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Erasmo contra Lutero

O pastor protestante Tiago Cavaco, também conhecido como o músico Tiago Guillul, tem abordado temas religiosos em vários livros, o mais recente dos quais é Cuidado com o Alemão (Igreja da Lapa/Letras d’Ouro, 2016), onde, a propósito do quinto centenário da Reforma, o sacerdote reproduz o pensamento de Martinho Lutero e confronta-o com vários aspectos da actualidade, um tempo no qual, segundo Cavaco, as religiões seguem erradamente a tendência de fomentar a auto-estima e o comodismo dos crentes. Embora deixe sempre clara a convicção inabalável que acompanha a sua fé, Cavaco revela ter sentido de humor e constrói uma obra útil para leitores de qualquer credo, alvos de sucessivas e estimulantes questões do autor.

 

Num capítulo sobre a vida de Lutero, Tiago Cavaco dedica especial atenção à polémica travada entre 1524 e 1525 pelo Reformador e por Erasmo de Roterdão, então o mais célebre intelectual humanista e que, apesar das suas críticas à Igreja Católica, demarcou-se da ruptura protagonizada pelo teólogo alemão. Os dois debateram no papel questões como a interpretação da Bíblia, a oposição livre arbítrio/servo arbítrio, a autonomia e os limites do Homem face ao poder de Deus, entre outras. A disputa, concluída sem acordo possível entre dois homens muito diferentes no estilo, nos objectivos e no temperamento, fascina Cavaco, para quem “em todas as questões da vida há espaço criativo para perguntarmos: sou Erasmo ou sou Lutero?” (p. 70).

 

 

Lembrei-me desta questão ao ler outro livro, a nova compilação de crónicas de Alberto Gonçalves, A Ameaça Vermelha (Matéria-Prima, 2017), um volume dedicado ao primeiro ano e meio de vida da Geringonça, o fenómeno político que motivou desde o início a crítica visceral do comentador. Nas eleições presidenciais de Janeiro de 2016, Alberto Gonçalves votou em Marcelo Rebelo de Sousa para evitar a vitória de qualquer um dos candidatos da esquerda, mas desde o dia da tomada de posse de Marcelo que a desilusão de Gonçalves com o Presidente dos “afectos” não poderia ser maior. De facto, as personalidades dos dois homens são exactamente opostas. Como bom católico, Marcelo tende a defender consensos e a união dos cidadãos num objectivo comum, enquanto Alberto vê na política um confronto perpétuo em que os bons têm de derrotar os maus. Embora admita mudanças, o moderado Marcelo propõe a manutenção no essencial do sistema, sistema esse que Alberto considera necessitar de transformações profundas. Marcelo utiliza uma linguagem suave e cortês, Alberto trata os adversários como imbecis e doentes mentais. Marcelo apela à pacificação, Alberto incentiva o confronto. Marcelo acredita que Portugal possui alguma margem de manobra na decisão das suas políticas. Alberto prega a submissão incondicional às justas normas de Bruxelas. Marcelo salienta as qualidades e capacidades dos portugueses. Alberto diz ao leitor: tu és lixo. Marcelo tem dúvidas. Alberto acha que quem tem dúvidas não acredita em nada. Marcelo é Erasmo. Alberto é Lutero. O problema é que, enquanto Lutero apontava Deus, revelado a todos na Bíblia, como o caminho para a salvação humana, Gonçalves apenas alude vagamente a uma redenção do país por meio da combinação da austeridade com um liberalismo que os portugueses, na sua opinião, são demasiado infantis para seguirem.

 

Quanto ao restante conteúdo de A Ameaça Vermelha, não há muito a dizer, já que as crónicas de Alberto Gonçalves podem ser resumidas na frase “todos os portugueses são idiotas, menos eu”. Na verdade, Alberto é “do contra” por natureza. Se algo está na moda, ele segue outro caminho. Benfiquista na sua juventude, antes de cair numa fase de total indiferença perante o futebol, Gonçalves tornou-se adepto do FC Porto quando o Benfica voltou a ganhar campeonatos (obrigadinho, Alberto, mas só aceitamos pessoas com cadastro limpo). Momentos em que o país inteiro se une para celebrar, como o título europeu de futebol ou a vitória na Eurovisão, são um autêntico suplício para Gonçalves. Afinal, de que serve um acontecimento que o colunista do Observador não pode indicar como prova da nossa irremediável estupidez?

 

 

P.S. A crónica de Alberto Gonçalves “Uma heroína do nosso tempo” (pp. 98-99 de A Ameaça Vermelha), publicada originalmente na Sábado de 7 de Julho de 2016, levanta duas questões pertinentes. A primeira é: que coisa estragada será preciso alguém comer em miúdo para se tornar tão arrogante e mal-educado? A segunda é: que tipo de editor aceita incluir num livro por si publicado um texto cujo autor goza com o sofrimento de outra pessoa?

 

P.P.S. Além do efeito de contraste através do qual os leitores de Alberto Gonçalves podem sentir-se mais simpáticos e tolerantes, o sucesso do comentador de direita pode ser explicado por um fenómeno parcialmente responsável pelo êxito televisivo do chef Ljubomir Stanisic: o estranho fascínio pelo tipo que é bruto com todos aqueles que encontra e sai sempre impune. Muita gente gostaria de ser rude e desagradável sem deixar de poder sair à rua, e alguém aparentemente livre para dizer qualquer insulto que lhe venha à cabeça cria um sentimento de admiração. A expansão do populismo passa também por aqui.