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Desumidificador

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Imprevisto no ecrã

A televisão criada em Portugal segue habitualmente padrões e formatos bastante convencionais, reguladores de uma normalidade que nem quem faz nem quem vê TV parece estar disposto a quebrar. Por essa razão, momentos inesperados como estes ganham um carácter invulgar, cuja memória por vezes perdura de geração em geração:

 

Zé Gato (1980): Realizada por Rogério Ceitil e protagonizada por Orlando Costa, Luís Lello e António Assunção, esta série policial da RTP2 abordou o quotidiano de um agente da Judiciária num contexto ainda pós-revolucionário, assumindo um tom de denúncia de problemas sociais ligados ao crime. O último dos 13 episódios, escrito por João Miguel Paulino, seguiu, contudo, uma estrutura e um conteúdo muito diferentes dos anteriores, com o personagem de Assunção a ser chamado a auxiliar um agente do FBI (Rui Mendes) vindo em missão a Lisboa. Os dois envolvem-se num conjunto de diálogos surreais e situações disparatadas que hoje sabemos ter constituído o embrião da série de culto Duarte e Companhia, estreada cinco anos mais tarde, mas, em 1980, deve ter levado muitos espectadores a pensar: “O que raio se passou aqui?”

 

Roda da Sorte (1993): O formato americano estabelecia um concurso simples e inócuo, mas, ao entregar a apresentação da versão portuguesa a Herman José, a RTP contribuiu para criar algo muito diferente. Ao longo de três anos, o talento de Herman para aparvalhar transformou o concurso num programa diário de humor, seguido religiosamente por muitos portugueses antes do Telejornal. Na última emissão da Roda, o humorista recorreu a uma espingarda verdadeira para destruir a tiro o cenário e vários dos prémios oferecidos aos concorrentes. Nunca houvera, nem voltaria a haver, nada de semelhante na televisão nacional, embora não tenha faltado desde então aos espectadores vontade de arrasar certos programas à força de balas.

 

 

 

 

Médico de Família (2000): Este inesperado sucesso da SIC iniciou uma vaga de séries com histórias de viúvos ainda novos e com filhos. Neste caso, uma série de personagens gravitava em torno do médico interpretado por Fernando Luís, entre elas o “alívio cómico” encarnado por José Raposo, que no penúltimo episódio sofreu um acidente de viação. Porém, ao invés de morrer logo ou ser levado para o hospital, como é tradicional na ficção, o personagem de Raposo ficou encarcerado no automóvel e agonizou de forma lenta e dolorosa até morrer, no meio dos esforços infrutíferos do médico e do choro dos amigos e da namorada. Tanto dramatismo foi surpreendente após uma série tão ligeira, que terminaria logo a seguir ao mostrar Fernando Luís e Rita Blanco felizes para sempre.

 

Sair do estúdio: Transmitidos frequentemente em directo, os programas de debate sobre política ou futebol estão sujeitos a imprevistos. A partir de 2010, em vários canais, os comentadores desportivos Rui Moreira, Dias Ferreira e Eduardo Barroso assumiram os gestos teatrais de se levantarem, declararem estar fartos de aturar as provocações dos colegas de painel e saírem dos estúdios onde decorriam os programas. Já antes, em 2007, Pedro Santana Lopes decidira, ao ver uma entrevista sua à SIC Notícias, para a qual viera “com sacrifício pessoal”, ser interrompida devido à chegada de José Mourinho ao aeroporto lisboeta, recusar prosseguir o diálogo e ir para casa. Inspirada por estes precedentes, Manuela Moura Guedes optou em 2015, após mais uma refrega verbal com Isabel Moreira e Raquel Varela, também participantes em Barca do Inferno (RTP3), por tirar o microfone e abandonar um programa cujo fim já estava anunciado para daí a duas semanas.

 

Belmonte (2014): Adaptada pelo argumentista Artur Ribeiro de um original mexicano, esta telenovela da TVI distinguiu-se das restantes, não tanto pela história (apesar da presença de algumas referências culturais raras nas novelas), mas pela qualidade dos diálogos e meios técnicos. Contudo, ninguém preparou os seguidores do folhetim para as últimas cenas do derradeiro episódio: após os habituais casamentos e mortes, verifica-se um corte e, de repente, a câmara mostra o interior de um hospital psiquiátrico. Enquanto o elenco surge nas peles de doentes, médicos e enfermeiros, percebemos que tudo o que vimos nos 200 e tal episódios não passou da história do romance imaginado pelo protagonista (Filipe Duarte) a partir do que observava no hospital onde se encontrava internado. O twist sabotou heroicamente todas as regras não escritas do formato e gerou reacções negativas de espectadores nada habituados a reviravoltas. Na sua novela seguinte, Santa Bárbara, Artur Ribeiro não repetiu a gracinha, até porque o efeito surpresa desaparecera.