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O Diabo nunca se foi embora

Entre os vários jornais de direita lançados em Portugal depois do 25 de Novembro, O Diabo (com título e cabeçalho idênticos aos do extinto periódico oposicionista que, no final da década de 30, publicou artigos de Álvaro Cunhal e outros intelectuais ligados ao PCP), surgido no início de 1976, destacou-se como um dos mais marcantes e duradouros. No entanto, o seu início não foi fácil, dado que um editorial da directora, Vera Lagoa, contra o então Presidente da República Costa Gomes levou O Diabo a ser suspenso pelo Conselho da Revolução logo ao segundo número. Durante a suspensão, Lagoa criou O Sol, mas, já em Fevereiro de 1977, regressaria ao semanário do mafarrico, publicado ininterruptamente desde então.

 

O sucesso de O Diabo resultou em grande parte do carisma e dos textos sem papas na língua de Vera Lagoa, tal como dos cartoons de Augusto Cid, também criador do grafismo do jornal. O semanário, num tom menos radical e salazarista que o de A Rua ou O Dia, atraía um público formado sobretudo pelas bases de PSD e CDS e pelos jovens dos novos grupos de extrema-direita, participantes na organização das manifestações do 1.º de Dezembro promovidas por Lagoa e que revelaram a “rua” conservadora. Além dos artigos de comentário político e das secções de crítica de cinema (onde se estreou Eurico de Barros), livros e gastronomia, O Diabo possuía um noticiário vasto, no qual se incluíam trabalhos de jornalismo de investigação relacionados com os casos Angoche e Camarate, entre outros. O discurso anticomunista constituía um traço essencial da publicação, dedicada a satirizar os artistas “progressistas” e a imprensa de esquerda. Como Herman José afirmou num sketch de “O Tal Canal”, O Diabo e O Diário (controlado pelo PCP) comiam-se um ao outro. Diga-se, já agora, que Vera Lagoa e o semanário por si dirigido merecem um estudo mais profundo.

 

A descida da temperatura política portuguesa, o aparecimento de O Independente (para o qual Cid se transferiu) e a morte em 1996 de Vera Lagoa, sucedida na direcção pelo seu marido José Esteves Pinto, diminuíram a relevância de O Diabo, apenas citado pelos outros jornais a propósito das crónicas de Alberto João Jardim. Quando estas cessaram, o periódico tornou-se quase invisível. O trigésimo aniversário da publicação foi abordado pelo Público neste artigo que descreve O Diabo como um jornal agora semelhante aos demais e ideologicamente plural, já fora do seu tempo e distante da linha delineada pela fundadora. Contudo, nos anos seguintes, o semanário tornar-se-ia a voz da extrema-direita na imprensa portuguesa, voltando a zurzir os governos e partidos de esquerda e acolhendo nas suas páginas os nostálgicos do Estado Novo, como o antigo inspector da PIDE Óscar Cardoso. Já em 2016, António Ribeiro Ferreira assinalou respeitosamente os 40 anos de O Diabo ao destacar um percurso coerente e sem concessões ao inimigo esquerdista.

 

Após as lideranças de Esteves Pinto e Duarte Branquinho, o quarto director de O Diabo, o militante do CDS Miguel Mattos Chaves, procedeu recentemente a algumas alterações no jornal, ao polir a linguagem alucinada das manchetes e renovar o painel de colunistas, no qual entrou Henrique Neto e saiu o historiador do PNR Humberto Nuno de Oliveira. Todavia, o formato do “semanário político” mantém-se idêntico. Todo o jornal é opinião, até porque os poucos artigos de “Actualidade” presentes nas 24 páginas são claramente tendenciosos. A ausência de publicidade e as vendas irrisórias em banca tornam estranha a sobrevivência de O Diabo, que reclama uma tiragem média mensal de 25 mil exemplares. A explicação poderá estar nas assinaturas, incentivadas pelo periódico através da publicação de um cupão para subscrições anuais ou semestrais. Ao contrário do que muitos pensam, O Diabo continua por cá. Não se sabe é se a vida longa do projecto de Vera Lagoa constitui um bom ou um mau sinal.