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Desumidificador

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O ministro dos murais

João Miguel Tavares (JMT) é um dos comentadores políticos de direita alvo de maior número de críticas no Facebook, talvez por escrever no Público (que, apesar de tudo, se mantém como o diário mais lido pelas elites de esquerda), enquanto os correligionários se aglomeram sobretudo no i e no Observador, jornais destinados a leitores já convertidos ao liberal-conservadorismo. De resto, o estilo frontal e polémico de JMT visa precisamente gerar uma abundante partilha dos seus artigos nas redes sociais, sendo indiferente para o Público se quem divulga os textos concorda ou não com o autor, célebre também pela participação no programa semanal de debate “Governo Sombra”, transmitido na TSF e na TVI24. Jornalista e antigo crítico de BD e cinema, Tavares iniciou-se no comentário político por volta de 2004, numa página do Diário de Notícias partilhada com Pedro Lomba e Pedro Mexia, e ganhou protagonismo durante o consulado de José Sócrates, visado por JMT em crónicas na origem de um processo movido pelo então primeiro-ministro ao articulista. Em paralelo, Tavares lançou um blogue e vários livros inspirados pela sua experiência de pai de quatro crianças, recentemente entregues por algumas horas aos cuidados de António Costa (diga-se de passagem que só um político com muita inteligência e sentido de humor teria uma iniciativa dessas).

 

Os ataques esquerdistas a João Miguel parecem-me exagerados, até porque o colunista possui os méritos de ser perfeitamente claro naquilo que defende, numa linguagem irreverente, e não se eximir de criticar atitudes pouco éticas de políticos militantes do PSD ou do CDS. No entanto, as falhas de JMT manifestam-se, para lá do discurso justiceiro e simplista contra a corrupção (“Condenem-me alguém!”), a dois níveis. Por um lado, no facto de emitir, por vezes, opiniões sobre temas que revela estar longe de dominar, embora essa seja uma atitude comum à maioria dos comentadores lusitanos. Ao mesmo tempo, as crónicas e intervenções de Tavares manifestam uma notória falta de habilidade.

 

 

O jornalista sabe manejar a funda (presto homenagem a Artur Portela Filho, autor de algumas das melhores crónicas políticas publicadas na imprensa portuguesa do último meio século e hoje quase desconhecido), mas algumas das pedras que arremessa acabam por voltar-se na direcção de si próprio. Por exemplo, aquando da morte de Mário Soares, enquanto o cronista do Expresso Henrique Raposo, sem fingir que gostava do político socialista, conseguiu reflectir com elegância sobre a memória deste, Tavares enredou-se numa confusão de elogios ao Soares do século XX e críticas ao Soares do século XXI que fez os primeiros parecerem artificiais. Perante o Correio da Manhã, JMT adopta a posição dúbia de condenar os procedimentos jornalísticos do diário ao mesmo tempo que elogia o papel do CM na Operação Marquês e admite a legitimidade de artigos sobre a vida privada das celebridades. Noutro caso, o comentador atacou o “Estado Saca-Saca” por direccionar os fundos comunitários apenas para projectos públicos, entre os quais alguns tão escandalosos como a atribuição de bolsas a estudantes ou o apoio à contratação de doutorados. O que Tavares ganha em falta de “respeitinho”, recusado no título da sua coluna na imprensa, perde em solidez e coerência.

 

De acordo com o próprio, a evolução política de João Miguel Tavares no sentido do liberalismo deveu-se, mais do que à leitura de Hayek, a factos concretos como as hesitações de parte da esquerda na condenação do 11 de Setembro ou o legado desastroso da governação socrática. A nível geracional, JMT pertence a um conjunto informal de opinadores nascidos pouco antes ou pouco depois do 25 de Abril, alinhados à direita mas sem actividade partidária e empenhados em denunciar o sistema de compadrio entre políticos, banqueiros e empresários vigente no país. O entusiasmo regenerador de Tavares e outros comentadores esbarra, contudo, num tom de precipitação e superficialidade em que se parte dos princípios ideológicos para a análise da realidade e não o inverso.