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As palavras são importantes

Na sua intervenção na Universidade de Verão do PSD, Cavaco Silva incentivou os jovens alunos a terem a coragem necessária para “combaterem o regresso da censura”. Os novos sociais-democratas evitariam assim repetir o erro cometido pelo próprio Cavaco quando tinha a idade deles e a censura não o incomodava demasiado. Os anos passados em Inglaterra viriam, no entanto, a mudar o economista. Aníbal seria incapaz, por exemplo, de defender a censura de um programa televisivo de humor com imitações da voz do primeiro-ministro e sketches sobre personalidades históricas ou de barrar a candidatura a um prémio literário de um romance por o considerar ofensivo para uma dada religião.

 

 

Não quero acusar Cavaco Silva por não ter sido um herói durante a ditadura (muito poucos o foram), até porque o antigo Presidente da República nunca se armou em antifascista, característica essa que o tornou adorável para boa parte da direita. No entanto, certas palavras têm um significado preciso e pessoas como Cavaco e Maria João Avillez, autora do artigo do Observador recomendado em Castelo de Vide por Aníbal, estão a contribuir para a banalização de conceitos como “censura", "guerra” ou “tirania”. As comparações entre a Geringonça e o Estado Novo ou a União Soviética feitas por vários colunistas relativizam implicitamente a violência e a especificidade histórica desses regimes ditatoriais ao considerarem tudo equivalente. Já faltou mais para os comentadores denunciarem o Terror, o Holocausto e a colectivização forçada a que António Costa está a proceder sob o silêncio cúmplice de Marcelo Rebelo de Sousa. (ALERTA: a frase seguinte é irónica) O próprio Edmundo Pedro começa a admitir que, embora tenha de facto apanhado muito calor lá no Tarrafal, não passou por nada tão insuportável como ser chamado de racista e homofóbico no Facebook. (Ironia desligada)

 

A crónica de Maria João Avillez sobre a opressão do politicamente correcto aborda ainda outros pontos interessantes. A jornalista queixa-se do facto de nunca ter vingado no Portugal democrático um jornal de direita ou centro-direita empenhado no combate cultural e ideológico contra a esquerda. Ou seja, ao fim de três anos de publicação, o Observador, onde Avillez escreve, ainda não “se impôs”. A verdade é que, salvo o caso excepcional de O Diabo, nenhum periódico nacional com uma orientação política assumida teve vida muito longa nas últimas décadas, incluindo os jornais favoráveis ao PS (A Luta e Portugal Hoje) e ao PCP (O Diário), devido à sua rejeição pela maioria dos leitores, sem cor partidária definida. Assim, desenvolveram-se técnicas mais subtis de intervenção. Primeiro, é necessário proclamar a total independência do jornal e vinculá-lo aos princípios mais nobres e ousados, como a liberdade de informação. Depois, enche-se a maior parte do noticiário com crimes, futebol e fofocas sobre celebridades. Pode-se então introduzir notícias sem base real ou apresentadas de maneira tendenciosa, numa linguagem prejudicial para o lado oposto ao nosso, e misturar tudo num belo prato de “jornalismo de referência”.

 

No mesmo texto, Avillez sente-se desacompanhada na luta contra a ditadura cultural da extrema-esquerda e retoma o “síndroma da clandestinidade” presente há muitos anos nos artigos dos colunistas de direita. Estes sentem-se minoritários e sem acesso ao público, uma vez que meios como as artes, a universidade e a comunicação social estarão sob domínio da esquerda, situação que permite a esta influenciar as mentalidades dos portugueses e apresentar a direita a uma luz desfavorável. De facto, nos primeiros anos após o 25 de Abril, exigia-se uma certa dose de coragem para militar nas forças políticas à direita do PS, alvo de acusações de ligação ao regime deposto e dotadas de escassa presença nos media estatizados. A partir de 1979, as vitórias eleitorais da AD, a estabilização da democracia e o triunfo da economia de mercado deveriam conduzir ao fim do receio de exclusão sentido pela direita, mas nem os 20 anos de Cavaco Silva no poder serviram para tranquilizá-la. Apesar do predomínio conservador em estabelecimentos de ensino superior como a Universidade Católica e as faculdades de Economia, os liberais temem e desprezam o pessoal das ciências sociais e humanas, esse exército de clones do prof. Rosas e do prof. Boaventura. Quanto à alegação de domínio do jornalismo português actual pela esquerda, merece um comentário em três palavras: ah, ah, ah. No fundo, trata-se de uma posição idealista, já que, para a direita, o poder político e o poder económico são irrelevantes perante a influência tremenda da cultura. Se Bruno Nogueira e Ricardo Araújo Pereira se tornassem apoiantes do PSD, este país seria bem diferente.

 

P.S. Cavaco Silva parece ter um afecto especial pelo Observador, o único jornal, juntamente com o Sol, que o antigo magistrado supremo cita no livro Quinta-Feira e Outros Dias para confirmar as suas opiniões (p. 68). Recentemente, Cavaco publicou no Observador dois artigos, uma homenagem ao seu ex-ministro Miguel Beleza e a transcrição de uma conferência realizada pelo algarvio na Coreia do Sul. O jornal digital reúne grande parte dos poucos comentadores para quem Cavaco foi um óptimo Presidente, bem melhor que o traidor Marcelo. Talvez por isso mesmo, o discurso feito por Aníbal em Castelo de Vide poderia ter sido proferido num dos vídeos de Rui Ramos ou José Manuel Fernandes. Na verdade, o Observador, ao invés de usar um nome semelhante aos daqueles jornais fictícios lidos pelas personagens das telenovelas portuguesas, deveria chamar-se O Cavaco, como a antiga revista de José Vilhena.