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Ave, Trump

Os reinados dos imperadores romanos da dinastia dos Júlio-Cláudios, fundada por Augusto e prosseguida pelos seus sucessores Tibério, Calígula, Cláudio e Nero, fascinaram muitas gerações através das obras de dois historiadores do século II d.C., Tácito e Suetónio, e dos autores cristãos neles baseados. Em redor dos cinco primeiros imperadores, teceu-se uma rede familiar fértil em sexo, poder, crime, ambição, loucura, corrupção, perversidade e muitas outras características perfeitas para inspirar a pintura, a literatura e, mais recentemente, o cinema e a televisão. A coincidência temporal entre o período dos Júlio-Cláudios e o início do Cristianismo contribuiu para o interesse secular pelos eventos ocorridos em Roma no século I d.C. Dois dos príncipes descendentes de Júlio César, Calígula (imperador de 37 a 41 d.C.) e Nero (no poder entre 54 e 68 d.C.), celebrizaram-se como os “imperadores loucos”, tiranos extravagantes e megalómanos presentes no imaginário colectivo ocidental. Peter Ustinov, intérprete de Nero no filme Quo Vadis (1951), definiu o modelo entre o cómico e o repulsivo deste tipo de personagem, associada à imagem de Roma e da sua civilização que muitos possuem actualmente. A historiografia tem revisto as fontes e questionado vários episódios pertencentes ao domínio da lenda, como o suposto envolvimento de Nero no incêndio de Roma, mas o fascínio pelos Césares mantém-se aceso.

 

Desde o final do século XX, tornou-se frequente o estabelecimento de um paralelo entre o Império Romano e os Estados Unidos da América, que, depois de destruírem a sua Cartago, a União Soviética, teriam ao seu dispor um poder militar e económico à escala global semelhante ao outrora alcançado por Roma na bacia mediterrânica. De resto, várias das instituições da democracia americana, como o Congresso ou os estados dirigidos por governadores submetidos a um poder federal, denotam a inspiração do modelo político romano. Ultimamente, porém, a memória dos Romanos tem emergido nos EUA devido ao perfil do novo Presidente, semelhante aos tiranos descritos por Tácito e Suetónio. Donald Trump vê-se, de facto, como o imperador da América, odiando que alguém limite o seu poder e governando num estilo arrogante e caprichoso. O egocentrismo, os projectos de grandes obras públicas, o estímulo ao culto da personalidade e o gosto por orgias em luxuosos palácios com decoração de gosto duvidoso são características comuns a Trump, Calígula e Nero. Apesar da hostilidade das elites de Roma/Washington para com um César que despreza os preceitos tradicionais, o soberano goza de apoios sinceros entre a plebe desejosa de pão e circo. Trump adoraria certamente poder assistir num Coliseu a lutas de gladiadores e dispor da decisão final sobre a vida ou morte dos combatentes (uma versão apenas um pouco mais radical do “You’re fired!”), tal como atirar aos leões os opositores políticos e imprimir dólares com o seu rosto. Donald já se lançou na perseguição a uma minoria religiosa e, sem a inspiração de Nero para a poesia, não deixa de se orgulhar dos best-sellers sobre técnicas de negócio que assinou. Rodeado na sua corte por um conjunto de favoritos, bajuladores e personagens bizarras, Trump é ainda influenciado pelos seus familiares, dotados de uma influência extra-oficial superior à das instituições formais.

 

Esperemos que a situação não se agrave ao ponto de, como os seus antecessores do século I d.C., Donald Trump ser deposto através do assassinato ou de uma revolta do exército. Se perder o apoio do Senado, Trump pode ser obrigado a afastar-se e dar origem a um período instável, com imperadores efémeros como Mike Pence, até uma nova dinastia se afirmar. É certo que, na Roma clássica, os príncipes tirânicos e as guerras civis não puseram em causa o modelo político do Império, o qual perduraria ainda durante vários séculos. No entanto, há quem anteveja já o declínio do império americano, sem capacidade de conter as potências em desenvolvimento para lá das suas fronteiras.