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Em busca dos Coelho Serra

Como investigar a história da minha família? Para lá de algumas cartas, fotografias e textos autobiográficos a que tive acesso, é possível consultar na Biblioteca Nacional a imprensa regional editada em Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande, os concelhos do norte do distrito de Leiria cuja jurisdição inclui, respectivamente, as aldeias natais da minha mãe (Aldeia da Cruz) e do meu pai (Covais). Para lá de boletins paroquiais como Voz da Graça, de que já aqui falei, foram lançados durante o século XX em Figueiró e Pedrógão, sobretudo na primeira, semanários ou quinzenários como O Figueiroense, A Regeneração, Comarca de Figueiró, O Norte do Distrito e União Figueiroense. O noticiário dessas publicações, dedicado sobretudo ao pequeno mundo da elite política e económica local, registava um vasto conjunto de factos como baptizados, casamentos, mortes ou licenciaturas, criando uma malha de nomes de “amigos” e assinantes de cada jornal na qual os Coelho Serra (quase todos os membros da minha família possuem pelo menos um destes apelidos) eram por vezes referidos. Por vezes, surgem achados inesperados, como esta notícia publicada no número de 1 de Maio de 1926 de A Regeneração:

 

“Na passada terça-feira foi chamado – altas horas da noite – para os Covais, o nosso Director Dr. Manuel Simões Barreiros, especialista em partos (…), tendo ocasião de salvar milagrosamente Carolina Coelho Serra, mulher de Isidro Batista, a qual há dias se encontrava de parto. Baldados todos os esforços, resolveu recorrer a este ilustre clínico, que mais uma vez soube intervir de modo a radicar os seus créditos, tirando das garras da morte, mais uma pobre mulher que agora se encontra felizmente bem.”

 

Isidro Batista e Carolina Nunes Coelho Serra eram os meus bisavós, na altura já com cinco filhos (e ficaram-se por aí, dado que o feto morreu). Quanto ao médico e jornalista Manuel Simões Barreiros, apoiaria a ditadura instaurada pouco depois, durante a qual seria presidente da Câmara de Figueiró dos Vinhos e procurador à Câmara Corporativa. Artigos breves deste tipo são essenciais para preencher os muitos espaços em branco na narrativa das vidas dos meus familiares mais remotos. Durante a pesquisa de imprensa, não têm faltado surpresas e nomes para acrescentar à árvore genealógica. No que respeita às fontes arquivísticas, como as conservadas no Arquivo Distrital de Leiria, ainda não sei exactamente que tipo de informação útil podem conter.

 

Apesar de não pertencer a uma família tão representativa do país inteiro como a de Henrique Raposo, posso associar os casos particulares dos Coelho Serra a fenómenos mais gerais. Desde logo, a integração na tendência nacional de evolução positiva ao nível da riqueza, entre a miséria rural do início do século XX e o relativo conforto da classe média actual, e ao nível da instrução, entre avós quase analfabetas e netas doutoradas em Economia. A discriminação de género no acesso à educação foi, de resto, uma norma até às gerações mais recentes. A migração dos campos em torno de Figueiró dos Vinhos para as cidades também foi um fenómeno comum, sobretudo a partir de 1950, altura em que alguns dos meus ascendentes participaram no reforço tardio do povoamento branco de Moçambique, território que a maioria deixaria em 1975. Sobretudo do lado do meu pai, verificou-se frequentemente aquilo a que hoje se chama espírito empreendedor (explorar terrenos, criar lojas, fazer negócios, construir casas, trabalhar imenso para isso tudo), enquanto do lado materno tornou-se mais comum integrar o pessoal do Estado ou desempenhar funções na área dos serviços. Não parece existir na família uma tradição de envolvimento político, apesar do meu avô materno ter combatido do lado da ditadura em Fevereiro de 1927, quando a unidade em que cumpria o serviço militar foi enviada para reprimir a revolta do Porto.

 

Ao contrário do que se possa pensar, o passado da minha família raramente me interessou até há pouco tempo. Por um lado, porque o universo rural dos Coelho Serra mais antigos parecia difícil de compreender para quem sempre viveu em Odivelas. Além disso, a minha indiferença resultava de puro snobismo e estupidez: como nenhum dos meus familiares tinha sido famoso ou alcançado grandes feitos políticos, militares, artísticos ou desportivos, achei que não devia haver nada de muito relevante nas histórias dessas pessoas distantes no tempo. A crescente atenção da historiografia contemporânea aos cidadãos comuns (basta pensar nas recolhas de “Memórias” da I Guerra Mundial, da resistência ou da Revolução promovidas pelo IHC) e a vontade de fazer chegar até ao meu sobrinho ainda bebé a memória daqueles que ele não pôde conhecer acabaram por me guiar aos registos impressos do percurso dos Coelho Serra, sempre com a consciência de que até posso recolher os nomes e alguns dados biográficos dos meus antepassados, mas nunca saberei através do papel quem eles realmente eram.