Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Desumidificador

Desumidificador

"As 10 Questões do Colapso"

No seguimento de outros livros de João César das Neves editados pela D. Quixote e dedicados à exposição, numa linguagem acessível, da situação económica nacional, “As 10 Questões do Colapso”, escrito em Agosto e publicado em Outubro de 2016, analisa as fragilidades do país, como a dívida pública, os abalos na banca ou o baixo crescimento. Num exercício de futurologia, César das Neves prevê para breve (de acordo com a capa do livro, será provavelmente em 2016 ou 2017) uma emergência financeira semelhante à de 2011 e enumera as condições internas e externas do cenário popularizado por Pedro Passos Coelho na expressão “Vem aí o diabo”. O professor da Universidade Católica abre os vários capítulos com citações do Papa Francisco, mas, para lá dos aspectos técnicos, “As 10 Questões do Colapso” também pode ser resumido em frases curtas como as seguintes (à excepção da primeira, o autor não as utiliza textualmente no livro).

 

“Não há almoços grátis”. É a frase preferida de César das Neves, que a repete sucessivamente (e nos leva a imaginar que, quando recebe familiares em casa no dia de Natal, o economista cobra 20 euros a cada um para pagar o almoço) de modo a explicar a inevitabilidade das consequências negativas de fenómenos positivos. Assim, as dificuldades vividas actualmente nos EUA e na Europa são o resultado da globalização, responsável por retirar milhões de pessoas da pobreza em todo o mundo. A evolução tecnológica implica também o desaparecimento de determinadas actividades económicas, de nada servindo protestos de grupos ameaçados como os taxistas. Da mesma forma, a crescente desigualdade é aborrecida, sim senhor, mas o capitalismo constitui o único sistema capaz de aumentar a riqueza disponível para o conjunto da sociedade.

 

“Chega de escarcéu”. Ao ver como “a nossa cultura promove desilusão, censura, quase subversão” (p. 296), César das Neves rejeita o protesto e considera que “fazemos um drama por coisas que não impressionariam os nossos bisavós” (p. 116). A situação internacional está longe, na opinião do economista católico, de ser tão má como a pintam e, embora o “extremismo” político represente um risco, o cenário difere do vivido nos anos 20 e 30. César não acredita no triunfo da extrema-direita (recorde-se que “As 10 Questões do Colapso” foi escrito antes de Trump chegar ao poder), uma vez que cerca de metade da população mundial pertence à classe média, e esta “gosta de paz e sossego” (p. 137). A tendência dos seus contemporâneos para dirigirem a raiva contra os políticos desgosta César, segundo o qual “não faz qualquer sentido explicar problemas vastos e dramáticos por caprichos, manias ou erros individuais” de quem está no poder (p. 125).

 

“A culpa é nossa”. A situação de Portugal, na visão césar-nevista, não resulta da incompetência dos governantes ou do euro e das pressões da União Europeia, mas sim do comportamento de todos nós. César não se isenta de culpas, como membro da geração, nascida em meados do século XX, que “endividou e bloqueou a economia, deixando um país doente” (p. 274) devido à falta de capital e ao excesso de regras e direitos. Um exemplo da responsabilidade colectiva é a taxa de poupança, que, após bater o recorde mundial no final do Estado Novo, foi-se reduzindo até atingir níveis mínimos em 2008. A partir desse ano, César sorriu ao ver que as famílias intensificavam a poupança num período de crise, mas bastou um ligeiro afrouxar do cinto em 2013 para o consumo voltar a subir de forma incompatível com os recursos do país. Embora negue a luta de classes, o professor catedrático considera existir um “Portugal dual” onde se assiste ao “combate entre aqueles que se julgam com direito ao dinheiro dos outros e esses outros” (p. 173). Quem são os parasitas? Todos aqueles que vivem à sombra do orçamento estatal, como artistas, trabalhadores dos transportes ou administradores de serviços públicos. A revolta dos cidadãos “produtivos” contra os privilegiados será essencial para reagir ao colapso.

 

“Com comunas no Governo, ninguém investe”. A obra identifica vários problemas económicos e sociais do país, mas os dados fornecidos por César das Neves indicam que esses riscos já vêm de trás, inclusive dos anos anteriores à crise, e agravaram-se durante o programa de ajustamento. O que aconteceu depois de Setembro de 2015 em Portugal para tornar o colapso iminente? Pois, foi isso mesmo. Para além de António Costa ter alterado o discurso oficial e contrariado a política de austeridade, o facto do seu Governo ser apoiado por BE e PCP constitui em si mesmo um factor nocivo, uma vez que os empresários nacionais e estrangeiros “não são estúpidos” e não têm confiança para investir num país onde, por mais moderados que os esquerdistas pareçam, “a sua origem genética” (p. 246) levá-los-á sempre a destruir a economia. A recuperação do investimento verificada nos últimos meses era considerada impossível por César no Verão passado.

 

Na situação precária e instável em que vivemos, ninguém pode garantir a 100% que nada de grave acontecerá até ao final da década. Este contexto, além de contribuir para o sucesso comercial do livro de João César das Neves, fornece à direita a esperança de que o futuro acabará por lhe dar razão. “Mais cedo ou mais tarde, a retórica e as promessas vão embater nas leis da aritmética” e os portugueses, depois da “negação”, “raiva” e “negociação” experimentadas ao longo da crise, vão entrar na fase de “depressão”, até finalmente chegar a “aceitação” da realidade (pp. 35-37). E quando isso acontecer, poderá enfim surgir o país novo sonhado por conservadores como César. Que é, afinal, o velho país injusto e miserável de sempre.