que sou católico (podia ser um católico melhor, mas isso é outra história).

 

Numa altura em que a islamofobia (aparentemente nada incómoda para Henrique Raposo, crítico acérrimo do Islão) foi elevada a política de Estado nos EUA, onde mulheres, imigrantes e homossexuais enfrentam uma viragem em seu desfavor, tratar os cristãos como um grupo perseguido na América roça o absurdo. Em Portugal, os supostos ataques da esquerda à Igreja (Raposo raramente dá exemplos concretos daquilo que o ofende), traduzidos em cartazes do BE ou em “sketches” humorísticos com actores vestidos de Jesus, certamente que não abalam uma instituição dotada de benesses fiscais e proprietária de uma universidade, uma das maiores rádios nacionais e um dos negócios mais lucrativos do país, o Santuário de Fátima. Se o ambiente cultural e mediático se laicizou, isso não enviou a Igreja para as catacumbas.

 

Quanto ao catolicismo como baluarte da liberdade, Raposo evoca os antigos regimes comunistas da Europa de Leste, mas omite o apoio do clero dependente de Roma às ditaduras de Franco e Salazar. Os excessos do anticlericalismo em Portugal (com variações dentro dos campos liberal e republicano) não devem fazer esquecer como a Igreja Católica pré-Concílio Vaticano II lidava mal com a modernidade, as ideias de esquerda e os seguidores de outros credos. Acerca da história da Igreja, pode dizer-se que quanto mais perto do poder mais longe de Cristo.

 

Henrique, vive a fé sem vitimização. Não há risco de uma noite a tua casa ser invadida por uma brigada de “gays” e feministas enviada para te prender e crucificar.