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Memórias de Freitas

O lançamento de “Quinta-Feira e Outros Dias”, de Aníbal Cavaco Silva, cuja primeira edição já esgotou, veio lembrar que, apesar do desenvolvimento conhecido neste século pela memorialística portuguesa, são ainda escassos os livros autobiográficos escritos por políticos, a maior parte dos quais preocupam-se mais com as disputas do presente que com o seu legado para a posteridade. Neste cenário, os livros de memórias de Diogo Freitas do Amaral, autor de “O Antigo Regime e a Revolução” (1995), “15 Meses no Ministério dos Negócios Estrangeiros” (2006) e “A Transição para a Democracia” (2008), tal como de “Ao Correr da Memória” (2003), uma compilação de pequenas histórias e apontamentos, destacam-se pela forma e pelo conteúdo.

 

Ao nível da escrita, o fundador do CDS utiliza uma linguagem simples e fluente, de leitura agradável. A sua vertente de dramaturgo leva Freitas do Amaral a apresentar diálogos com marcas de oralidade e acompanhados por descrições curtas e precisas das circunstâncias que rodearam as conversas. Os episódios narrados possuem nítido interesse histórico, valorizado pela atenção de Freitas aos pormenores mais curiosos ou risíveis dos eventos. Apesar das frequentes alusões aos sentimentos do protagonista, a actividade política deste é enquadrada num contexto mais geral, sem excessos de egocentrismo.

 

Como todas as autobiografias de políticos, os livros de Freitas do Amaral procuram melhorar a imagem pública do autor e rebater críticas por ele sofridas. De resto, os relatos do catedrático de Direito indiciam uma ampla vaidade. No entanto, contrariamente à obsessão de Cavaco Silva por parecer sempre perfeito e imaculado, Freitas apresenta-se como uma pessoa comum e estabelece empatia com o leitor. É necessário ser-se muito homem para confessar momentos de fraqueza como o descrito no final de “A Transição para a Democracia”.