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O estranho mundo de Cavaco

Não acredito muito no valor do distanciamento temporal na escrita da história, ou seja, não me parece que precisemos esperar muitos anos após um acontecimento para o tentarmos reconstituir. A passagem do tempo também não traz obrigatoriamente maior objectividade e uma narrativa mais consensual sobre o passado (basta pensar nas polémicas historiográficas em torno da I República). Dito isto, considero útil aguardar alguns anos para avaliar de forma serena a vida e os tempos de Aníbal António Cavaco Silva, a maior figura da história do PSD e um dos políticos mais importantes do regime democrático, de modo a compreender quer o Cavaco popularíssimo de 1991 quer o Cavaco desprezado por todos de 2015. Até lá, o economista procura influenciar a visão da posteridade escrevendo livros de memórias. Depois do relato nos dois tomos de “Autobiografia Política” da década do algarvio como primeiro-ministro, “Quinta-Feira e Outros Dias”, cujo primeiro volume foi recentemente lançado, descreve o período cavaquista na Presidência da República. A obra, amplamente promovida na comunicação social, tem sido um sucesso de vendas, o que permitirá, tal como aconteceu com os livros anteriores do autor, “melhorar a situação financeira da família” Cavaco Silva (p. 53).

 

A “prestação de contas” aos portugueses feita pelo ex-presidente divide-se em três partes com dimensões e características diferentes, aqui designadas por títulos mais adequados que os originais.

 

Parte I – “Eh pá, sou muita bom”. Os primeiros 14 capítulos de “Quinta-Feira e Outros Dias” são dedicados sobretudo ao auto-elogio. Cavaco satisfaz a tremenda curiosidade do público sobre aspectos íntimos como os seus gostos televisivos (anglófilos fiéis, Aníbal e Maria Cavaco Silva preferem séries feitas ou passadas em Inglaterra) ou as férias de Verão na casa do Algarve. Aos 77 anos, Aníbal sente-se feliz e realizado, graças ao apoio recebido dos pais, da mulher, dos filhos, dos netos e do cão Bean. Neste pedaço do livro, além de abordar as campanhas para as eleições presidenciais de 2006 e 2011 e fazer os comentários verdadeiramente mesquinhos sobre Mário Soares que referi noutro post, Cavaco apresenta-se como um exemplo a seguir pelos jovens e um político (ou melhor, um académico na política) diferente dos restantes, mal-educados e obcecados pela “arte de seduzir jornalistas” (p. 17). Porque haveria alguém de atrever-se a supor que um homem assim e o seu delfim Durão Barroso seriam capazes de ter comportamentos moralmente dúbios? “Inveja será, de facto, a palavra certa” (p. 67) para explicar tais comentários maldosos.

 

Parte II – “Eu avisei”. A carne da sandes a que o livro de Cavaco Silva pode ser comparado ocupa mais de metade das páginas e consiste na descrição das reuniões ocorridas no Palácio de Belém entre o primeiro-ministro José Sócrates e o então Presidente da República. Graças a um método original (que ficamos sem saber qual é) de reprodução de conversas criado por Cavaco nos seus “tempos de estudante universitário” (p. 115), podemos conhecer em detalhe o que os dois homens terão afirmado nesses encontros quase sempre a sós. No que respeita ao conteúdo, é a palavra de um contra a do outro, excepção feita ao capítulo “As intrigas políticas do Verão de 2009”, em que Cavaco relata o “caso das escutas” tal como aconteceu (nos seus sonhos, claro está). Quanto à forma, e tendo em conta as frequentes referências a reacções emocionais de José Sócrates, o relato assemelha-se à história da relação entre um psiquiatra e o seu paciente. Nas consultas semanais, o doutor Cavaco é a voz da razão e dá conselhos úteis e sensatos, baseados no seu saber académico, sobre o que Sócrates deve mudar para levar uma vida sã e responsável. Porém, o doente confirma a sua fama de “teimoso, até obstinado, prepotente, agressivo, irascível, capaz de mentir” (p. 124), não toma a medicação receitada e promete coisas que depois não faz. Com muita paciência, o especialista repete sucessivamente a mesma prescrição e as mesmas sugestões, mas, após cinco anos de terapia falhada, acaba por concluir que Sócrates é incurável, põe fim às consultas e passa a seguir outro doente mais pontual e agradável. O curioso é que, pessoal e politicamente, Cavaco e Sócrates não parecem muito diferentes um do outro. Se o antigo líder do PS fosse mais calmo (ou sonso) e realista, talvez hoje em dia recebesse convites para as noites de fados na Casa da Gaivota Azul.

 

Parte III – “Herói do Mar, nobre povo”. Há pouco de polémico nesta secção, onde são enumeradas as viagens pelo país feitas por Cavaco Silva no âmbito dos “Roteiros” dedicados a vários temas e concentrados na divulgação de bons exemplos ao nível de empresas ou instituições de solidariedade. Aníbal destaca o papel presidencial no alerta para “As potencialidades do Mar português”, um assunto que, apesar do desinteresse de José Sócrates, conseguiu inscrever na agenda política e fazer transitar para os governos de Pedro Passos Coelho e António Costa. O antigo chefe de Estado salienta as suas iniciativas de diálogo com os jovens (sobretudo os novos empresários e agricultores) e apoio à difusão da ideologia do empreendedorismo desde os primeiros anos de vida das crianças. Ficamos também a saber que a frase de Cavaco sobre as mudanças recentes na banana da Madeira era uma metáfora inspirada pela substituição de Alberto João Jardim por Miguel Albuquerque. Nos últimos parágrafos, o autor recorda o contexto de 2015, quando “os Portugueses tinham sido exemplares” (p. 575) nos sacrifícios feitos e o futuro do país mostrava-se risonho, antes de se queixar de que em Outubro desse ano tudo mudou e deixar o teaser para o segundo volume da obra.

 

 

A tese central de “Quinta-Feira e Outros Dias”, um livro ilustrado por numerosas fotografias (em muitas delas, Cavaco sorri, desmentindo a sua imagem de frieza e austeridade), assenta na ideia de que o objectivo de Cavaco Silva ao candidatar-se à Presidência em 2006, ou seja, utilizar as suas qualidades como economista e ser humano para melhorar a situação do país, foi cumprido. Viveram-se tempos duros, é certo, mas, sem a “magistratura de influência” cavaquista, as dificuldades teriam sido muito piores. Na verdade, se exceptuarmos o caso do Estatuto dos Açores, em que a acção individual do PR contribuiu para travar um diploma inconstitucional, Aníbal apresenta escassas provas da sua teoria. Sempre a reboque dos acontecimentos, a sua intervenção consistiu, afinal, em fazer avisos que ninguém ouviu e que de nada serviram. Aguardamos pelo próximo livro, a publicar depois de Passos Coelho deixar de liderar o PSD, para saber como Cavaco lutou para evitar invasões extraterrestres e ataques de monstros japoneses a Portugal.

 

Mais a sério, podemos sugerir que, para ajudar os historiadores, Cavaco deveria disponibilizar o seu espólio pessoal, não necessariamente criando a Fundação Cavaco Silva (parte do acervo do antigo chefe de Estado já estará na posse do Museu da Presidência da República), mas através da oferta de documentos, como as notas de que se serviu para escrever as memórias, à Torre do Tombo ou ao arquivo de José Pacheco Pereira. Seria a melhor forma de preservar e permitir o estudo do legado do social-democrata nascido em Boliqueime. Se Cavaco ainda hoje se interroga “como foi possível chegar onde cheguei” (p. 17), os portugueses do futuro também gostariam de saber.

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