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Desumidificador

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Notas curtas sobre Pedrógão

1. Jaime Marta Soares adora ouvir o som da sua própria voz.

 

2. Sou perverso, eu sei, mas não deixo de imaginar que, se Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho ainda estivessem no poder, Rui Ramos faria um vídeo para o Observador com o título “Nem sempre Deus é amigo”.

 

3. Não escrevi nada antes sobre o incêndio de Pedrógão Grande porque uma tragédia desta dimensão torna difícil fazer comentários para além das manifestações de luto. No entanto, um dos efeitos destes eventos cíclicos em Portugal é a proliferação de milhões de especialistas instantâneos na floresta e no combate a incêndios. Admitir que não se sabe nada sobre o assunto é mais vergonhoso que andar nu na rua.

 

4. As críticas à exploração pela comunicação social da dor ligada à tragédia, longe de serem novas, assemelham-se aos comentários feitos após a queda da ponte de Castelo de Paiva, em Março de 2001. Na altura, o alvo principal das acusações de sensacionalismo era a cobertura da TVI, conduzida por Júlio Magalhães. Quanto à história do avião Canadair que afinal não caiu, tem muito de estranho. Afinal, os media portugueses raramente difundem informações incorrectas ou convertem rumores em notícias. Basta recordar o rigor jornalístico verificado em 2005, quando mais de cem negros fizeram um arrastão na praia de Carcavelos, levando o terror ao coração do português branco.

 

5. Os media nacionais só falam do interior a propósito dos incêndios estivais ou através de programas de televisão bocós com música pimba e números de valor acrescentado. Por vezes, os jornalistas partem do princípio de que todos os portugueses moram em Lisboa ou nos arredores da capital. Esta situação acaba por ser compreensível, já que a população rural constitui um mercado escasso e cujos desejos dificilmente são ouvidos junto do poder político e mediático. A desertificação do interior representa uma consequência perversa do desenvolvimento de um país onde os tempos de atraso e pobreza em que mais de metade da população vivia em aldeias marcadas pela dureza do trabalho agrícola não deixaram saudades. A democracia portuguesa ainda não conseguiu reduzir as assimetrias regionais e tornar atractiva a vida fora dos grandes centros urbanos.

 

6. Na política, os critérios de distinção entre esquerda e direita passam habitualmente pela oposição entre optimismo e pessimismo antropológicos ou por ideias sobre o tamanho e as funções do Estado. Todavia, nos últimos dias a diferenciação mudou: quem é de esquerda acha que o caso do jornalista “Sebastião Pereira” constitui um escândalo a necessitar de esclarecimento urgente, enquanto quem é de direita considera tudo uma tolice sem sentido. De facto, comparada com tudo o que aconteceu no Centro do país, a história do colaborador imaginário do El Mundo é quase irrelevante, mas parece tratar-se de um acto de manipulação política da imprensa cuja investigação poderia ser bastante útil, até como exemplo deste tipo de “truques”. De qualquer forma, a verdade provavelmente nunca será descoberta, a não ser que algum dos envolvidos venha a público contar, entre lágrimas de culpa e remorso, aquilo que aconteceu. Isso é que seria uma notícia fora do comum.

 

7. As áreas florestais em redor das aldeias da minha família foram arrasadas pelo fogo, mas as casas e terrenos agrícolas escaparam. Do mal, o menos, embora pareça tão cruel dizer isto após a perda de vidas.