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"O Elixir da Eterna Juventude"

As letras das canções de Sérgio Godinho destacam-se frequentemente por contarem pequenas histórias ou apresentarem personagens bem desenhadas, referidas pelo nome (Rita, Alice, Horácio, Casimiro, etc.) ou de forma anónima, como o rapaz de “Domingo no Mundo” ou o jovem casal de “2.º Andar, Direito”. O potencial criativo e a abundância de indicações visuais fornecidos pelos poemas de Godinho tornam atractiva a adaptação dos textos a outros meios, entre eles a ilustração, abordada por numerosos desenhadores no livro Sérgio Godinho e as 40 Ilustrações. Faltava, no entanto, uma transposição do universo do portuense para a banda desenhada até a editora Kingpin Books, especializada há mais de 10 anos na divulgação de vários dos mais interessantes autores da BD portuguesa, lançar o álbum O Elixir da Eterna Juventude, uma “dança no mundo de Sérgio Godinho” com argumento de Fernando Dordio, desenhos de Osvaldo Medina, cores de Joel de Souza e edição, design e legendagem de Mário Freitas.

 

Aqui paro para explicar uma coisa: Fernando Dordio é meu cunhado e pai do meu sobrinho. Alentejano de espírito sagaz e viva inteligência, Fernando alia a paixão pela BD e pelo cinema ao impulso para criar histórias de vários géneros e formatos. Conhecido na qualidade de argumentista dos dois volumes da série Agentes do CAOS, A Conspiração Ivanov e Nova ORDEM (este reeditado com o título Inspector Franco: CAOS e ORDEM), Dordio surpreendeu ao passar do thriller para algo de completamente diferente (?) através da concepção de O Elixir da Eterna Juventude. Quanto a Osvaldo Medina, não o conheço pessoalmente, mas tenho acompanhado o seu trabalho de grande valor em álbuns como Hawk, Mucha, Super Pig: Roleta Nipónica ou A Fórmula da Felicidade, além de constatar o arrojo de Kong The King, onde Medina combina a autoria de argumento e desenho para relatar, sem usar palavras, uma história inspirada no filme King Kong, mas cujo alcance vai muito além de uma simples paródia.

 

Entre a autorização concedida por Sérgio Godinho à produção de um álbum de BD protagonizado pelo “escritor de canções” e a publicação do livro decorreram três anos de trabalho paciente dos autores. Impressiona verificar agora o quanto, apesar de manter o essencial do conceito, a história mudou para melhor durante esse período, fruto das sugestões de Godinho (apesar do cantor ter evitado intrometer-se demasiado no projecto, por não possuir, segundo afirmou no lançamento da obra, perfil de “controleiro”) e sobretudo da interacção entre as ideias de Dordio, Medina e Freitas, cujas capacidades potenciam-se mutuamente. No álbum dado este mês à estampa, Sérgio segue a pista do mítico elixir, ao longo de dois dias de viagens entre o Norte e o Sul de Portugal durante os quais se cruza com as personagens nascidas da sua imaginação, enquanto enfrenta a ameaça de um “famoso” oco em busca da imortalidade e acompanha o regresso do Sporting aos títulos.

 

 

O Elixir da Eterna Juventude constitui um projecto pessoal de Fernando Dordio, a revelar muito acerca de si próprio numa história na qual a obra de Godinho serve de ponto de partida para desenvolvimentos originais que provam a contínua progressão de Dordio ao nível da escrita de diálogos e construção do argumento, enquanto Osvaldo Medina volta a deslumbrar pela correcção e expressividade do seu traço. Várias personagens incluídas no livro, como Etelvina e Jeremias, partindo das características delineadas por Sérgio Godinho e Jorge Palma, ganham aqui uma roupagem nova, na medida em que passam a ser também resultado da criação de Dordio e Medina. Destaque-se ainda a utilização eficaz da cor e a relação perfeita entre o layout (o número e disposição das vinhetas em cada prancha) e os diferentes ritmos da história.

 

Para lá da mais que merecida homenagem a Sérgio Godinho, a nova aposta da Kingpin Books representa uma afirmação da crença na imortalidade da produção artística, cuja influência naqueles que a seguem perdura para além do tempo de vida dos autores. Basta pensar em Zeca Afonso, falecido há 30 anos mas ainda tão presente, e na marca que a música de Godinho e outros cantautores portugueses tem deixado em sucessivas gerações. Pela sua parte, os autores de O Elixir da Eterna Juventude garantem o estatuto de figuras de relevo da banda desenhada lusa e mostram-se aptos a permanecerem como referências do género durante os próximos anos.