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Desumidificador

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De pequenino se torce o destino

A literatura infanto-juvenil possui um papel fundamental na iniciação e sensibilização das crianças para a leitura, na difusão do conhecimento sobre determinadas áreas temáticas (artes, História, Geografia) e até como retrato numa dada época do público-alvo a que se destina. No meu caso, apesar de ter acabado por crescer e começar a preferir livros mais “adultos”, o contacto com os autores portugueses de obras redigidas a pensar nos jovens foi decisivo para tudo aquilo que li e escrevi mais tarde. Estes foram os escritores cuja imaginação mais me deliciou entre os 10 e os 15 anos e a quem gostaria de prestar homenagem, tal como aos ilustradores que deram rosto aos personagens.

 

Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada: As duas professoras iniciaram em 1982, com a escrita a meias de Uma Aventura na Cidade, um dos maiores fenómenos literários portugueses, que ainda continua a crescer 35 anos depois. A colecção Uma Aventura, na qual os lisboetas João, Chico, Pedro, Luísa e Teresa, acompanhados dos cães Faial e Caracol, percorrem o país e alguns pontos do estrangeiro (Egipto, França, Escócia, Cabo Verde…), apresenta histórias simples, rápidas e empolgantes. Os criminosos que têm o azar de se cruzarem com os jovens heróis são sempre algo ridículos, devido à consciência das autoras de como o mal pode ser atractivo. Existe também a preocupação de não incluir elementos, como a cultura pop ou a gíria adolescente, que tornem os livros datados. De facto, as histórias das aventuras mais antigas poderiam passar-se na actualidade, salvo o pormenor de nelas ninguém usar Internet nem telemóvel. Os outros projectos da dupla de escritoras incluem a colecção Viagens no Tempo e numerosas obras de síntese e divulgação da História portuguesa, essenciais para muitos leitores que vieram a especializar-se nessa área.

 

 

Maria Teresa Maia Gonzalez e Maria do Rosário Pedreira: Embora também se centre num grupo de jovens (divididos pelas faixas etárias dos 16, 12-13 e 10-11 anos) residentes na capital, a colecção O Clube das Chaves, composta por 21 volumes publicados entre 1988 e 1999, não narra propriamente aventuras, mas sim a resolução de enigmas ligados a temas como cinema, música, futebol e religião, entre outros. Para além da colaboração com Pedreira, Gonzalez produziu uma vasta obra a solo, da qual se destacam o best-seller A Lua de Joana, a colecção Profissão: Adolescente e vários livros dedicados à promoção de uma doutrina subversiva, o Cristianismo. Ao contrário de Alçada e Magalhães, Gonzalez menciona frequentemente nas suas histórias acontecimentos recentes ou músicos e outras celebridades na moda entre os adolescentes aquando da escrita de cada ficção.

 

 

Alexandre Honrado: Jornalista e autor de argumentos para BD e televisão, Honrado criou as duas aventuras do Grupo Panda, O Vizinho Misterioso e Os Caçadores de Cabeças, dotadas de um ritmo vivo e conclusões inesperadas. Noutras obras (O Maior dos Mistérios, Sentados no Silêncio, A Minha Vida Não É Nada Disto!, etc.) o escritor mostra-se um atento e por vezes irónico observador da sociedade ao falar de temas como o bullying ou as novas famílias surgidas a partir de divórcios e segundos casamentos.

 

 

Álvaro Magalhães: A série de livros Triângulo Jota, protagonizada pelos adolescentes Joel, Jorge e Joana, apresenta tramas mais fantasiosas que as de outras colecções. Personagens bizarras como Michael Jackson, velhos nazis ou membros de seitas maradas surgem no caminho dos aventureiros, mas o ambiente nunca se torna irreal, devido à presença de elementos do quotidiano, entre eles discussões sobre futebol. A paixão pelo desporto-rei inspirou, aliás, Magalhães na escrita de análises dessa temática com a qualidade de História Natural do Futebol e FC Porto, 100 Anos de História (aqui em co-autoria com Manuel Dias).

 

 

Alice Vieira: A trilogia formada por Rosa, Minha Irmã Rosa, Lote 12, 2.º Frente e Chocolate à Chuva foi apenas o início da actividade desta jornalista na literatura infanto-juvenil. Os livros de Vieira combinam histórias paralelas, revelam um trabalho hábil de construção de personagens e possuem vários níveis de leitura, oscilando entre a seriedade e a sátira descarada presente em Caderno de Agosto (1995) e Um Fio de Fumo nos Confins do Mar (1999). A escritora tem demonstrado mestria noutros géneros, em especial nas crónicas, das quais Só Duas Coisas que, Entre Tantas, Me Afligiram é a compilação mais recente.