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Jim Del Monaco

São pouco habituais na banda desenhada portuguesa os exemplos de personagens ou “heróis” que protagonizam vários álbuns. Além das aventuras do navegador “Porto Bomvento”, cuja participação na Expansão lusa é narrada por José Ruy em oito livros, podemos referir os três volumes do “Loverboy” de João Fazenda e Marcos Farrajota editados na década de 90 ou ainda duas séries publicadas pela Kingpin Books, “Super Pig” (do argumentista Mário Freitas) e “C.A.O.S.”, delineada por Fernando Dordio a partir da figura do inspector Franco. Neste cenário de escassez de personagens icónicos e falta de continuidade dos projectos editoriais, o caso de “Jim Del Monaco”, a série escrita por Tozé Simões e desenhada por Luís Louro, assume contornos excepcionais.

    

Desenvolvidas nas pranchas publicadas no Diário Popular em 1985 e em álbum a partir do ano seguinte, as histórias de Jim Del Monaco, um aventureiro com mais pose que méritos de herói, da sua companheira, a sensual e sempre insaciada Gina, e do perspicaz criado Tião partem de um conceito simples que Louro e Simões conduzem nos sentidos mais diversos. Numa África imaginária dos anos 50, Jim Del Monaco parodia os clichés dos filmes e BDs clássicos acerca de aventuras em regiões do globo com selva, animais exóticos, tribos selvagens e alguns brancos perversos como Aristides, opositor dos protagonistas em várias ocasiões. Longe de se limitarem a esse ambiente mítico, os autores já levaram Jim à China, ao deserto egípcio, ao espaço e à Pré-História. Os álbuns valem, em primeiro lugar, por serem divertidíssimos, com um humor tão atrevido quanto imaginativo, mas os argumentos de Tozé Simões demonstram também pesquisa histórica, vastas referências da cultura pop e uma construção bastante precisa e pormenorizada, reunidas num todo onde o disparate não impede uma coerência assinalável.

 

A um ritmo invulgar em Portugal e apoiado num ainda mais raro sucesso de público, Louro e Simões criaram entre 1985 e 1993 sete álbuns de Jim Del Monaco, primeiro a preto e branco e, a partir do quinto livro, “A Criatura da Lagoa Negra”, integralmente a cores, enquanto as primeiras histórias eram coloridas e relançadas pela Asa. No início dos anos 90, os autores desenvolveram em paralelo a série fantástica (no sentido de abordar o sobrenatural e não no de ser muito boa) “Roques & Folque”, repartida por três tomos. Quando pareciam estar no auge, Luís e Tozé puseram fim à sua colaboração. Louro continuou a solo na BD, tendo produzido, entre outros, os álbuns de “O Corvo”, mas viria a pousar os lápis já no século XXI. E assim tudo acabou para sempre, num fado de tristeza e nostalgia?

 

Não! A proximidade da efeméride dos 30 anos de Jim Del Monaco levou à reaproximação, em finais de 2014, do desenhador e do argumentista, os quais, apesar das dúvidas e de ambos já serem cinquentões, depressa verificaram ainda saber como atingir a saudável loucura no papel. “O Cemitério dos Elefantes”, lançado em Setembro de 2015, apresentou, além de extras comemorativos das três décadas da série, quatro novas histórias curtas, de espírito e qualidade semelhantes aos dos anos 80 e 90. Pouco depois, a dupla começou a trabalhar numa história de maior fôlego, recentemente editada com o título “Ladrões do Tempo”. O nono álbum de Jim revela um desenho e uma cor melhores que nunca, enquanto o argumento, novamente erguido a partir de bases cinéfilas (neste caso, sobretudo “Parque Jurássico” e “Regresso ao Futuro”), supera a simples caricatura e atinge níveis espantosos de imaginação, malandrice e ligação à actualidade, além da tradicional abundância de referências e piscadelas de olho (num trabalho concluído ainda em 2016, os benfiquistas Louro e Simões festejam o 35).

 

Como se mais de 20 anos de inactividade tivessem sido apenas uma pausa para ir à casa de banho, Luís Louro e Tozé Simões alimentam com o regresso de Jim Del Monaco um dos projectos mais sólidos e viciantes da BD feita por cá. A Asa deveria reeditar os livros da série anteriores a 1994, hoje apenas disponíveis em bibliotecas e alfarrabistas.