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Desumidificador

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Nos 2 anos da contra-revolução de Outubro

A propósito da saída de Pedro Passos Coelho da liderança do PSD e da aprovação do terceiro Orçamento de Estado da Geringonça, marcado novamente pela batotice de apresentar medidas que deixem as pessoas contentes, espalhou-se na direita o saudosismo da revolução perdida. Desprovidos quer do líder ousado e inimigo dos interesses instalados quer de um ambiente político e económico propício à abstinência e frugalidade, os sectores liberais vêem esgotar-se a oportunidade de transformar o país e, perante as eleições do PSD, limitam-se a encarar Santana Lopes como o mal menor, talvez apto a evitar a guinada no sentido de um Bloco Central de inspiração marcelista. Tal como após o 25 de Novembro, José Manuel Fernandes e os seus correligionários recolhem a casa sonhando com aquilo que poderia ter acontecido se não fossem os malditos reaccionários.

 

Ao que parece, a direita a sério (não estamos a falar, obviamente, de velharias como António Capucho, Pacheco Pereira ou Manuela Ferreira Leite, incapazes de compreender o verdadeiro pensamento de Sá Carneiro) apenas pode chegar ao poder num cenário de catástrofe nacional, cujas condições excepcionais lhe possibilitem aplicar o seu programa de transformação social e de criação de um país livre do bigode de Mário Nogueira. O discurso da vinda do Diabo, ou do colapso que João César das Neves considerava iminente no Verão de 2016, não tinha na sua base o receio mas sim a esperança. Ao receber a derrocada económica como punição das insanas reversões e da herética devolução de rendimentos, Portugal compreenderia que nunca deveria ter irado os deuses ao suspender os sacrifícios humanos. O descambar das finanças públicas faria todos compreenderem que a austeridade não era um erro, como dizem agora os esquerdalhos do FMI, mas sim a via para uma vida pura e virtuosa, devendo ser aceite sem qualquer tipo de protestos. Poupar mais, gastar menos e trabalhar arduamente (fora da função pública, claro, pois não haveria dinheiro para sustentar parasitas) seriam os princípios fundamentais do Homem Novo lusitano, enquanto as pessoas desprovidas do necessário espírito empreendedor teriam sempre uma sopinha disponível na igreja mais próxima. Mantidos sob a ameaça permanente de uma desgraça ainda pior, os cidadãos deixariam de viver à sombra do Estado e os serviços deste poderiam ser vendidos à dinâmica iniciativa privada. Como nada disso aconteceu, a plebe ignara e ingrata voltou a ceder às tentações do materialismo, sem compreender que o dinheiro não traz felicidade a quem não o pode enviar para offshores.

 

 

Obviamente, os liberais têm todo o direito a defender a sua visão do mundo, e, ao contrário do que alguns comentadores de direita afirmam em tom desdenhoso, não me parece que os portugueses sejam esquerdistas ferrenhos demasiado infantis para compreender as vantagens do lema “menos Estado, melhor Estado”. A questão é que, embora todos queiram uma menor carga fiscal, pouca gente se sente oprimida pelo Estado, a não ser quando primeiros-ministros como Durão Barroso e Pedro Passos Coelho contrariam as suas promessas eleitorais e aumentam os impostos. Num país desigual e de “elevador social” tantas vezes avariado, não se encontra difundida a ideia de que todos podem enriquecer através do trabalho e, sabe-se lá porquê, a riqueza dos mais abonados é vista como resultado de herança, marosca ou exploração. Para as classes médias, o risco de perder o pouco que se tem em nome de um suposto futuro radioso, seja a utopia de esquerda ou de direita, constitui um perigo demasiado grande para motivar aventuras. Neste contexto, a “revolução” liberal surge de facto como uma ameaça aos interesses instalados: os interesses de pelo menos dois terços dos portugueses. Assim, os liberais do presente vêem-se, tal como os comunistas dos anos 70, bloqueados pela impossibilidade de moldar o povo à medida dos seus desejos.

 

P.S. Comparar os dois períodos pós-revolucionários da democracia portuguesa, ou seja, os primeiros anos posteriores a 1975 e a 2015, não é fácil devido às numerosas diferenças entre uma e outra fase. No entanto, o segundo lugar alcançado por Otelo Saraiva de Carvalho nas presidenciais de 1976, obtido graças à adesão de parte do eleitorado do PCP ao candidato apoiado pela extrema-esquerda e que fez esta viver uma breve euforia ao comemorar aquele que era na verdade o início do fim, pode revelar-se bastante semelhante à recente proeza de Assunção Cristas nas autárquicas de Lisboa.