Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Desumidificador

Desumidificador

Notas sobre as autárquicas

1. O PS não podia ter mais câmaras que há quatro anos, mas teve. O PSD não podia ter menos câmaras que há quatro anos, mas teve. A CDU não iria sofrer grandes perdas nos seus bastiões autárquicos, mas sofreu. Dos comentadores que ouvi durante a campanha, apenas Luís Nobre Guedes previu para 1 de Outubro um terramoto na direita. As autárquicas que não iam mudar nada acabaram por mudar muita coisa. Os tempos estão difíceis para os astrólogos políticos.

 

2. Uma característica importante destas autárquicas foi, como muitos apontaram, a consolidação dos resultados do PAN. Apesar do partido de André Silva ocupar um nicho de eleitorado pequeno (2-3%) e centrado em Lisboa, a manutenção desses valores indica que o PAN não será o novo PSN. Apesar dos media nunca a levarem a sério, a formação ecologista (responsável pela recuperação do mural político como meio de campanha) vai fazendo o seu caminho.

 

3. Em Odivelas, não houve surpresas. Num sufrágio com 53% de abstenção, o PS renovou a maioria absoluta na Câmara Municipal, seguindo-se a coligação PSD/CDS de Fernando Seara, a CDU, o BE, o PAN, o MRPP e os restantes partidos. Os socialistas ganharam ainda a presidência das quatro juntas de freguesia do concelho, entre elas aquela que lhes faltava, Ramada/Caneças, onde aproveitaram a retirada do carismático autarca comunista Ilídio Ferreira.

 

 

4. Eu poderia fazer mais uma longa censura aos oeirenses por elegerem alguém com o currículo de Isaltino Morais, mas para quê? O amor é assim. Mais útil do que as habituais catilinárias seria realizar inquéritos junto dos apoiantes de Isaltino para conhecer os motivos do seu sentido de voto. Certo é que o caso de Oeiras vem desmentir a teoria de Jason Brennan segundo a qual mais informação e maior qualificação académica levam necessariamente a melhores escolhas políticas.

 

5. O susto da noite eleitoral verificou-se quando a RTP informou que, com uma freguesia do concelho de Loures (qual?) apurada, o PSD liderava a contagem dos votos. Mais tarde, porém, a CDU e o PS ultrapassaram André Ventura, que mesmo assim alcançou um resultado superior ao obtido em 2013 pelo PSD lourense. Ventura vai continuar a comentar o crime e o Benfica na CMTV, mas esta história revela a existência em Portugal de um filão populista à espera de mãos que o saibam explorar.

 

6. Depois do agitado processo anterior ao lançamento da candidatura de Teresa Leal Coelho, a campanha do PSD em Lisboa foi incrivelmente má, incluindo os cartazes (“Por uma senhora Lisboa”? “Está farto do trânsito em Lisboa? Nós também”?). O último dia de apelo ao voto ficou marcado pela entrevista da brilhante Sofia Vala Rocha, sem conseguir conter o que só devia dizer no domingo à noite, e por uma tentativa ineficaz e desesperada de Leal Coelho de se colar a Marcelo Rebelo de Sousa. Acho sinceramente que a forma como o PSD lidou com as eleições lisboetas, entre o “não” de Santana Lopes e a hecatombe final, dava um bom livro jornalístico. Filipe Santos Costa, jornalista do Expresso, autor de A Última Campanha (sobre a candidatura de Mário Soares às presidenciais de 2006) e co-autor de O Independente – A Máquina de Triturar Políticos, seria uma boa opção para investigar este acidente em câmara lenta.

 

7. Almada foi aquele concelho que há sempre, ao qual ninguém liga nenhuma até nele se registar um resultado surpreendente. Jerónimo de Sousa mostrou algum mau perder, acusando os eleitores de ingratidão e avisando-os de que vão arrepender-se, além de lamentar que o PCP não receba os créditos do sucesso económico da Geringonça. Que vão os comunistas fazer depois deste resultado? Não sei, mas sei que não vale a pena dar ouvidos aos “especialistas” no PCP brotados como cogumelos nos últimos anos.

 

8. O resultado do CDS na capital representou a afirmação definitiva da “marca Cristas”, depois de mais de um ano sem “Boss AC” conseguir fazer esquecer o estilo de Paulo Portas. Desprovida do talento de actor de Portas, Assunção Cristas partilha com este a intuição quanto às frases e macacadas, digo, acções de campanha que fazem as delícias dos jornalistas. Já era notório há algum tempo que, perante qualquer notícia, o CDS apresentava a reacção inteligente, enquanto o PSD ficava com a reacção estúpida. A Geringonça (ou as “esquerdas unidas”, como a líder do CDS diz) tem em Cristas uma adversária mais poderosa do que se pensava.

 

9. A cena em que António Costa fez a pé o percurso entre a sede do PS e o Hotel Altis, onde Fernando Medina o esperava para a festa, constituiu um momento de televisão patético. Com a paciência que lhe faltou dias antes, Costa foi respondendo às perguntas cada vez mais parvas lançadas pelos jornalistas de microfone em punho. A comunicação social deveria pensar numa maneira mais criativa de cobrir a actividade partidária que ir literalmente atrás dos políticos. No entanto, a entrevista em movimento acabou por simbolizar a actual situação política nacional (Marcelo à parte): António Costa marca o ritmo e os outros vão atrás.

 

10. Pedro Passos Coelho liderou o PSD no caminho firme e seguro rumo ao abismo. Continuo a pensar que o grande erro do ainda presidente “laranja” foi seguir os conselhos de Rui Ramos e dos restantes colunistas do Observador (o jornal prepara-se para apoiar Paulo Rangel ou outro candidato alternativo a Rui Rio), de cujos artigos Passos fazia copy-paste no seu discurso e estratégia. O PSD domina as câmaras de várias capitais de distrito (Faro, Braga, Aveiro, Guarda, Bragança), mas parece basear-se sobretudo na sua implantação na Madeira e no Interior Norte e Centro, algo insuficiente num país macrocéfalo como Portugal. Para recuperar a dinâmica ascendente, os sociais-democratas contam, porém, com o processo de renovação em curso no partido, do qual a possível candidatura de Santana Lopes à liderança constitui um óbvio sinal.

 

 

2 comentários

Comentar post