Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Desumidificador

Desumidificador

"O Eixo do Mal"

Em 2004, estreou na SIC Notícias o programa semanal de debate político “O Eixo do Mal”, moderado por Nuno Artur Silva e com um painel de comentadores formado por José Júdice, Pedro Mexia, Daniel Oliveira e Clara Ferreira Alves. Nenhum deles esperaria que o programa ainda estivesse no ar em 2017, já depois de Mexia e Júdice serem substituídos, respectivamente, por Luís Pedro Nunes e Pedro Marques Lopes, e da ida de Nuno Artur Silva para a administração da RTP ter levado Aurélio Gomes a assumir as funções de moderador, as quais consistem, sobretudo, em marcar o ritmo do debate e suplicar “Termina, Clara”.

 

Contrariamente ao tom monolítico de outros debates televisivos em que todos os participantes são do Benfica, “O Eixo do Mal” apresenta diferentes perspectivas clubísticas. Pedro Marques Lopes, responsável pela defesa dos interesses do FC Porto, tem em Pinto da Costa e Marcelo Rebelo de Sousa os seus ídolos. Conhecido como o Freitas do Amaral dos anos 10, Marques Lopes exprime posições ousadas, ao ponto de criticar os juízes por se armarem em justiceiros. Vestido de verde e branco, o esquerdista Daniel Oliveira confronta, através da sua contundência verbal, a moderação do restante painel. A papoila saltitante Luís Pedro Nunes assume uma postura mais distanciada e concentra-se sobretudo na abordagem dos factos realizada pelos media e redes sociais. Quando o debate versa a Operação Marquês, Nunes relembra aos outros quem é o vilão da história. Por sua vez, a alucinantemente alienada do futebol Clara Ferreira Alves torna-se assustadora ao entrar num crescendo de indignação, além de não se coibir de chamar “idiota” a quem acha que merece o epíteto.

 

 

Integrados numa dinâmica colectiva semelhante à de uma banda (com Clara na voz e teclas, Daniel na bateria, Pedro na guitarra e Luís Pedro no baixo), cuja ausência é visível quando comentam a solo, os comentadores de “O Eixo do Mal” não param de receber do público pedidos de encores. A que se deve tamanha longevidade? Em primeiro lugar, os membros do grupo possuem uma certa bagagem e preparação, não se limitando a dar palpites ou verter preconceitos. Apesar de todos seguirem uma dada tendência política (no caso de Luís Pedro Nunes, não se percebe bem qual), revelam-se capazes de pensarem pelas próprias cabeças. O aspecto decisivo, contudo, é a espontaneidade predominante no programa. Juntamente com os momentos de discurso sério, as piadas que os quatro mandam uns aos outros, tal como as interrupções e comentários laterais na origem de um caos limitado (ou não), conferem a “O Eixo do Mal” o tom certo, nem sisudo nem demasiado apalhaçado, e indicam que, ao fim de todos estes anos, Clara, Daniel, Pedro e Luís Pedro continuam a divertir-se durante os 50 minutos por eles protagonizados, numa descontracção que contagia o telespectador.