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Desumidificador

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Juntos pelo Vasco

O concerto solidário “Juntos por Todos” foi um êxito, ao angariar mais de um milhão de euros destinados à União das Misericórdias Portuguesas, com vista a ajudar os afectados pelo incêndio ocorrido em Pedrógão Grande e nos concelhos vizinhos. O evento foi transmitido em directo por RTP, SIC e TVI, mas estas apenas exibiram em simultâneo a música propriamente dita, já que os intervalos entre actuações foram preenchidos de forma diferente nas três estações e dedicados sobretudo à autopromoção de cada canal. De facto, os apresentadores instalaram um ambiente semelhante ao das galas televisivas, com toda a gente muito orgulhosa de si própria. No meio de mensagens cheias de emoção do tipo “hoje é um dia histórico”, “como é bom fazer o bem”, “somos o povo mais solidário do mundo”, “mobilizamo-nos em nome das grandes causas”, “devíamos estar assim unidos todos os dias”, “abracem-se uns aos outros”, “nas alturas difíceis é que se vê o que é ser português”, etc., etc., lembrei-me de um homem que merecia, também ele, uma ovação do Meo Arena:

 

“Vasco Pulido Valente, adoramos-te!”

“Vasco, Vasco, Vasco!”

 

Além de historiador, Vasco Pulido Valente (pseudónimo de Vasco Valente Correia Guedes) é talvez o comentador político de maior longevidade em Portugal. Há mais de 40 anos que, com escassas interrupções, Pulido Valente disserta na imprensa, e por vezes na rádio e na televisão, acerca da política nacional e internacional. Desde os primeiros balanços do 25 de Abril (ou, como ele escreve, o ““25 de Abril””) feitos no Diário de Notícias em 1976 ao retrato do Portugal acabado de entrar na CEE (a ““Europa””) traçado em O Independente a partir de 1988 e aos textos semanais actualmente publicados no Observador, Vasco redigiu uma longa produção cronística marcada pela qualidade literária e por um estilo muito próprio. A última compilação de artigos de Pulido Valente, De Mal a Pior (2016), evidencia precisamente como, mais que o país, é Vasco que se mantém sempre igual apesar do passar do tempo.

 

Acima de tudo, Vasco Pulido Valente é o mais céptico dos homens. Nas suas palavras, nunca acreditou em Deus nem na Revolução, ou seja, no comunismo. Da mesma forma, o seu espírito individualista sente muita dificuldade em adaptar-se a partidos ou outros grupos. Se Pulido Valente andou pelo PS e pelo PSD nos inícios da democracia, tendo sido secretário de Estado da Cultura em 1980 e participado na candidatura de Mário Soares às presidenciais de 1986 (Soares e Sá Carneiro são os únicos políticos da III República pelos quais Vasco tem algum respeito), manteve sempre uma distância suficiente para sair pelo seu pé quando quisesse e desde então, salvo uma breve e inglória experiência como deputado do PSD no pós-cavaquismo, manteve-se de fora, a criticar com fervor e dedicação idênticos todos os governos e presidentes da República que se vão sucedendo e, no entender do cronista, mantendo o atraso secular português.

 

Quanto ao trabalho académico, Vasco Pulido Valente foi investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, ou seja, um dos funcionários públicos que tanto abomina. No meio de uma vasta produção científica centrada no período contemporâneo, o autor doutorado por Oxford assinou dois livros marcantes da historiografia portuguesa, “O Poder e o Povo” (1976) e “Glória” (2001), ambos inovadores e influentes ao nível, respectivamente, dos estudos sobre a I República e da biografia histórica. Longe do tom quase épico utilizado por outros historiadores lusos, as obras de Pulido Valente revelam geralmente o lado mais risível dos políticos, militares e literatos analisados, transmitindo, com a ajuda de um humor de inspiração queirosiana, a imagem de um país pequenino e mesquinho. Uma “história em que as pessoas não se iludem”, na expressão da contracapa da 3.ª edição de “Glória”. O mesmo desencanto percorre os textos autobiográficos saídos da pena de Vasco, sarcástico para com o seu próprio passado.

 

No meio do cepticismo, do pessimismo e da experiência de sete décadas de vida, Pulido Valente nunca se entusiasma com nada e lembra sempre que tudo vai acabar mal. Mesmo nos períodos de maior euforia nacional, como a prosperidade dos anos 90 ou os primeiros êxitos da aliança Costa/Marcelo, Vasco arrefece as expectativas e denuncia a ineficácia do Estado e a manutenção das debilidades portuguesas. Na sua maneira particular de gostar de Portugal, Vasco dedicou a vida a dizer mal do seu país. Por pouco simpático que seja, este tipo de personalidade torna-se essencial quando o discurso político e mediático entra em crescendos de patriotismo parolo e elogios contínuos às supostas qualidades do povo luso e dos homens que o lideram. Um banho de realidade evita que nos julguemos demasiado bons e esqueçamos as nossas imperfeições. De repente, no meio da emoção e auto-satisfação da cobertura televisiva de “Juntos por Todos”, a racionalidade fria e a expressão de desdém de Pulido Valente pareceram mais úteis (ou menos enjoativas) que os “afectos” marcelistas.

 

Não deve ser fácil ser Vasco Pulido Valente (até pelas elevadas despesas em tabaco que tal implica), mas pessoas assim são sempre necessárias. Afinal, um cenário em que todos estão sempre unidos e rodeados por propaganda auto-elogiosa adequa-se mais à ditadura que à democracia.

 

P.S. Quanto à piada de Salvador Sobral, foi ao ouvi-la que comecei a gostar mesmo dele.