Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Desumidificador

Desumidificador

O Outono do Patriarca

No final de uma temporada de 2013/14 desastrosa para o Futebol Clube do Porto, Miguel Lourenço Pereira questionava no blogue Reflexão Portista se o momento vivido pela agremiação, acabada de sair de um ciclo de sete campeonatos nacionais vencidos em oito anos, constituía uma “curva apertada” ou “um abismo”. Neste momento, podemos estar certos de que é um abismo, quando se completam quatro anos (na prática, são cinco, já que não é possível aos “dragões” vencer mais nenhuma competição em 2017) sem nenhum troféu conquistado. Ao nível do campeonato nacional, trata-se do jejum mais longo desde 1979-1985.

 

O período sem títulos do FCP, designado por historiadores do futebol como “O Outono do Patriarca”, tem revelado a alternância entre épocas atribuladas, incluindo o recurso à chicotada psicológica (2013/14 e 2015/16), e anos futebolísticos nos quais a equipa “azul e branca” consegue alguns bons momentos, mas falta-lhe um bocadinho assim para superar o Benfica e terminar a Liga na primeira posição (2014/15 e 2016/17). Relativamente à Taça de Portugal, a única final atingida pelo FC Porto neste quadriénio, em 2016, ficou marcada, apesar da revelação do talento de André Silva, por erros defensivos inacreditáveis e um desaire nas grandes penalidades. Entretanto, mantém-se a relação birrenta dos portistas com a Taça da Liga, uma prova que teria sido conquistada há muito tempo se o clube estivesse mesmo interessado nisso. Quanto às competições europeias, os resultados para esquecer obtidos nas épocas negras coexistiram com percursos interessantes na Liga dos Campeões em 2014/15 (quartos-de-final) e 2016/17 (oitavos-de-final), sem fazer esquecer a distância abissal entre o emblema da Invicta e os “tubarões” da Champions.

 

No caso da temporada que agora se aproxima da conclusão, a frustração dos adeptos foi agravada pela esperança trazida por uma série de vitórias, após um início de época tremido, e pela sensação de que o SLB esteve longe de ser muito superior ao FCP. De resto, o equilíbrio foi visível nas partidas entre ambos os conjuntos e na reduzida distância pontual preservada quase até ao fim do campeonato. A verdade é que, independentemente dos erros de arbitragem (o tempo dedicado por tanta gente ao estudo do penálti e de tudo o que o rodeia não deixa de ser impressionante), os “dragões” não atingiram o objectivo por demérito próprio e, no último terço da Liga, sucumbiram à incapacidade de suportar a pressão. Por culpa de Nuno Espírito Santo? Não deixo de pressentir que daqui a um ano a culpa vai ser de outro treinador qualquer. De qualquer maneira, os especialistas estão mais habilitados para analisar os erros cometidos por dirigentes, jogadores e equipa técnica do FCP.

 

Um aspecto curioso, e talvez o mais relevante, da crise portista diz respeito a factores de ordem psicológica. Desde 2013, são inúmeros os artigos publicados na imprensa a associar os futebolistas do FC Porto a sentimentos como ansiedade, descrença, insegurança ou aquilo que Espírito Santo resumiu na expressão “medo de não ganhar”. A ânsia por títulos dos simpatizantes do clube, habituados a uma hegemonia já desaparecida, contribui para pressionar os atletas. Relembrem-se as últimas recepções no Estádio do Dragão a Sporting de Braga, Vitória de Setúbal e Feirense. No primeiro desafio, realizado após vários empates a zero dos portistas, as oportunidades de golo multiplicaram-se, mas só um júnior saído do banco teve a calma necessária para meter a bola na baliza adversária, causando uma ejaculação colectiva nas bancadas (pronto, não foi a mais feliz das imagens). O golo de Rui Pedro constituiu, precisamente, a base anímica da recuperação verificada nas jornadas posteriores. Quando os sadinos pisaram o terreno do Dragão, o FCP tinha já um pé na liderança e dispunha de uma oportunidade boa demais para ser desperdiçada. O golo sofrido e o avanço do cronómetro fizeram, no entanto, aumentar a ansiedade de público e jogadores ao longo da segunda parte. Desta vez, tal como semanas mais tarde, na visita da equipa de Santa Maria da Feira, não houve meios para derrubar o muro e fugir à crueldade do destino. A partir daí, apesar do (excessivo) júbilo dos “azuis e brancos” com o empate na Luz, o segundo lugar tornou-se inevitável.

 

O ponto importante reside no facto da instabilidade psicológica se ter tornado a norma durante o “Outono do Patriarca”. Jogadores e treinadores sucederam-se ao longo de quatro anos, enquanto se mantinha a dificuldade em reagir a ciclos negativos, num mecanismo em que o fracasso gerava quase sempre mais fracasso. O efeito anti-climático devastador do FCP-VFC, marco do início da actual derrocada, foi muito semelhante ao impacto da derrota caseira com o Dínamo de Kiev, em Novembro de 2015, no jogo onde supostamente o clube iria garantir à passagem à fase seguinte da Champions. A partir daí, a carreira da turma de Lopetegui nunca mais foi a mesma. O treinador basco, autor de um projecto grande demais para falhar, acabou por sair e originar um penoso interregno de duas semanas, durante o qual os nomes dos eventuais sucessores inundavam os jornais, sem qualquer decisão da SAD, que viria a decepcionar ao apresentar José Peseiro, supostamente a “primeira escolha” para o banco. Peseiro queixou-se certa vez daquilo que “não se sabe” no exterior do clube como um dos factores condicionantes do trabalho da equipa. Do que falaria o forcado? De facto, é estranho ver futebolistas profissionais, mesmo os mais experientes, a mostrar época após época tanta insegurança e vulnerabilidade emocional. Para lá das esperas dos Super Dragões, algo parece influenciar mentalmente os plantéis. O FC Porto assemelha-se a um terreno seco onde nada consegue crescer.

 

 

A responsabilização pelos sucessivos desaires recai crescentemente em Pinto da Costa, à medida que os treinadores passam e o presidente fica. No entanto, a improbabilidade de uma demissão de Jorge Nuno e os dois anos de mandato ainda restantes implicam que o futuro do clube continue a passar pelo pai de Alexandre. O FCP actual faz lembrar o Estado Novo nos anos 60: tudo à espera que o velho morra, mas até lá ninguém solta um pio. Oliveira Salazar e Pinto da Costa (por enquanto, o beirão vence o portuense por 36-35 em número de anos no poder) partilham razões semelhantes para se manterem nos seus cargos, como o vício do poder, a crença desmedida nas suas próprias capacidades, fomentada pelo culto da personalidade, e a convicção de que sem eles seria o caos. Apoiado nos muitos êxitos do passado, Jorge Nuno mantém-se firme na sua cadeira. Tudo isto parece tratar-se de uma forma peculiar de justiça divina. Afinal, ninguém duvida que assistir ao tetracampeonato do Benfica é para Pinto da Costa um castigo bem mais duro do que teria sido uma condenação judicial no processo Apito Dourado quando o dirigente se encontrava no auge da glória.