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Madre Seara

A propaganda política com vista às eleições autárquicas de 1 de Outubro já se encontra exposta nas ruas, originando curiosidade, indiferença ou escárnio nos transeuntes. Como é sabido, as campanhas eleitorais portuguesas sofreram transformações nas últimas décadas, através quer da crescente utilização da Internet quer de alterações nos meios tradicionais. O alvo dos candidatos desviou-se do peão, perante os olhos do qual era instalada uma mancha gráfica esmagadora nas paredes dos prédios cobertas de cartazes, pichagens e autocolantes, para o automobilista. Os cartazes usados são agora mupis ou outdoors, em número reduzido mas colocados em pontos estratégicos do trânsito, como as rotundas ou as entradas e saídas das cidades. As grandes superfícies rectangulares destinam-se habitualmente aos candidatos à chefia das câmaras, enquanto os potenciais presidentes de junta surgem em folhas A4 afixadas nos abrigos de paragens de autocarro ou em pequenos cartazes presos aos postes de iluminação. Este tipo de publicidade estática é considerado caro e inútil por muita gente, mas no caso das autárquicas justifica-se pela obrigação de aumentar a notoriedade de candidatos sem acesso aos media e geralmente desconhecidos da maioria dos eleitores.

 

Em Odivelas, os meses de Junho e Julho foram preenchidos pela apresentação pública dos candidatos a presidente da Câmara, Hugo Martins (PS), Fernando Seara (PSD/CDS), Fernando Painho Ferreira (CDU) e Paulo Sousa (BE), tal como dos cabeças de lista à Assembleia de Freguesia. Entretanto, os stands partidários no recinto das Festas da Cidade distribuíram os primeiros folhetos da campanha autárquica. O prospecto do PS apresentou Hugo Martins (40 anos, casado, pai de uma filha, antigo professor de Matemática), um autarca desconhecido para muitos odivelenses, enquanto Fernando Seara publicou imagens do lançamento da sua candidatura (em nenhuma das quais é visível Pedro Passos Coelho) e a CDU focou nos seus panfletos propostas concretas como a do destino dos terrenos do antigo Instituto de Odivelas. Ao nível da propaganda na rua, o Bloco de Esquerda limitou-se, à semelhança das campanhas anteriores, a difundir o seu cartaz de âmbito nacional, enquanto os rostos de Seara e Painho Ferreira já se encontram espalhados pelas freguesias do concelho. A coligação de direita recorreu à inócua frase “Dar Força a Odivelas” e a CDU afirma que “Levamos Odivelas a Sério”, um slogan surpreendentemente parecido com o lema do PSD passista, “Levar Portugal a Sério”. O PS tem seguido uma linha de campanha baseada na “confiança” e no trabalho já feito pela CMO, lançando vários cartazes sem fotografias de Martins e dedicados a eventos ligados à Câmara, como o fornecimento de refeições gratuitas aos alunos do 1.º ciclo e pré-escolar ou a chegada do Metro, que “pôs Odivelas no mapa”. Tendo em conta que as estações de metro de Odivelas e do Senhor Roubado foram inauguradas em 2004, muito antes de Hugo Martins assumir funções autárquicas, percebe-se que a mensagem socialista anda à volta de “vote nos mesmos de sempre, não interessa quem seja o presidente”. Em Agosto, a campanha não costuma sofrer grandes acrescentos, já que os partidos esperam pelo regresso de férias de muitos munícipes para atacarem em força no início de Setembro.

 

 

No seu programa na SIC, onde tem prognosticado os resultados eleitorais de vários concelhos (quando não sabe quem vai ganhar, diz que “é 1X2”), Marques Mendes gastou pouco tempo com o caso de Odivelas, encolhendo os ombros como quem diz: “a câmara sempre foi do PS e o Seara… bem, é o Seara”. Enquanto todas as atenções se centram em Lisboa e no concelho de Loures, base do exército prometido por André Ventura (espero que não invada Odivelas, tornando Loures grande outra vez), a terra da marmelada apresenta algumas particularidades. Ao submeter-se pela primeira vez à decisão popular na qualidade de cabeça de lista, Hugo Martins poderia ser prejudicado pela sua falta de carisma, fotogenia e notoriedade ou por um passado conturbado. Já Fernando Seara, além de ser uma celebridade benfiquista, possui mais experiência no trabalho autárquico, ainda que noutro município. O problema de Seara está, no entanto, precisamente aí, sobretudo depois de salientar no seu célebre discurso de apresentação da candidatura que passa “todos os dias” de automóvel pelo território de Odivelas. O ex-presidente da Câmara de Sintra já tentou em 2013 ganhar em Lisboa, com resultados desastrosos. Quanto a Painho Ferreira, não parece poder aspirar a mais do que um honroso segundo lugar, no quadro de uma divisão implícita entre a “rosa” Odivelas e a “vermelha” Loures. Por seu turno, o BE procura eleger pela primeira vez um vereador no executivo odivelense, depois de votações baixas em escrutínios anteriores. O nível de abstenção e a ligação das autárquicas ao contexto político nacional representam outros factores a ter em conta. Tudo somado, as surpresas eleitorais aparentam ser improváveis em Odivelas. No entanto, até à contagem dos votos tudo é possível. A imprevisibilidade constitui, afinal, uma das características aliciantes da democracia.