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Eanes é fixe?

A “canonização” do general António Ramalho Eanes ocorrida nos últimos anos causa espanto por dar a entender que o militar foi um Presidente da República consensual, quando esteve longe de o ser. Símbolo dos vencedores do 25 de Novembro, Ramalho Eanes ganhou facilmente as presidenciais de 1976, apoiado por PS, PPD e CDS, mas, durante o seu primeiro mandato, entrou em conflito com os líderes desses três partidos. A hostilidade assumiu um carácter pessoal com Mário Soares e Francisco Sá Carneiro, neste último caso agravado pela forma como o casal Eanes tratou Snu Abecassis. Visto inicialmente como travão do PCP, Eanes recebeu o apoio comunista em 1980 e tentou, sem sucesso, travar a revisão constitucional de 1982 e a consequente extinção da tutela militar sobre o regime. Descontente com os partidos existentes, o militar de Alcains procurou dominar o sistema e formou a partir de Belém o PRD, através do qual prosseguiria a actividade política depois de voltar a residir no bairro da Madre de Deus. Entretanto, o sotaque, as patilhas, a pose grave e castrense e o rosto inexpressivo de Ramalho Eanes fizeram dele um alvo perfeito para os humoristas, mas o general não achou graça e obteve a apreensão por via judicial dos livros “O Superman” e “Eanito, El Estático”, de Augusto Cid (se hoje acontecesse algo de semelhante, seria um escândalo), que imortalizou Eanes em inúmeros cartoons.

 

Na verdade, em 1985, nem a esquerda nem a direita se identificavam totalmente com o primeiro Presidente eleito em democracia. Apenas Pinto da Costa não esquecia a audiência que Eanes lhe concedera quando, em 1982, assumira a presidência de um FC Porto em grave situação financeira e o apoio presidencial lhe permitira negociar com os credores. António tornou-se um grande amigo e o político preferido de Jorge Nuno, do qual recebeu um Dragão de Ouro e a quem prefaciou um dos livros.

 

O erro tremendo de apresentar em 1987 uma moção de censura ao primeiro Governo cavaquista e o resultado humilhante do PRD nas eleições que se seguiram ditaram o final da carreira política de Ramalho Eanes e, apesar da tentação de regressar nas presidenciais de 1996, o general foi-se embora de vez. Desde então, para lá de apoiar candidatos à chefia do Estado como Cavaco Silva e Sampaio da Nóvoa, Eanes raramente tomou posições públicas e falou sempre numa lógica nacional e não partidária. Os portugueses nascidos depois de 1980 vêem no ex-presidente uma figura dos livros de História sem ligação à realidade actual, como se fosse um cromo de uma caderneta antiga. A reserva e o distanciamento, juntamente com a fama de uma honestidade à prova de bala, transformaram o general numa figura unânime. Afinal, Eanes permaneceu ausente do poder e dos meios e espaços onde se fez, disse, pensou, discutiu e negociou a política nos últimos 30 anos. E isso não pode deixar de ser bom sinal.