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"Deus, Pátria, Autoridade"

Está a decorrer na FCSH-UNL o ciclo “Cinema É Liberdade”, promovido pelo Instituto de História Contemporânea e dedicado à obra do realizador Rui Simões, um dos principais nomes do cinema documental português. O evento iniciou-se em 6 de Abril com a exibição de “Deus, Pátria, Autoridade”, a primeira longa-metragem de Simões, estreada a 21 de Fevereiro de 1976 no cinema Universal (Lisboa) e na qual, a partir dos conceitos essenciais do Estado Novo, é feita uma panorâmica da evolução de Portugal entre a implantação da República e os meses da presidência de António de Spínola.

 

Apoiado pela RTP, “Deus, Pátria, Autoridade” só seria exibido na televisão muitos anos depois da estreia, facto compreensível se tivermos em conta que o apelo à luta de classes feito por Rui Simões tornou-se politicamente embaraçoso para a estação pública no pós-25 de Novembro. Tal não obstou a que o documentário se tornasse um surpreendente êxito comercial, quer durante os três meses em que permaneceu na sala lisboeta quer através de numerosas sessões realizadas por todo o país a pedido de comissões, associações ou grupos de trabalhadores. Um projector e uma parede suficientemente grande eram suficientes para permitir o visionamento de “Deus, Pátria, Autoridade” e debates em torno do conteúdo político da obra. Além de atrair a extrema-esquerda, esta conseguiu entrar nos círculos ligados ao PCP, apesar de uma referência do narrador, Rui Paulo da Cruz, aos “imperialismos”, quando, para os comunistas, imperialismo só havia um, o americano e mais nenhum. A estreia de Rui Simões (exilado na Bélgica, onde estudou cinema, antes do 25 de Abril) na realização era exactamente o filme que o país, ou parte dele, queria ver em 1976. Surgiu ainda nesse ano uma versão em livro de “Deus, Pátria, Autoridade”, publicada pela Contraeditora.

 

 

A longa-metragem apresenta um discurso simples e didáctico, orientado pela preocupação do realizador em alcançar e esclarecer a maioria da população, então dotada de conhecimentos muito fracos sobre política e economia. Esse esforço conduziu a cenas hoje consideradas infantis por Rui Simões, como a animação que explica o enriquecimento dos patrões à custa dos trabalhadores. De facto, “Deus, Pátria, Autoridade” está longe de pretender ser imparcial e apresenta uma visão engagé da História portuguesa em que o lado bom (o proletariado) se distingue claramente do lado mau (a burguesia). O simplismo não impede o documentário de abordar o período entre 1910 e 1974 de forma coesa e fluida, mantendo o interesse do espectador e inserindo-o sem dificuldade no universo do filme.

 

Apesar de tomar posição, o trabalho de Simões permite ouvir a voz do “inimigo”, seja através de imagens retiradas da propaganda do Estado Novo, em depoimentos recolhidos nas ruas de Lisboa já em democracia, com um antigo soldado a recusar a descolonização, ou numa entrevista feita pelo realizador a Silva Pais, o antigo director da PIDE/DGS então detido em Caxias. Ao manejar sons e imagens de significados contraditórios, Simões questiona habilmente a perspectiva salazarista, num tom mordaz presente na coabitação do discurso do cardeal Cerejeira com o tilintar das moedas doadas pelos fiéis em Fátima ou na coreografia da tomada de posse do I Governo Provisório. A qualidade da montagem é espantosa, tendo em conta a inexperiência da equipa do filme e a precariedade das condições técnicas nas quais o documentário foi criado (no debate verificado após a projecção na FCSH, Rui Simões contou algumas peripécias insólitas da produção, para a qual partiu sem um tostão no bolso). As imagens compiladas possuem em si mesmas um valor documental inestimável e levantam questões como o papel e representação das mulheres, entre a artificialidade das “madames” burguesas exibidas em festas e a rebeldia, misturada com sensatez, das operárias e trabalhadoras rurais cuja voz se fez ouvir a partir do derrube do regime.

 

Actualmente disponível em DVD e no You Tube, “Deus, Pátria, Autoridade” é um objecto cinematográfico filho da Revolução de 1974/75, com tudo o que ela teve de ingénuo e espontâneo, e apresenta Rui Simões, um cineasta não tão reconhecido como merece. No seu segundo filme, “Bom Povo Português” (1980), Simões aperfeiçoaria o seu estilo num retrato único do PREC.