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Jovem Portugal

A história de Portugal pode ser acompanhada através da evolução do discurso público (produzido por entidades como o poder político, os comentadores, a literatura ou a televisão) sobre os jovens, sobretudo a partir da década de 60 do século XX, quando a “juventude” passou a constituir um grupo com identidade, tendências e hábitos de consumo próprios e tornou-se uma preocupação para os governantes atingidos pela contestação juvenil, tal como um vasto mercado para a cultura de massas.

 

Durante a “crise da juventude” protagonizada nos EUA e na Europa pela geração nascida no pós-guerra, o Estado Novo viu-se confrontado com a dificuldade em doutrinar os jovens portugueses nos valores tradicionais. Várias figuras ligadas à ditadura, como a escritora Ester de Lemos e o professor universitário Marcelo Caetano, autor do ensaio “Juventude de Hoje, Juventude de Sempre” (publicado um ano antes do catedrático se tornar chefe do Governo), reflectiram sobre a insubmissão dos portugueses mais novos, inegavelmente distantes do único regime que tinham conhecido. A escola e as organizações de juventude criadas em 1936 e já em declínio nos anos 60, a Mocidade Portuguesa e a Mocidade Portuguesa Feminina, revelaram-se incapazes de atrair uma geração à qual o Estado Novo oferecia apenas a obrigação de combater em África. Após o 25 de Abril, os partidos mobilizaram numerosas pessoas nas casas dos 10 e dos 20, mas, mais do que oferecerem uma agenda específica dirigida à juventude, incentivaram-na a empenhar-se na criação de uma sociedade nova da qual todos beneficiariam.

 

Ao longo dos anos 80, a politização e o colectivismo reduziram-se em benefício de uma mentalidade mais individualista, expressa de forma bem clara no tema “Nasce Selvagem”, dos Delfins. No cavaquismo (que criou o Cartão Jovem e reduziu a duração do Serviço Militar Obrigatório, abolido já no século XXI), a faixa etária de duração incerta situada entre a infância e a idade adulta passou a ser associada às ameaças da sida e da toxicodependência, enquanto Herman José encarnava personagens como o arrumador Zé Chunga e o hooligan Tó e Vicente Jorge Silva criticava os rabos despidos da “geração rasca”. 15 anos depois, a “geração à rasca” constatava que um curso superior não era sinónimo de emprego estável. Enquanto jovens empreendedores sorriam em encontros com o Presidente Cavaco, muitos membros da “geração mais bem preparada de sempre”, tão iguais e tão diferentes dos emigrantes do tempo de Adriano Correia de Oliveira, partiam para o estrangeiro.

 

Actualmente, os media e os políticos apresentam-nos perspectivas diversas e contraditórias da juventude portuguesa. Os jovens do programa Erasmus, futuros construtores de uma Europa tolerante e cosmopolita. Os jovens que não lêem e estão viciados nas redes sociais. Os jovens lixados pelos direitos adquiridos dos mais velhos. Os jovens mimados, apáticos e abstencionistas. Os jovens ambiciosos e sem preconceitos. Os jovens que deviam era voltar a fazer a tropa. Os jovens criadores de empresas e promotores do turismo. Os jovens iniciados cada vez mais cedo no sexo e no álcool. Os jovens ignorantes que não sabem o que foi o 25 de Abril. Os jovens que praxam ou são praxados. Os jovens precários. Os jovens das claques. Os jovens da Baleia Azul. Os jovens que partem tudo em Lloret del Mar e Torremolinos. Os jovens cantores que ganham o Festival da Eurovisão. E a lista fica maior a cada semana.

 

No meio disto tudo, não seria melhor parar de fazer generalizações quer sobre os jovens quer sobre os idosos? Quando eu era (lá está) jovem, já me fazia impressão a quantidade de lugares-comuns associados às extremidades da pirâmide etária. Porque não poderiam existir jovens passivos e conservadores e velhos a lutar contra o Império? Jovens educados e responsáveis e velhos rudes e infantis (tipo Donald Trump)? Jovens com medo de tudo e velhos viciados em novidade e aventura? Jovens aplicados e velhos preguiçosos? Talvez a idade não seja, afinal, o mais importante nem deva condicionar o que cada pessoa pode fazer. Porque quando alguém nasce, nasce selvagem.