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Ficção presidencial

Na sua sinceridade atordoante, Donald Trump confessou que ser Presidente dos Estados Unidos da América é mais complicado do que pensava antes das eleições. Provavelmente, a concepção de Trump das funções presidenciais baseava-se no que vira no cinema, não propriamente nos biopics de presidentes reais (“Lincoln”, “Nixon”, “W”, etc.), mas naqueles filmes em que o líder americano é feito refém por terroristas ou tem de enfrentar invasões extraterrestres.

 

É impressionante a frequência com que o cinema e a televisão americanos têm ficcionado a actividade do chefe de Estado do país e colocado presidentes imaginários a protagonizar obras dos mais variados géneros. O papel de inquilino da Casa Branca é habitualmente atribuído a homens brancos de meia-idade, mas a ficção tem procurado antecipar-se à realidade, contribuindo para tornar natural a ideia de um presidente negro ou de uma presidente antes desses cenários se concretizarem (no segundo caso, a realidade fintou as previsões de Hollywood). Além de colocarem os dirigentes do “mundo livre” perante situações de crise e tensão, os argumentistas trabalham aspectos do sistema político americano dramaturgicamente interessantes, como o quotidiano da família presidencial ou a possibilidade do vice-presidente ambicionar tornar-se “califa no lugar do califa”, através da morte ou destituição da figura acima de si na hierarquia. Ao longo dos anos, vimos nos ecrãs presidentes corruptos e honestos, calculistas e espontâneos, cómicos e inspiradores, cobardes e heróicos, perversos e altruístas, idiotas e brilhantes, interpretados em réplicas da Sala Oval e do Air Force One por actores tão diversos como Geena Davis, Kevin Kline, Kevin Spacey, Peter Sellers, Leslie Nielsen, Harrison Ford, Dennis Haysbert e Jack Nicholson.

 

Em Portugal, ao invés, as produções audiovisuais raramente incluem um Presidente da República, real ou imaginário. Entre as vidas dos homens que passaram pelo Palácio de Belém desde 1910, apenas a de Manuel Teixeira Gomes foi levada ao ecrã, no recente filme “Zeus”. A minissérie televisiva “Noite Sangrenta” apresentou Miguel Guilherme no papel de Óscar Carmona, mas numa cena relativa ao período anterior à chegada do militar à presidência. Quanto a chefes de Estado ficcionais, praticamente não existem, nem mesmo na comédia política da RTP “Os Boys”. Uma tal lacuna explica-se pelo facto dos presidentes portugueses não disporem do mesmo poder que os homólogos americanos, até porque a única bomba atómica de que os primeiros dispõem é apenas metafórica. Por outro lado, embora a República Portuguesa seja já centenária, as funções de Presidente tal como as entendemos hoje apenas ficaram definidas após a aprovação da Constituição de 1976 e as eleições presidenciais do mesmo ano. Desde então, como se tornou um lugar-comum afirmar, cada PR seguiu um estilo próprio, o que dificulta a criação de padrões sobre aquilo que os líderes lusos devem ou não fazer, ao contrário do que acontece na velha democracia de Washington. Um hipotético PR ficcional viria, por exemplo, a soar mais Cavaco ou mais Marcelo, de acordo com o modelo e os objectivos do argumentista. Aguardemos, portanto. Afinal, o reality-show do actual Presidente pode despertar os produtores para o potencial televisivo e cinematográfico do cargo de magistrado supremo da Nação.