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As surpresas de 2017 (Parte I)

A actualidade, sobretudo na área da política, é muitas vezes aborrecidamente previsível. Dentro do pequeno universo português e mesmo a nível internacional, vemos muitas vezes um conjunto restrito de personalidades lançar iniciativas que, no momento em que são anunciadas, já todos sabemos como vão acabar. Assim, até Luís Marques Mendes passa por adivinho. No entanto, o tédio habitual da política portuguesa foi abalado em Outubro e Novembro de 2015 pela formação da Geringonça, um cenário cujo carácter inovador apanhou de surpresa Cavaco Silva e quase todos os comentadores (excepto Rui Tavares e Daniel Oliveira, os quais concretizaram então o seu sonho de infância), sem ferramentas mentais nem termos de comparação disponíveis para avaliar o que acontecia nesse Outono. Em 2016, as maiores surpresas, o Brexit e a eleição de Donald Trump, verificaram-se na política internacional, provocando um efeito de choque e incerteza.

 

Impõe-se, por isso, que fiquemos muito atentos aos acontecimentos inesperados surgidos em 2017, mesmo que ainda nem a primeira metade do ano esteja concluída. A maioria dos eventos registados até agora, como o tetracampeonato do Benfica ou o risco para Michel Temer de se ver afastado da presidência brasileira por envolvimento num escândalo de corrupção, eram facilmente previsíveis em 1 de Janeiro. Contudo, para lá de uma surpresa futebolística de impacto limitado (o Moreirense ergueu a Taça da Liga), três fenómenos contrariaram as expectativas iniciais dos media e do público.

 

Os irmãos Sobral: Durante os últimos 20 anos, os portugueses pensaram em tudo menos nos festivais da Canção e da Eurovisão. No entanto, a nova administração da RTP (em particular, Daniel Deusdado e Nuno Artur Silva) optou por remodelar o formato nacional existente desde 1964 e convidar vários compositores de sucesso para criarem temas a interpretar por cantores previamente escolhidos. Uma das autoras envolvidas, Luísa Sobral, escreveu a canção “Amar pelos Dois” e ofereceu-a ao irmão, Salvador Sobral, cujo primeiro álbum passara até então despercebido (“nobody gave a shit”, como diria Salvador numa conferência de imprensa já após o triunfo em Kiev). Vencedor do Festival RTP da Canção, o tema causou estranheza em muitos espectadores por diferir tanto do género de música associado a certames deste tipo. E, no entanto, estava aí o segredo. O contraste de “Amar pelos Dois” com o lixo tradicional na Eurovisão fez a canção dos Sobral atrair as atenções dos europeus que seguiam o evento. Quase por aclamação, jurados e público concederam a Portugal uma vitória inédita, nesse 13 de Maio em que aconteceu tudo ao mesmo tempo. Luísa e Salvador foram considerados exemplos das qualidades da juventude portuguesa e da nova vaga de triunfos do país em todos os sectores.

 

 

Economia a bombar: A coligação de esquerda revelou-se mais sólida que as previsões da direita, mas esta dispunha ainda, no final de 2016, de um argumento em torno do anémico crescimento da economia, mais baixo que no ano anterior. Os dados do primeiro trimestre de 2017 revelaram, porém, um crescimento homólogo sem paralelo na última década e a perspectiva de resultados bem melhores do que se esperava no conjunto do ano. Aparentemente, Marcelo Rebelo de Sousa já dispõe do valor final da expansão do PIB em 2017, na ordem dos 3,2%. Quanto a qual dos últimos governos possui maiores responsabilidades nesta inversão de tendência, trata-se de uma discussão futebolística, como Ricardo Araújo Pereira assinalou. O certo é que os efeitos políticos e sociais deste “Ninguém nos Pára” estão a ser profundos, apesar das dúvidas sobre a sustentabilidade a longo prazo da recuperação.

 

Administração Trump: No meio do pânico de 9 de Novembro de 2016, muita gente desvalorizou a possível ameaça mundial representada pelo novo líder americano. Afinal, o sistema de Washington domaria os impulsos de Trump, o candidato desbocado teria que dar lugar a um presidente contido, a realidade frustraria os planos mais disparatados e Donald acabaria por não ser muito diferente dos seus antecessores republicanos. Já depois do aterrador discurso de tomada de posse, viu-se na alocução de Trump ao Congresso um sinal da progressiva normalização do outsider. A desdramatização era tentadora, mas, no ritmo frenético dos primeiros quatro meses de mandato do nova-iorquino, uma terrível realidade impôs-se: o homem é exactamente aquilo que parece. Até mesmo aqueles que conheciam bem o estilo “trumpista” não antecipavam tamanha dose de ignorância, precipitação, autoritarismo e falta de habilidade política. O que vai acontecer a seguir é algo que nem o próprio Donald imagina. Desde o dia em que Trump anunciou a sua candidatura presidencial e um qualquer cidadão americano admitiu vir a votar nele, a “normalidade” desapareceu dos EUA e das relações internacionais.