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Jaime barrado na FCSH

Pelo que foi noticiado, o prof. Francisco Caramelo recusou inicialmente cancelar a conferência de Jaime Nogueira Pinto na FCSH-UNL, mas a agitação nas redes sociais e na Associação de Estudantes atingiu tais proporções que se decidiu evitar possíveis actos de violência através da suspensão da iniciativa. Na minha opinião, os eventuais incidentes diriam respeito apenas aos desordeiros, enquanto a decisão da direcção da FCSH prejudicou a imagem de toda a instituição. No entanto, não sei exactamente o que se passou e admite-se que terá sido uma decisão difícil.

 

Colegas, companheiros, camaradas: apupar o Jaime e bater nuns fachos não vos transforma em resistentes antifascistas. Já não estamos nos tempos do jovem Nogueira Pinto. Se não tivessem feito nada, a conferência realizar-se-ia, com meia dúzia de pessoas no auditório, e nunca mais ninguém falaria sobre o assunto. Agora tudo ganhou proporções bíblicas. Já se ouve o pessoal de direita a ver nisto a prova de que Portugal é a nova URSS, Henrique Raposo vai escrever que a “esquerdinha FCSH” é pior que o Trump, centenas e centenas de “Je suis Jaime” vão aparecer. Era mesmo isto que queriam? Se era, não estão a ver bem o filme.

 

Nunca houve tantos mártires da liberdade da expressão em Portugal como agora (na semana passada, a vez coube a João Braga). Qualquer opinador alvo de insultos no Facebook apresenta-se como vítima de censura, até porque isso vende. No entanto, é verdade que o “brunismo” tornou-se comum. Perante alguém que manifeste opiniões contrárias às nossas, passa-se facilmente da crítica ao insulto pessoal, ao boicote, à ameaça, à exigência de despedimento. A rapidez de difusão da escrita nas redes sociais contribui para que a mais insignificante das polémicas escale até níveis pré-bélicos. Os políticos e dirigentes desportivos estão longe de ser bons exemplos e estimulam o exagero e a gritaria. Os media revelam-se sequiosos das polémicas que “incendeiam as redes sociais”. Acho que, na vida real, ninguém chega mesmo a vias de facto, mas antes que isso aconteça é melhor termos alguma serenidade.

 

Como corrigir esta situação? Ponham Jaime Nogueira Pinto no átrio da FCSH, com um microfone, todo o tempo que quiser e uma multidão de alunos, professores e investigadores a ouví-lo. Quando acabar de falar, segue-se um debate com duas ou três perguntas. Ninguém diz nada enquanto o politólogo intervir, ainda que se possam mostrar algumas faixas e cartazes. Depois, todos desmobilizam em sossego e a FCSH-UNL continua a ser o espaço de tolerância e racionalidade que sempre foi.