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Desumidificador

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O mundo que mudou a caixa

Ao longo das últimas seis décadas, a história da televisão em Portugal tem sido marcada não só por processos de evolução lenta, mas sobretudo por momentos de ruptura que originaram novos géneros televisivos ou alteraram a influência do pequeno ecrã na sociedade lusa. É, inclusive, possível destacar um conjunto restrito de programas ou acontecimentos cujos efeitos se fizeram sentir nos anos seguintes, por vezes até à actualidade. Por motivos óbvios, as referências a factos anteriores a 1984 baseiam-se mais em bibliografia e documentários posteriores que na minha memória.

 

“Zip-Zip” (1969): Durante a breve “Primavera Marcelista”, o projecto criado e apresentado por Carlos Cruz, Raul Solnado e Fialho Gouveia introduziu na RTP o formato clássico do talk-show (uma combinação de música, entrevistas e sketches humorísticos) e abanou a televisão monótona e monolítica do Estado Novo. Apesar da vigilância censória, o “Zip” fez entrar em casa dos (ainda poucos) portugueses que já tinham televisor artistas da “música de intervenção” e outras personalidades desconfortáveis para a ditadura, sendo recordado como uma rápida lufada de ar fresco. Foi talvez o primeiro programa televisivo português a tornar-se um fenómeno de popularidade e um símbolo do tempo em que apareceu.

 

 

25 de Abril (1974): Entre o anúncio feito por Fialho Gouveia e Fernando Balsinha de que o MFA dominava o país e o momento em que Duran Clemente saiu do ar para dar lugar a uma comédia com Danny Kaye emitida a partir do Porto, a RTP surgiu quer como um espelho quer como um terreno de batalha das forças despoletadas pela Revolução. Dominada pela preocupação em acompanhar o processo revolucionário e mostrar o povo trabalhador até aí ausente do ecrã, a estação pública, controlada por militares, viveu uma fase instável e recebeu acusações de parcialidade. A estabilização da democracia contribuiu para despolitizar a RTP, mas esteve longe de anular o apetite dos sucessivos governos pelo controlo da informação televisiva, na origem de múltiplas interferências (“truques”, dir-se-ia actualmente) que só a fundação dos canais privados viria tornar supérfluas.

 

“Gabriela” (1977): Baseada num romance de Jorge Amado e protagonizada pela actriz Sónia Braga, a primeira produção da Globo exibida em Portugal conquistou fãs da esquerda à direita e simbolizou a primazia do entretenimento após os esforços político-pedagógicos do PREC. As telenovelas brasileiras tiveram um forte impacto social e cultural entre nós e estabeleceram a fasquia elevada perseguida pelos cultores locais do género. Uma situação idêntica verificou-se, de forma menos evidente, com as séries anglo-saxónicas de sucesso internacional.

 

Televisão a cores (1980): A vitória de José Cid no Festival da Canção marcou o início tardio das emissões regulares a cores da RTP, uma evolução técnica que modificou a experiência de ver televisão. Posteriormente, surgiriam outras mudanças relevantes, como a possibilidade de gravar programas (em VHS e, mais tarde, na box), o aparecimento do controlo remoto, facilitador do zapping, a disponibilização de conteúdos televisivos na Internet ou os videoclubes das operadoras, um dos factores na origem do declínio do cinema nos canais generalistas. O telespectador ganhou uma crescente independência em relação aos caprichos dos anunciantes e programadores.

 

“Vila Faia” (1982): Nicolau Breyner e Francisco Nicholson, entre outros, criaram a primeira telenovela feita em Portugal por portugueses. Apesar do valor do pioneirismo, as novelas lusas permaneceram, durante um longo período, muito aquém das brasileiras ao nível de histórias, meios técnicos ou sucesso junto do público. A situação mudou a partir da transição do milénio, quando José Eduardo Moniz, à frente da TVI, lançou as bases da “indústria” da novela em Portugal e conquistou para esta audiências superiores às dos folhetins importados. O êxito das fábricas de Queluz e Carnaxide conduziu à “monocultura” do género, em prejuízo de outras formas de ficção televisiva.

 

“O Tal Canal” (1983): Um dos discípulos de Herman José, Nuno Artur Silva, classificou as 12 “emissões” do canal de Oliveira Casca como o 25 de Abril do humor português. De facto, além de parodiar o próprio meio de comunicação onde aparecia e romper com o estilo tradicional do teatro de revista, Herman estilhaçou o país do “respeitinho”, cheio de coisas sagradas com que não se podia brincar. Enfrentando ao longo da sua carreira as pressões políticas e eclesiásticas, o humorista subversivo desbravou o caminho trilhado por quem veio depois. A pouco e pouco, o inaceitável tornou-se banal.

 

 

SIC (1992): O aparecimento das televisões privadas significou o início do fim dos tempos, recordados agora pelos nostálgicos, em que todos os espectadores viam e discutiam os mesmos programas. À maior fragmentação das audiências juntou-se uma atitude menos servil para com o poder, cujos efeitos Cavaco Silva depressa conheceu. Com o seu ar de génio maléfico, Emídio Rangel ditou, para o bem e para o mal, o futuro da televisão portuguesa. Se para uns o canal de Pinto Balsemão trouxe o reforço da criatividade e da interacção com o público, para outros 1992 foi o ano em que começou o longo caminho até ao fundo do poço. Provavelmente, ambas as opiniões estão correctas.

 

Sport TV (1998): O canal codificado no cabo lançado por Joaquim Oliveira fez definitivamente do futebol, ao fim de quatro décadas de avanços e recuos, o espectáculo televisivo por excelência em Portugal. O adepto contemporâneo vive o desporto-rei no sofá, bem mais que nos estádios, analisa as repetições dos lances polémicos, conhece as principais ligas europeias como a palma da mão e adora ver comentadores de clubes diferentes (os três “grandes” criaram, entretanto, os seus próprios canais) aos gritos por coisa nenhuma. As estações de sinal aberto, em particular a RTP, preservaram as transmissões das partidas da selecção nacional, que constituem hoje em dia os únicos momentos televisivos vividos em simultâneo por milhões de portugueses.

 

“Big Brother” (2000): A ideia de uma televisão dirigida pela Igreja Católica revelou-se em pouco tempo comercialmente inviável. A TVI andou à deriva durante anos até à chegada de José Eduardo Moniz, que, através da compra da “novela da vida real” produzida pela Endemol, alavancou a ascensão do quarto canal ao primeiro lugar. A verdade é que o programa de Teresa Guilherme arrebatou o país e transformou desconhecidos em celebridades de um dia para o outro. Nos anos seguintes, o entusiasmo popular esfriou e procurou-se introduzir variações de pormenor no modelo sempre igual dos reality-shows. O certo é que, apesar das incessantes críticas à abjecção, estes continuam por cá até hoje.

 

SIC Notícias (2001): Na esteira do sucesso da CNN, surgiram em Portugal canais a transmitir informação 24 horas por dia. Remetendo para o passado a espera paciente pelo telejornal das oito, os projectos noticiosos de SIC, RTP e TVI responderam ao ritmo cada vez mais frenético da actualidade e à ânsia pela “verdade” do directo (infelizmente, os terroristas souberam aproveitar as características do novo jornalismo). O muito tempo de emissão para preencher e a necessidade de reduzir custos criaram o habitat favorável à proliferação do comentador, essa espécie omnisciente e omnipresente. A informação acabou por se aproximar do entretenimento, numa situação explorada ao máximo pela CMTV, o canal perfeito para quem se masturba a olhar para o sofrimento alheio.

 

“Gato Fedorento” (2004): Este fenómeno de popularidade que surpreendeu todos, a começar pelos actores/argumentistas, possuiu dois sinais indicativos das tendências da televisão no século que então começava: o aparecimento do programa no cabo, supostamente dedicado a nichos, e a divulgação dos sketches através da Internet, essencial para fazer crescer o núcleo de fãs até dimensões espantosas. Mais de dez anos depois da “explosão” de Góis, Dores, Pereira e Quintela, é difícil aparecer algo de semelhante. Os novos humoristas produzem o seu material directamente para o You Tube, enquanto as televisões consideram demasiado arriscado investir em programas de humor.

 

  

Depois destes pontos de viragem, que novidades podem irromper no futuro próximo? O consumo de televisão tornou-se subjectivo, individualizado e repartido por vários meios e plataformas, mas, a nível de conteúdos, pouco se tem inovado em Portugal, quando os canais generalistas, bastante cautelosos, trabalham a pensar sobretudo em crianças e idosos, os únicos grupos etários fiéis aos modelos televisivos tradicionais. Mais do que criar o novo, a estratégia parece ser reciclar o velho, como aconteceu em 2017 com o Festival da Canção. No entanto, o dinamismo oriundo do estrangeiro, especialmente ao nível das séries, pode alastrar ao território verde-rubro, onde ainda resta muito por inventar.