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O pato capitalista

Há algum tempo, elogiei o livro “Capitalismo. Porque Não?”, no qual Jason Brennan define uma sociedade capitalista ideal a partir do programa infantil “A Casa do Mickey Mouse”. Curiosamente, a série de animação não inclui a personagem da Disney mais associada ao capitalismo, o Tio Patinhas. Na verdade, o tio de Donald, Gastão e Peninha e tio-avô de Huguinho, Zezinho e Luisinho representa as contradições do modo de produção vigente à escala global.

 

De acordo com a informação deixada pelo seu criador Carl Barks (um defensor assumido do capitalismo), Patinhas é um pato escocês emigrado no final do século XIX para a América, onde enriqueceu na corrida ao ouro do Klondike. A partir daí, a poupança, persistência e empreendedorismo de Patinhas, tal como a sorte fornecida pela sua “moedinha n.º 1”, levaram-no a atingir o estatuto de pato mais rico do mundo sem nunca violar a lei. Modelo do “self-made-duck” que agradaria a qualquer liberal, Patinhas controla empresas espalhadas por todo o planeta, contribuindo para a criação de emprego. Longe de levar uma existência ociosa e tranquila, o velho “quaquilionário” trabalha continuamente, envolve-se em inúmeras aventuras na busca de novos rendimentos e vê a sua fortuna em perigo devido a ameaças como o fisco, bruxas, ladrões ou rivais menos escrupulosos nos negócios, situação que reforça a sua imagem de vítima e capitalista “nobre”.

 

No entanto, além de se ter tornado um símbolo da avareza, Patinhas encarna várias das características negativas do capitalismo ao pagar salários baixíssimos aos seus empregados, despedidos sem indemnização ao sabor dos caprichos do magnata. O dono da caixa-forte limita-se a acumular capital, sem reinvestimento produtivo, e nega-se de forma egoísta a fazer doações para qualquer causa humanitária. Patinhas dedica-se obsessivamente ao dinheiro e não possui qualquer interesse pela cultura ou pela espiritualidade. Nas suas relações com os familiares, o pato é quase sempre antipático, autoritário e insensível. A marca imponente da caixa-forte na paisagem urbana de Patópolis não corresponde a qualquer benefício retirado pela cidade da actividade de Patinhas. Pelo contrário, as indústrias poluentes do empresário prejudicam a qualidade de vida dos cidadãos.

 

Esta caracterização pode parecer ridícula, já que se trata “apenas” de uma BD para crianças, mas, em 16 de Outubro de 1975, o Diário de Notícias de José Saramago incluiu na sua secção “Artes e Letras” uma crítica marxista das revistas da Disney (“subprodutos disneynianos”), assinada por Cármen de Carvalho, na qual se denunciam as injustiças sociais (como a subalternização das personagens femininas) no universo de Patópolis e a opressão exercida pelo “autocrático Tio Patinhas” sobre os restantes patos, que nunca se revoltam contra o sistema. O artigo é acompanhado por um desenho onde Patinhas manifesta implicitamente o seu apoio ao PS. No mesmo mês, foi publicada a edição portuguesa do ensaio “Para Ler o Pato Donald”, uma crítica feroz à ideologia da Disney escrita em 1971 pelos chilenos Ariel Dorfman e Armand Mattelart.

 

Que político receberia o apoio do Tio Patinhas na actualidade? Caso continuasse a viver nos EUA e beneficiasse da redução dos impostos de que tanto se queixa, Patinhas estaria ao lado do presidente homónimo de um dos seus sobrinhos?