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Desumidificador

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Em torno da História

Porque decidi ser historiador? Primeiro pensei em ser escritor, mas, quando compreendi que a minha imaginação era zero, passei a contar histórias que realmente aconteceram. Basicamente, foi isto.

 

Ao seleccionar os temas das minhas teses de mestrado e doutoramento, escolhi-os porque me pareceram boas histórias ainda não contadas, interessantes de seguir e úteis para compreender fenómenos mais vastos. Não pretendi argumentar a favor de nenhuma teoria ou ideologia (embora existam óptimas teses em História criadas a partir dessa fórmula) e limitei-me a resumir e narrar aquilo que descobri durante a pesquisa. Já recebi críticas por ser muito descritivo e pouco interpretativo. Não é que eu ache que os “factos” falam por si, mas a forma como ordeno a informação e o conjunto daquilo que refiro ou não ao longo do texto parecem-me suficientes para o leitor apreender a “moral” da história, sem necessidade de salientar repetidas vezes os pontos mais importantes. Quanto ao estilo, não sei o que é escrever para os “pares” ou para o “grande público”, apenas busco uma redacção compreensível por todos, sem que isso dispense as referências bibliográficas nem as transcrições (de extensão variável) dos documentos consultados. Não há boa História mal escrita, mas o historiador, ao contrário do romancista, não pode inventar.

 

Qual é a utilidade do trabalho historiográfico ou, por outras palavras, para que serve a História? Boa pergunta. Os historiadores não contribuem para o PIB, pelo menos directamente, nem conseguem, para desgosto de políticos como Pires de Lima, inventar máquinas capazes de aumentar os lucros das empresas. Também não produzem nada que se possa comer, beber ou fumar nem fornecem qualquer tipo de prazer físico com aquilo que dizem e escrevem. Acumulam riqueza? Só se for numa actividade paralela. Possuem forte influência social? Essa é boa. Conseguem tirar lições do passado e evitar novos erros colectivos? Não me parece. Apenas sei que não pode haver uma sociedade sem memória, e esta tem de ser preservada por alguém.

 

O trabalho do historiador é ainda mais útil em tempos acelerados como os actuais, quando, por vezes, acredita-se que tudo começou ontem e entra-se num “presente eterno” sem referências. Contudo, não se deve cair no extremo de submeter o presente ao passado, como faziam os partidários do Estado Novo, defensores da obrigação moral imposta pelos exemplos dos feitos militares gloriosos dos séculos XVI e XVII de resistir até ao fim em África, ou referir sucessivos acontecimentos pretéritos para tentar demonstrar que nada mudou em Portugal nos últimos duzentos anos (uma mensagem transmitida em inúmeras crónicas de Vasco Pulido Valente). Na verdade, a historiografia contribuiu para desmentir supostas características inatas e intemporais dos portugueses, ao expor as contínuas mudanças registadas no país e no mundo e mostrar que verdades antes consideradas infalíveis não correspondiam à realidade. A única “lição” da História é que tudo está sempre em movimento.

 

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