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Desumidificador

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Febre da bola

Os media falam tanto de futebol porque os portugueses adoram-no ou os portugueses adoram futebol porque os media falam tanto dele? Dito de outra forma, a omnipresença mediática do desporto-rei resulta de uma exigência do público ou este é condicionado para consumir futebol em doses maciças?

 

O historiador Ricardo Serrado costuma defender a primeira hipótese, a partir das circunstâncias do início do futebol português, que, na primeira década do século XX, evoluiu das suas origens elitistas para uma fase de popularização. Por volta de 1908, os jogos oficiais de futebol disputados em Lisboa contavam já com milhares de espectadores, muitos dos quais afectivamente ligados a um determinado clube. A grande maioria dos adeptos e praticantes do football association na capital era formada por analfabetos, introduzidos no novo desporto através da presença deste no quotidiano e não por influência da imprensa. Vinte anos depois, dezenas de milhares de pessoas (as fotografias e os raros filmes das multidões são impressionantes) aglomeravam-se nas cidades portuguesas para acompanharem, através dos painéis montados pelos jornais O Século e Diário de Notícias, a reprodução das incidências dos desafios da selecção nacional de futebol no torneio dos Jogos Olímpicos de Amesterdão, onde a equipa das quinas atingiu os quartos-de-final. A selecção constituía um fenómeno de popularidade que abrangia um universo muito superior ao dos leitores da imprensa desportiva (composta por títulos geralmente semanais ou bissemanais) e generalista.

 

A paixão pelo futebol ainda era, no entanto, uma realidade apenas urbana. Quando António Roquete, o guarda-redes da selecção que brilhara na Holanda, chegou em 1931 a Marvão para trabalhar no posto fronteiriço da PIP (Polícia Internacional Portuguesa), os habitantes da vila alentejana conheciam vagamente o nome de Roquete, mas não se mostravam interessados nos feitos desportivos do atleta. Já na década de 50, quem vivia numa aldeia do interior, como os meus avós e pais, podia passar anos sem ouvir falar de futebol, algo literalmente impossível na actualidade. Neste cenário, a adesão dos portugueses ao beautiful game parecia ser espontânea, limitando-se a imprensa, a rádio (envolvida a partir dos anos 30 na transmissão de relatos em directo de eventos desportivos) e a televisão, surgida em 1957, a tentar acompanhar a crescente procura de informação sobre futebol.

 

Durante o Estado Novo, contudo, os meios oposicionistas começaram a relacionar o fenómeno futebolístico com a acção do regime, que estimularia o crescimento do futebol e o seu acompanhamento pelos media de modo a distrair a população dos problemas sociais que esta vivia e evitar a mobilização contra o salazarismo. A fórmula dos “3 efes”, Fado, Futebol e Fátima, serviu para explicar a apatia dos portugueses e salientou a natureza artificial do culto gerado por uma modalidade ligada a numerosos interesses materiais. O 25 de Abril contribuiu para a difusão da crítica ao carácter “alienante” do futebol profissional, combatido pela política da Direcção-Geral dos Desportos, organismo alvo da influência do PCP entre 1974 e 1976. Os ataques ao desporto-rei reduziram a exposição mediática deste, o que não impediu os adeptos de continuarem a afluir em massa aos estádios.

 

A transmissão televisiva de partidas de futebol, iniciada em força apenas na década de 80, devido ao receio dos clubes da perda de receitas de bilheteira, veio alterar a relação dos espectadores com a modalidade e fazer crescer a mediatização. Os anos 90 trouxeram as estações generalistas privadas, a Sport TV e outros projectos que ampliaram o conhecimento luso sobre o futebol internacional, enquanto os velhos jornais A Bola e Record juntaram-se a O Jogo no ritmo diário de publicação. Desde então, os números de bilhetes vendidos nos estádios caíram, mas o futebol tornou-se omnipresente no discurso mediático. Muitas empresas associaram a sua publicidade aos êxitos da selecção e favoreceram o entusiasmo generalizado em torno dos Europeus e Mundiais. Além das tiragens altas das publicações especializadas, os media generalistas reforçaram os espaços dedicados ao desporto (leia-se futebol) e a Internet acelerou a transmissão de opiniões e notícias futebolísticas. Os debates acesos entre adeptos dos três “grandes” espalharam-se pelos canais do cabo (a CMTV emite todas as noites discussões sobre futebol), um mercado no qual os próprios clubes investiram. Esta atmosfera quase sufocante deve-se a um facto simples: o futebol vende. Aliás, numa época em que o público está cada vez mais fragmentado e individualizado, o jogo do pontapé na bola é o único produto cultural a atrair os portugueses sem distinções de idade, classe, educação e (até) género.

 

É possível responder das duas formas às perguntas do primeiro parágrafo. O futebol possui um apelo básico e irracional que atinge quase todos os países e precede qualquer aproveitamento político ou económico. No entanto, seria no mínimo ingénuo não compreender como a modalidade regulada em 1863 se tornou um dos maiores negócios do mundo, cujos agentes aproveitam na perfeição os media para mobilizar os adeptos/consumidores, fonte de receitas também para a comunicação social. Contestar a mediatização do futebol é tão inútil como as queixas contra o calor ou a chuva. Seja como for, não se justifica achar que a atenção concedida ao fenómeno futebolístico impede a população (implicitamente considerada burra e infantil) de se interessar pela política. Apesar de se tratar de um discurso mais comum à esquerda, Alberto Gonçalves associou recentemente a cobertura exaustiva dos meandros da bola à popularidade da Geringonça. Afinal, o futebol é como os árbitros: quem está a perder queixa-se sempre dele.