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Desumidificador

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O pai tirano

Sem ironia, gosto de ler os artigos de José Manuel Fernandes (JMF). Além de escrever bem, numa linguagem simples, e ser bastante directo, o publisher do Observador não se importa de ficar em minoria e contrariar as opiniões mais habituais (pelos vistos, é uma sina que o acompanha desde os tempos da Voz do Povo). Essa atitude pode ser a mesma do automobilista em contramão que acha que todos os outros vão na direcção errada, mas adiante. Ao longo do debate acerca da invasão do Iraque, JMF revelava nas suas crónicas no Público, compiladas em “Ninguém É Neutro” (Quetzal, 2003), uma argumentação superior ao discurso troglodita de muitos apoiantes da iniciativa de Bush e Blair. No fundo, Fernandes foi metaforicamente para a guerra por ser um homem de fé (usava muito a palavra “acredito”). Não em Deus, mas na vontade dos EUA de usarem os seus super-poderes para o bem. Também interessante é a obra autobiográfica “Era Uma Vez… a Revolução” (Alêtheia, 2012), na qual JMF narra os seus anos de jovem militante maoista e, ao contrário de Zita Seabra, revela estar em paz com o seu passado, até porque nega ter feito algo de violento ou irremediável na década de 70. Embora sem sentido de humor, Fernandes é um jornalista experiente que procura ser lúcido na sua análise.

 

Ou procurava, já que, ultimamente, a pena de JMF demonstra um azedume crescente, não tão visível nas suas intervenções televisivas. Não é propriamente uma surpresa ver JMF atacar a Geringonça. Logo em Outubro de 2015, o cronista deixou claro como a opção tomada por António Costa após as eleições era imperdoável. No entanto, a falta de notícias positivas para a direita tem realçado uma vertente pouco agradável da persona de JMF enquanto comentador, o discurso moralista. Ao intervir na polémica acerca dos “copos e mulheres” do presidente do Eurogrupo, Fernandes até poderia acertar na crítica à tendência de culpar sempre os outros pelos nossos problemas, mas perde-se quando enumera aquilo que “nós” fizemos antes do resgate (bolas, o que é que eu tinha na cabeça quando comprei o BMW e o Mercedes?). Como diz José Mário Branco, a culpa é de todos em geral e não é de ninguém em particular. Curiosamente, o “nós” nunca inclui JMF, geralmente parco em autocríticas ao que fez depois de 1980. O post-scriptum a fechar o artigo de Fernandes resume a ideia central: União Europeia, Portugal, pais, filhos, tudo se equivale. Se os mais velhos humilham os jovens, é porque estes merecem um puxão de orelhas. Afinal, Portugal seria uma maravilha se não tivesse portugueses lá dentro.

 

 

A superioridade moral da direita tem assumido vestes diferentes consoantes os cronistas. Por exemplo, enquanto João César das Neves encarna o padre a censurar na homilia os pecados dos fiéis, JMF é o pai obrigado a manter na linha um filho preguiçoso. A mensagem de Fernandes pode ser resumida assim: “Filho, tu estás sempre a queixar-te. Sabes o que eu passei quando tinha a tua idade? E queixava-me? Eu nem piava, era sempre a trabalhar no duro, e foi assim que aprendi o que custa a vida. Tu achas que és perfeito, mas depois quando há bronca cá está o papá para te safar, não é? Passas o dia no telemóvel e no computador, meu mandrião. Tás sempre a pedir guito para gajas e cervejolas. Pois acabou-se! As coisas mudaram cá em casa! Vais ficar fechado no teu quarto e estudar dia e noite sem parar. Chega de lamúrias! Assume as tuas responsabilidades! Ouve, é para teu bem. Só trabalhando muito e tendo boas notas é que arranjas um bom emprego. Mas não vás para funcionário público, são só chulos e comunas.”

 

Numa altura em que Pedro Passos Coelho está (por enquanto) na mó de baixo, muitos consideram o presidente do PSD demasiado fechado ao exterior do seu círculo próximo. Na verdade, acho que Passos apenas lê e ouve as opiniões de José Manuel Fernandes e dos outros “ultras” do Observador, cada vez mais embrenhados numa realidade paralela construída com teorias da conspiração, embora se julguem os homens e mulheres mais realistas do país. E, para eles, o líder “laranja” não tem de mudar. São os outros 10 milhões de portugueses que estão errados, não Passos Coelho.