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Desumidificador

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O frenesim contínuo

A entrevista dada por Pedro Santana Lopes à TVI em 31 de Março permitiu aos espectadores retomar o contacto com um dos mais divertidos artistas portugueses. Santana Lopes tornou-se o primeiro político a utilizar a palavra “cocós” na televisão e aproveitou para revelar os apelidos carinhosos trocados entre ele próprio, Marcelo Rebelo de Sousa e Conceição Monteiro (a secretária de Sá Carneiro que assistiu aos primeiros passos na política dos jovens Pedro e Marcelo). Ao nível de críticas à liderança partidária de Pedro Passos Coelho, o ex-autarca, apesar da aparente cerimónia, acabou por manifestar a sua discordância da “oposição de casos” como o da Caixa Geral de Depósitos e pedir mais “ideias” para o país, tal como um “balanço” dos anos de governação do PSD (como se Santana não soubesse que nunca ninguém balança nada na política portuguesa).

 

A denúncia santanista da inutilidade da polémica em torno dos SMS de Mário Centeno e António Domingues, desinteressante para o povo, veio recordar a quietude em que o tema caiu nas últimas semanas, depois de inúmeras capas na imprensa e aberturas de telejornais. É certo que a nova comissão de inquérito pode reavivar a questão, mas tornou-se óbvio que já ninguém, incluindo PSD e CDS, está realmente interessado nisso. De resto, as queixas da direita pelo aparecimento do filão Núncio/offshores (sobre o qual, já agora, não se soube mais nada), explorado pela esquerda, partiram precisamente do facto dessa situação abafar o ruído do filão CGD. Ou seja, o conteúdo da questão pouco importa, o que interessa é o espaço mediático por ela ocupado.

 

Esta situação assemelha-se muito à ocorrida em 2016 a propósito da célebre Revolta Amarela, lançada pelos colégios privados após o anúncio da redução do financiamento estatal que recebiam. As manifestações de pais, alunos e professores, estimuladas por palavras de apoio de Passos Coelho e Assunção Cristas, encheram os telejornais, enquanto vários colunistas denunciavam a atitude do ministro da Educação como um sinal da iminente sovietização do país. Um belo dia, foi publicada uma sondagem que mostrava o apoio maioritário dos inquiridos à posição governamental. E então PSD e CDS calaram-se para sempre e o assunto morreu aí. Algum tempo depois, surgiu o “imposto Mortágua” sobre o património imobiliário. Muitas vozes indignadas prenunciaram o saque das poupanças das famílias e a debandada do investimento estrangeiro. Quando nada disso aconteceu, alguém voltou a falar no tema? Nem na RTP Memória.

 

Mais recentemente, o Prof. Francisco Caramelo, depois de receber o apoio dos órgãos consultivos da FCSH-UNL, publicou um comunicado esclarecedor sobre as circunstâncias do adiamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto. Tarde demais: já toda a gente se tinha indignado e não havia interesse por mais informação. O golpe publicitário da Nova Portugalidade foi um sucesso.

 

A agenda político-mediática portuguesa é de tal forma artificial, acelerada e fragmentada que a atenção dedicada por analistas, partidos e jornalistas a um determinado “caso” tornou-se inversamente proporcional ao conteúdo e durabilidade deste. No entanto, essa descontinuidade revela-se ideal para os políticos, que no início de cada semana podem aparecer novamente puros e virginais. Afinal, já ninguém se lembra (nem eles próprios) do que disseram ou fizeram na semana anterior.