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"História do Povo na Revolução Portuguesa"

“História do Povo na Revolução Portuguesa, 1974-75” (Bertrand, 2014), de Raquel Varela, é uma obra essencial na historiografia sobre o período revolucionário, quanto mais não seja por apresentar uma cronologia exaustiva dos conflitos sociais e manifestações ocorridos nesses dois anos. Trata-se de um livro que propõe novas hipóteses e procura estimular o debate, ao provocar o leitor. Raquel Varela analisa a Revolução a partir de uma dada perspectiva ideológica, é certo, mas Rui Ramos (com quem a autora polemiza) faz o mesmo nos seus textos, tal como os outros historiadores que investigaram o PREC. Nem se pode acusar a historiadora de não definir claramente as regras do jogo.

 

Na sua crítica à “História do Povo”, António Araújo fez vários comentários pertinentes, tal como outros demonstrativos de alguma incompreensão do conteúdo da obra. Por sua vez, Fernando Rosas contestou a caracterização do Outono de 1975 como momento de crise revolucionária feita por Varela, salientando que, a partir de Setembro desse ano, a mobilização dos sectores político-militares mais à esquerda foi “um processo claramente defensivo” e não de assalto ao poder (Rosas, Fernando, “Ser e não ser: A Revolução portuguesa de 74/75 no seu 40.º aniversário”, in Loff, Manuel, Piedade, Filipe, Soutelo, Luciana Castro, coord., “Ditaduras e Revolução. Democracia e políticas da memória”, Coimbra, Almedina, 2015, pp. 201-202). O vasto trabalho de Varela não chegou, porém, a motivar um debate com a dimensão que seria expectável e desejável.

 

Não pretendo escrever uma recensão pormenorizada do livro, nem tenho conhecimentos para tal. No entanto, o conceito de “povo” utilizado por Raquel Varela causa algumas dúvidas. Durante a Revolução, todas as tendências políticas queriam ser “povo”, entidade da qual se reclamavam quer os operários da construção civil que cercaram a Assembleia Constituinte quer as manifestações do PS sob o slogan “Se isto não é o povo, onde está o povo?” Varela e os autores doutras people’s histories interessam-se, contudo, pelo “povo revolucionário, rebelde, resistente, dos que desafiam a ordem estabelecida” (p. 17) através de movimentos colectivos como greves, motins, ocupações, manifestações ou processos revolucionários. Ao longo de “História do Povo na Revolução Portuguesa”, encontramos descrições desenvolvidas do papel desempenhado por partidos, comissões (de moradores, de trabalhadores, de soldados) ou movimentos empenhados na transformação radical da sociedade lusa. No entanto, quase todo esse “povo” é constituído por operários e população urbana. O capítulo sobre a Reforma Agrária ocupa apenas 10 páginas, talvez devido à existência prévia de uma vasta bibliografia acerca do tema (ou à reduzida influência da extrema-esquerda nos campos do Ribatejo e Alentejo, dominados pelo PCP). Para além de acontecimentos como as eleições para a Constituinte e a actividade desta serem praticamente ignorados, muito pouco é dito sobre grupos como as classes médias, os pequenos e médios proprietários agrícolas e os trabalhadores do sector terciário ou quanto a organizações como a Igreja Católica, a imprensa não estatizada ou os partidos à direita do PCP. A população que não fez greve nem ocupou os meios de produção e que integrou manifestações contra-revolucionárias parece ser invisível ou composta por gente demasiado ignorante e manipulada para perceber o que estava em causa.

 

Este retrato parcial, no sentido em que mostra apenas parte da realidade, do Portugal de 1974/75 acaba por dificultar a explicação do que aconteceu e dos obstáculos que inviabilizaram a instauração do “socialismo”. E se a maioria do povo simplesmente não quisesse ser “povo”? A um nível mais pessoal, será que os meus avós, pequenos proprietários rurais despolitizados, eram menos “populares” que os operários da Lisnave? Ou que o meu pai, retornado de Moçambique em 1975 (no caso dele, foi mesmo um retorno, já que voltou à aldeia donde tinha saído ainda criança), foi um dos “cúmplices da barbárie” (p. 107) nas colónias que faziam vénias aos inspectores da PIDE? Digo isto não para ofender Raquel Varela, mas para lembrar que há muitos casos individuais que destoam dos sistemas preconcebidos e não faz sentido definir um lado “certo” e um lado “errado” da Revolução ou de qualquer outra fase histórica.