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Fascismo nunca mais?

Vários analistas têm salientado o contraste entre a estabilidade vivida no Portugal de António Costa, líder de um Governo invulgarmente à esquerda para os padrões da União Europeia, e a crescente agitação internacional, marcada pelo terrorismo, pelas vitórias da extrema-direita e por novas formas de autoritarismo. Esta situação excepcional motiva os cientistas sociais a tentar esclarecer as razões do fracasso do radicalismo de direita entre nós. Vou tentar resumir as hipóteses apresentadas por vários autores, como o prof. António Costa Pinto e o historiador italiano Riccardo Marchi, investigador da evolução da extrema-direita portuguesa.

 

1. A memória das ditaduras funciona, em Portugal e Espanha, como um obstáculo à atracção popular por projectos de extrema-direita. Os saudosistas do Estado Novo continuam a ser minoritários e o 25 de Abril, apesar das polémicas sobre o PREC, é considerado um marco libertador pela generalidade da população portuguesa. Para os jovens, os eventos dos anos 60-70 tornam-se cada vez mais distantes, mas o sistema educativo, a historiografia e o Museu do Aljube têm divulgado abundantemente o “antes” e o “depois” da Revolução.

 

2. Portugal encontra-se hoje muito mais aberto ao exterior que no tempo de Salazar. As décadas de democracia e integração europeia fizeram recuar o país do patrão e do senhor padre e favoreceram a mudança e laicização das mentalidades, tal como uma maior tolerância para com os estrangeiros e as novidades vindas de fora. Quase ninguém quer ficar orgulhosamente só.

 

3. A islamofobia possui um mecanismo semelhante ao do anticomunismo do tempo da Guerra Fria, baseando-se igualmente numa ameaça real, mas encontra reduzido eco em Portugal, quer por motivos históricos (as marcas da presença medieval islâmica permanecem, sobretudo no Sul do país) quer pelo escasso número e sucesso na integração da comunidade muçulmana. Os refugiados do Médio Oriente acolhidos por cá desde 2015, apesar dos receios iniciais, passam hoje despercebidos. Obviamente, se chegassem sucessivas embarcações de migrantes à costa do Algarve, a situação poderia alterar-se.

 

4. A extrema-direita lusa não possui uma clara base social de apoio, como largos contingentes de operários desempregados ou pequenos proprietários agrícolas ameaçados pela globalização. Ao invés de vir para a rua partir tudo ou apoiar novos partidos, o português comum manifesta o seu descontentamento com o sistema através da abstenção e do desinteresse total pela política e pelos políticos, fenómeno que acaba por reforçar a influência dos eleitores fiéis aos partidos tradicionais. Por sua vez, as elites económicas, beneficiárias das ligações ao “centrão” e de uma relativa paz social, não vêem razões para financiar grupos extremistas.

 

5. Depois do 25 de Abril, os nacionalistas, desprovidos de uma liderança unificadora, conheceram disputas internas e divisões em grupúsculos semelhantes às que afectavam a extrema-esquerda. Ao mesmo tempo, o fim do Império e, após o 25 de Novembro e as vitórias eleitorais da AD, o afastamento dos receios de uma tomada do poder pelos comunistas deixaram a extrema-direita sem causas por que lutar. Boa parte das bases radicais entrou para o PSD (que acolheu “democratas” da craveira de Alberto João Jardim) ou para o CDS, enquanto Jaime Nogueira Pinto e outros intelectuais se dedicavam apenas ao combate cultural, em jornais e revistas de circulação reduzida. O PNR surgiu na transição do milénio como uma nova força partidária anti-sistémica, mas José Pinto Coelho revelou-se inepto na liderança, limitando-se a importar o discurso anti-imigração que via ter sucesso em França e na Holanda, sem alcançar um efeito semelhante em Portugal. Embora tenha aumentado lentamente a sua votação, o PNR nunca esteve próximo de eleger um deputado e a sua associação aos grupos de skinheads prejudica-o. A direita liberal é maioritariamente europeísta e recusa o proteccionismo dos radicais, embora algumas reacções ao fenómeno Trump indiquem que entre “moderados” e nacionalistas existe uma fronteira Schengen e não um muro.

 

Tudo isto significa que podemos ficar sossegados porque o fascismo nunca mais volta? Nem por isso. Uma rápida vista de olhos pela Internet detecta a vasta difusão de um populismo larvar, perigoso a médio prazo, embora ainda sem ninguém que o encabece (além do jornal Correio da Manhã). O Diabo mantém assinantes em número suficiente para prosseguir a sua publicação. Entretanto, o caso da Nova Portugalidade veio demonstrar um dilema: se for concedido tempo de antena à extrema-direita, ela aproveita-o bem para a sua propaganda, mas, caso lhes sejam impostas limitações, os fascistas armam-se em mártires da liberdade de expressão. O discurso contra o “politicamente correcto” alastra e os êxitos dos correligionários nos EUA e na Europa fazem os radicais portugueses acreditar que podem sair do gueto. Embora Portugal pareça imune à vaga de crescimento da extrema-direita, o vírus ressurgirá se descurarmos a prevenção. Por isso, viva o 25 de Abril!