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Desumidificador

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Feitos um para o outro

De acordo com o modelo que idealizei, um eventual debate entre Raquel Varela e Henrique Raposo estaria dividido em seis partes, a partir das seguintes palavras, que constituiriam os tópicos de discussão: “Deus”, “Pátria”, “Família”, “Trabalho”, “Burguesia” e “Revolução”. Quanto ao suporte do debate (para o qual seria necessário um moderador), poderia concretizar-se num livro de seis capítulos, num programa de rádio gravado e repartido por 6 dias ou numa transmissão televisiva com a duração de cerca de 90 minutos. O confronto entre Varela e Raposo propiciaria, além de numerosos momentos de acesa polémica, a constatação de surpreendentes pontos de contacto entre os dois comentadores.

 

Em que é que uma ateia trotskista e um católico liberal poderiam estar de acordo? Para lá da idade, Raquel Varela e Henrique Raposo têm em comum o estatuto de “outsiders”. Vindos de fora dos partidos e das habituais áreas de recrutamento de comentadores políticos, Varela e Raposo costumam apresentar ideias invulgares e assumir uma postura de combate ao sistema ou, na expressão de Raposo, à elite lisboeta. Da mesma forma, a historiadora e o “proletário do teclado” adoptam uma perspectiva mais moral que política da actualidade, condenando determinados comportamentos do quotidiano e dando conselhos aos outros portugueses. Os dois rejeitam excessos de individualismo e pretendem regressar a valores alegadamente caídos em desuso, resumidos nos conceitos enumerados no parágrafo anterior. O pensamento político de cada um foi influenciado pelas experiências das respectivas famílias durante o PREC: vários parentes de Raquel militaram na extrema-esquerda, enquanto os pais de Henrique não aceitaram o sindicalismo comunista predominante nas fábricas da periferia de Lisboa (isto é público, porque ambos gostam de falar acerca de si mesmos). Tanto uma como outro acham que as crianças devem brincar à vontade na rua, longe do lazer infantil protegido e organizado que os autores denunciam como uma tendência nociva. Além disso, nenhum deles acredita nas alterações climáticas.

 

No entanto, duvido que este par perfeito aceitasse o desafio de combater, digo, debater entre si. A única vez que Raquel Varela se pronunciou sobre Henrique Raposo ocorreu durante a polémica em torno do livro “Alentejo Prometido”, quando as declarações de Raposo na televisão sobre o suicídio fizeram a historiadora rir às gargalhadas. Quanto ao articulista do Expresso e da Renascença, não me recordo de ter alguma vez referido nas suas crónicas a autora de “História do Povo na Revolução Portuguesa”. Alguns colunistas da linha política de Raposo, contudo, acusaram Varela de ser uma esquerdista caviar que despreza o povo. Porque leram os livros e artigos dela? Não, porque Raquel come em restaurantes e não gostou de uma reportagem televisiva sobre a família de Cristiano Ronaldo.