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CDS, o partido de esquerda

Algo de estranho se passa na direcção do CDS. Assunção Cristas e as figuras que aparecem atrás dela quando fala à comunicação social, como Nuno Magalhães e Telmo Correia, têm lançado, em jeito de palpite, propostas insólitas para um partido de direita. Nas jornadas parlamentares do CDS, a presidente defendeu a possibilidade dos trabalhadores com 20 ou 25 anos de descontos gozarem de “uma espécie de licença sabática” de seis meses, na qual poderiam frequentar a universidade (embora, pelos vistos, só fazendo um semestre do curso escolhido) ou simplesmente tirar umas férias. A ideia centrista não recebeu, até agora, qualquer apoio. Já no último debate quinzenal na Assembleia da República, Cristas realçou a sua faceta de candidata autárquica e apresentou o projecto do CDS de construir 20 novas estações do metropolitano de Lisboa, sem responder claramente às perguntas óbvias: onde, quando, como, porquê?

 

Recorde-se que o Centro Democrático Social integrou um governo, com “Boss AC” como ministra, sob cuja vigência os democratas-cristãos aceitaram, em nome da regularização das contas públicas, a ultrapassagem de várias “linhas vermelhas” relativas às pensões, e agora concebe propostas segundo as quais as empresas já podem dispensar os seus funcionários por vários meses e o Estado já possui meios para financiar grandes obras nos transportes. Apesar de Cristas ter afirmado que, sem receitas extraordinárias, o défice de 2016 atingiria valores exorbitantes (desmentidos pelo Conselho de Finanças Públicas), estes projectos marcados pela “ambição” centrista constituem afinal um elogio implícito à Geringonça, ao partirem do princípio de que já não é necessária qualquer contenção orçamental, graças à recuperação económica dirigida por António Costa. Na verdade, ao lutar por mais tempo de lazer para os trabalhadores, defender o investimento em obras públicas e, através da sua organização de juventude, contestar a propriedade privada de bens como as fotografias de Alfredo Cunha, o CDS parece pretender conquistar o eleitorado de esquerda descontente com as cedências de BE e PCP a Costa e afirmar um projecto verdadeiramente revolucionário.

 

Na verdade, Assunção Cristas cultiva o espectáculo, aposta na mediatização da sua imagem (por boas ou más razões, é-lhe indiferente) e conta com a habitual falta de escrutínio das declarações dos políticos. Afinal, Cristas até poderia dizer aos jornalistas que consegue voar. Ninguém lhe exigiria uma demonstração dessa capacidade.