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Bibliografia do santanismo

No frenesim mediático da actualidade, poucos se lembram do que aconteceu há 13 dias, quanto mais há 13 anos. Esta realidade torna pouco provável que a candidatura de Pedro Santana Lopes à liderança do PSD sofra problemas resultantes da memória colectiva acerca do período entre Julho de 2004 e Março de 2005 no qual Santana chefiou o Governo. Os historiadores interessados em investigar a evolução da política portuguesa nesses oito meses dispõem, no entanto, de fontes e bibliografia bastante úteis para compreender o santanismo.

 

Para começar, existe o relato do próprio Santana Lopes, publicado (Alêtheia, 2006) sob o título 2004 – Percepções e Realidade e no qual o ex-primeiro-ministro narra detalhadamente a sua chegada a S. Bento e a actividade governamental conduzida até Novembro de 2004, quando Santana foi surpreendido pela dissolução da Assembleia da República. Jorge Sampaio, então Presidente da República, é o principal alvo do livro, juntamente com Cavaco Silva, Marcelo Rebelo de Sousa e outros adversários de Lopes dentro do PSD que o político social-democrata responsabiliza pela sua queda precoce. A versão de Sampaio seria conhecida já este ano, no segundo volume da monumental biografia do antigo chefe de Estado redigida pelo jornalista José Pedro Castanheira com o apoio de uma equipa de investigadores. Em declarações prestadas ao seu biógrafo, Sampaio manteve a convicção de que decidiu bem ao afastar Santana, de quem estava “farto” como primeiro-ministro. Incomodado ao sentir o reavivar da ferida, Pedro desafiou Jorge para um debate televisivo sobre os eventos de 2004, sem receber resposta.

 

Quando Pedro Santana Lopes assumiu as rédeas do XVI Governo Constitucional, a blogosfera vivia em Portugal a sua fase de apogeu, marcando o aparecimento no debate político de comentadores mais ousados e irreverentes. Surgiram pouco depois vários livros baseados na compilação de posts dos blogues mais populares, como o esquerdista Barnabé, cuja antologia (Oficina do Livro, 2005) inclui as reacções indignadas dos autores à entrega do ceptro do poder a Santana Lopes. Um dos membros da equipa do Barnabé, Rui Tavares, incluiu na obra Pobre e Mal Agradecido (Tinta da China, 2006) vários dos comentários por si postados durante a agitada segunda metade de 2004, acompanhados por uma previsão certeira: “Num futuro muito próximo, o governo de Pedro Santana Lopes será tão lembrado quanto a revolta do grelo ou a guerra das laranjas” (p. 67). À direita, O Acidental, na origem de um livro homónimo (Hugin, 2005), atraiu em 2004 um colectivo de autores futuramente célebres (Luciano Amaral, Pedro Marques Lopes, Rodrigo Moita de Deus, etc.), os quais defenderam a coligação PSD/CDS, embora fossem mais entusiastas de Paulo Portas que de Santana Lopes.

 

Tal como acontece relativamente a muitas épocas, o humor constitui um meio precioso para analisar a visão dos contemporâneos do santanismo. Além de O Fenómeno, o álbum humorístico inspirado por Santana Lopes que referi no post anterior, a compilação Cartoons do Ano 2004 (Assírio & Alvim, 2005) reúne desenhos dos cartoonistas António, Cid, Maia e Vasco publicados na imprensa durante o ano protagonizado por Santana e Sampaio. Por sua vez, Contra of Best, um DVD vendido com o diário Público em 2005, preserva numerosos sketches do programa satírico da RTP Contra-Informação, cujo boneco Santana Flopes seguiu o respectivo modelo como uma verdadeira sombra. O retrato jocoso da governação santanista era igualmente efectuado pelo suplemento O Inimigo Público, também distribuído com o jornal da Sonae. O Público, então dirigido por José Manuel Fernandes (opositor de Santana), forma juntamente com o Diário de Notícias (sob o controlo de Luís Delgado, fiel apoiante do primeiro-ministro) e os semanários Visão e Expresso um conjunto de periódicos onde o investigador mais minucioso pode encontrar descrições pormenorizadas da acção de Santana Lopes e das críticas que recebeu.

 

 

O exemplo da pesquisa sobre os acontecimentos de 2004-2005 que pode ser realizada a partir destas e doutras fontes levanta a questão do distanciamento temporal necessário ao historiador para escrever objectivamente acerca do passado. Convém lembrar que os professores António Reis e José Medeiros Ferreira, entre outros autores, produziram as primeiras sínteses historiográficas acerca do 25 de Abril e do período revolucionário cerca de 18 anos depois da queda do Estado Novo. O problema não está necessariamente na distância entre o presente e o período em estudo, mas sim no facto deste se encontrar ou não fechado, ou seja, limitado a barreiras temporais susceptíveis de impedir o aparecimento de novos dados e consequências que alterem a percepção do que aconteceu. Se no caso da história de áreas como o cinema, a música ou o futebol (neste caso, o tempo encontra-se repartido em fatias correspondentes a cada temporada ou torneio e separadas das restantes) não é comum existirem riscos desse tipo, o estudo da história política motiva algumas cautelas. No entanto, se é certo que Pedro Santana Lopes acredita ter ainda muitas páginas da sua futura biografia para escrever, o semestre no qual encabeçou o PSD e o Governo constitui um evento histórico provavelmente já conhecido no essencial e sem relação de maior com a actualidade. Afinal, tudo o que aconteceu antes da crise económica de 2008 parece pertencer a outro país e outro mundo.